“Falta” à praxe impede finalista da Universidade de Évora de queimar as fitas

Maria Rita Lavado Moreno é finalista da licenciatura de Sociologia, na Universidade de Évora, e não pôde queimar as fitas porque não foi praxada.

Foto
Pedro Cunha

“Eu sou trabalhadora-estudante, chego à universidade já passa das 17h e nunca ninguém se chegou ao pé de mim para me praxar, até porque se o tivesse feito, eu não me teria negado, porque nunca me declarei anti-praxe”. É deste modo que Rita Moreno explica a razão pela qual nunca foi praxada. Estas justificações não convencem o Conselho de Notáveis da Universidade de Évora que a impediu de queimar as fitas no sábado à noite. “Não é a primeira vez que os notáveis fazem isto. E acho que é muito injusto, pois acabam por ser uma seita igual a outras quaisquer”, critica a finalista.

Rita Moreno está revoltada por não poder partilhar o momento que representa o final de um percurso académico do qual diz orgulhar-se muito.

A estudante sublinha que falou por diversas vezes com o Conselho de Notáveis mas a resposta manteve-se sempre a mesma: "Não!”. A aluna recusa-se a aceitar que a praxe seja o principal requisito para queimar as fitas, sobretudo “porque foi com grande esforço e dedicação" que concluiu o curso.

Insistente, a finalista recorreu à reitoria mas vice-reitora explicou “não poder fazer nada, uma vez que a cerimónia da queima das fitas é da exclusiva responsabilidade do Conselho de Notáveis”.

Entretanto, a reitora da Universidade de Évora, Ana Maria Costa Freitas, confrontada com um outro caso de um membro da Tuna Académica, que estava igualmente impedido de participar na cerimónia da queima, reuniu com o Conselho de Notáveis e, depois de expostos os argumentos, estes repensaram a decisão e o tunante pôde queimar as suas fitas. Neste caso, o argumento era o facto de o aluno ter trajado quando ainda era ‘bicho’, portanto no primeiro ano, e por ter subido ao palco com o traje académico numa das actuações da tuna.

O PÚBLICO falou com a reitora da Universidade de Évora que afirmou que sensibilizou o Conselho de Notáveis para que, no próximo ano lectivo, “haja uma melhor explicação aos alunos sobre todo o percurso académico que culmina com a cerimónia da queima das fitas”. Ana Costa Freitas disse ainda não ter tido conhecimento oficial da situação de Rita Moreno.

Embora Rita Moreno não tenha conseguido concretizar a vontade de assinalar o final da sua licenciatura com a queima esteve ao lado dos seus colegas de curso nesse acto simbólico. Os notáveis impediram-na de queimar as fitas e a finalista pretende avançar com uma queixa, alegando que estes a insultaram.

O PÚBLICO contactou o Conselho de Notáveis mas não obteve resposta. Também o presidente da Associação Académica da Universidade de Évora escusou-se a fazer qualquer tipo de comentário.

Porém, um dos antigos notáveis da Universidade de Évora explicou que a Cegarrega, código de tradição académica, dava duas opções. “Todos os anos, quando os alunos se matriculam, pelo menos um notável fala individualmente com cada um deles e explica-lhes os passos. Ou percorre todos esses passos, um dos quais é a praxe, e está dentro da tradição académica ou se quer ser anti-praxe, assume-o e está fora”, sublinha, afirmando que os notáveis costumam ter um livro onde escrevem os nomes dos anti-praxes.