Estado tem tido política “errante” no apoio ao e-learning

Estudo aponta falta de continuidade na aposta pública e fraca capacidade de inovação no ensino à distância. Os consumidores podem estar “a comprar gato por lebre” quando adquirem um programa de formação deste tipo, alertam investigadores.

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Garantir a qualidade das formações é o grande desafio das empresas que fornecem ensino à distância Daniel Rocha

“Tem havido uma política errante por parte dos poderes públicos, que não consegue apontar para uma agenda digital”, sustenta Ana Dias, a investigadora da TecMinho que coordenou o estudo Panorama e-learning Portugal 360°. A TecMinho é um interface de tecnologia e conhecimento da Universidade do Minho.

A avaliação coordenada por Ana Dias tem por base os últimos 20 anos, ao longo dos quais, diz, tem havido um crescimento “bastante lento” do ensino à distância.

O retrato que é feito indica que a evolução no sector tem sido movida “à base de financiamentos públicos”, sobretudo comunitários. No anterior quadro comunitário de apoio (QCA III, que durou entre 2000 e 2006) o ensino à distância foi considerado prioritário e recebeu uma substancial fatia do investimento disponível, permitindo dar um incremento ao sector. Nessa altura foi criado, por exemplo, o Instituto para a Inovação da Formação e outras estruturas que foram favorecendo o desenvolvimento desta área de formação.

Com o QREN (2007 a 2013), a aposta foi “abandonada”, sendo o financiamento disponível para formação canalizado para programas como o Novas Oportunidades.

“Gato por lebre”
Ana Dias considera que e-learning se tornou “uma área marginal”, prevendo que no próximo quadro de financiamento europeu que está a ser ultimado, esta tendência venha a manter-se, acentuando estas dificuldades.

A falta de continuidade na aposta pública tornou-se um problema para o sector, que perdeu a orientação com que vinha actuando e colocou obstáculos às empresas e outras organizações que operam no terreno. O que a investigação da TecMinho percebeu é que esta situação acabou por desregular um sector onde algumas entidades se debatem para conseguirem manter-se em actividade. “Em última análise, isto configura uma distorção em que não há nenhum critério de qualidade em vigor”, explica Ana Dias, alertando que os consumidores podem estar “a comprar gato por lebre” quando adquirem um programa de formação por e-learning.

Garantir a qualidade das formações é, por isso, o grande desafio do sector. O campo de regulação do ensino à distância em Portugal “parece ser incipiente ou insuficiente quanto comparável” com outros países da União Europeia, apontam os investigadores da TecMinho no estudo recentemente publicado.

Segundo o mesmo documento “não existe uma regulação transversal a nível nacional, que seja transparente e eficaz”. Por isso, como culminar do projecto, foi apresentada a primeira carta da qualidade do e-learning em Portugal.

Modelo pouco moderno
O Panorama e-learning Portugal 360° foi desenvolvido durante um ano e meio pela TecMinho, juntamente com a Quaternaire Portugal.

O estudo revela o estado da arte da área a nível nacional, colocando-o em confronto com o que está a acontecer a nível internacional. Os investigadores defendem a necessidade de as instituições nacionais darem um salto qualitativo na sua oferta, quer na forma — deixando as tradicionais plataformas fechadas, por exemplo —, quer na capacidade de inovação tecnológica.

A coordenadora explica que a maioria das empresas e organizações que operam na área fazem-no ainda num modelo “um bocadinho tradicional”: “Tem que adoptar um ensino mais moderno, mais actualizado, usando mais multimédia, por exemplo.”

O Panorama e-learning Portugal 360° encontra ainda um grande deficit de empresas no mercado que tenham capacidade de exportar soluções, num negócio com potencial para ser colocado em qualquer parte do mundo e onde a Lusofonia pode ser uma mais-valia. “Para a maior parte das empresas de formação é mais fácil abrir uma filial em Luanda do que fazer formação à distância para Angola”, ilustra Ana Dias.

Um selo de garantia para os consumidores
A conclusão de que o sector do ensino à distância estava desregulado levou a TecMinho a apresentar a primeira carta de qualidade do e-learning em Portugal, um documento que estabelece um conjunto de parâmetros para que as organizações possam avaliar aquilo que estão a oferecer ao público e que possa funcionar como um “selo de garantia” para os consumidores.

O documento tem nove páginas e aponta uma série de indicadores de qualidade e avalia questões como o conteúdo das formações, a logística, a pedagogia ou a componente tecnológica.

O formato “ajuda as organizações a fazerem a sua própria implementação”, explica Ana Dias, da TecMinho, pelo que cada empresa de formação pode pegar neste modelo a criar a sua própria carta de qualidade. Ao mesmo tempo, o documento funciona como um guia de boas práticas que estabelece um conjunto de parâmetros base a partir do qual cada um pode escolher o seu próprio projecto.

A carta de qualidade é vista sobretudo como uma forma de auto-regulação por parte das empresas e outras entidades que estão no mercado do ensino à distância, mas a TecMinho acredita que ela pode também ser apropriada pelo sector público, tendo a expectativa que o Instituto Português da Qualidade, por exemplo, a leva em conta nas suas recomendações futuras.

No âmbito do mesmo projecto, a equipa da TecMinho também lançou uma ferramenta online com a qual espera poder dar continuidade ao projecto: um observatório digital do e-learning, alojado num site que servirá como ponto de contacto entre os actores da rede e partilha de material, sobretudo em língua portuguesa.