Nelson Garrido

Costa e Seguro enfrentam-se há 30 anos,
mas desta vez é a sério

De Penamacor ao Bairro Alto, de Soares a Guterres, houve traições, maneiras diferentes de ver o mundo e gestos simbólicos. Esta é a história da velha rivalidade de “Tozé” e “babush”. Um dos dois pode vir a governar o país.

A ruptura deu-se nos tempos da JS, num longínquo e orwelliano 1984. Os percursos dos dois homens que disputam a liderança do Partido Socialista cruzou-se, mas as suas biografias não o faziam prever.

Há ironias que só a história sabe construir. António José Seguro ganhou as últimas eleições para o Parlamento Europeu, mas a margem da vitória foi muito inferior à que o seu partido conseguiu há dez anos, em 2004: 44,53% dos votos então, 31,45% agora. Mas a ironia não está aí. Nem sequer no facto de António Costa ter sido, depois da morte súbita de Sousa Franco em plena campanha, o número um dessa lista vitoriosa. E sabemos como estes protagonistas de 2004 são os protagonistas, de novo, dez anos depois.

A ironia é esta, que Seguro revela, numa viagem de carro entre Amarante e as Caldas da Rainha: “Antes de ser convidado por Ferro Rodrigues para assumir a liderança do grupo parlamentar, em 2004, ele tinha-me convidado para a lista das europeias. Era certo que iria regressar ao Parlamento Europeu. Mas Ferro Rodrigues pediu-me para ficar e eu fiquei, apesar de ser, como se lembra, uma altura muito difícil para o PS.” A vitória que o ensombra não foi sua por um triz. 

António José Martins Seguro, 52 anos feitos no dia 11 de Março, está a regressar de Amarante, nesta tarde de domingo. A campanha começará, oficialmente, dentro de umas poucas horas, na segunda-feira, 12 de Maio. Está calor e o secretário-geral do PS dobra o casaco, com cuidado, e coloca-o no porta-bagagens do carro. Viaja no banco de trás, num híbrido, silencioso, que substitui o automóvel habitual que o PS lhe põe à disposição. O outro, que está para arranjo, chegou às mãos do senhor Albano, um dos seus motoristas, com zero quilómetros, em Julho de 2011. 
— Faltam dois meses para ter três anos. Quantos quilómetros fizemos, Albano?, pergunta Seguro. 
— Devemos ter feito uns 280 mil. O outro está com 250 e este já fez 30 mil…, responde o motorista.

De Lisboa a Wellington, Nova Zelândia, no ponto oposto do planeta, vão 12.500 quilómetros. Desde que é líder do PS, Seguro já fez dez viagens de ida e volta aos antípodas. Viagens metafóricas, essas. Porque o conta-quilómetros do carro socialista vive de deslocações internas. Das Caldas da Rainha, onde Seguro vive, a Lisboa, onde trabalha, e a qualquer canto do país onde haja um grupo de militantes, uma secção, uma concelhia, ou uma federação do PS. Isso ajuda a explicar onde reside o seu poder.

António Luís Santos da Costa tem a mesma idade, 52 anos e dez meses. Nasceu no dia 17 de Julho, de 1961, em Lisboa. E um poder de persuasão diferente. Quando há uma semana, no dia das eleições, saiu do estúdio da SIC, em Carnaxide, onde acabara de participar numa emissão especial do seu programa Quadratura do Círculo, enviou uma mensagem escrita para o telemóvel de Seguro. Pedia-lhe para falarem, ambos, sobre os resultados eleitorais. No programa, Costa considerara-os um “motivo de preocupação”.

Seguro responde (quase) sempre às mensagens escritas que lhe mandam. Seja quem for: militantes desconhecidos, adversários, jornalistas. À mensagem de Costa respondeu positivamente. Quarta-feira, dia 28, encontrar-se-iam.
Seguro percebeu que alguma coisa estava a correr mal pouco depois de ter chegado ao Hotel Altis, na Rua Castilho, em Lisboa, onde o PS se acostumou a acompanhar as noites eleitorais. O secretário-geral chegou, pontualíssimo, faltava um minuto para as cinco da tarde. Vinha no banco da frente, ao lado do senhor Albano. Mas cá fora, ainda sem resultados das sondagens à boca da urna, era convicção geral que o partido poderia vencer as eleições com uma margem dilatada sobre a coligação que apoia o Governo. 

PÚBLICO -
Foto
Selfie no Chiado durante a campanha para as europeias, com Martin Schulz Enric Vives-Rubio

O SMS

Seguro subiu no elevador para o 13.º piso do Altis e por lá ficou, recebendo, um a um, os dirigentes e históricos que iam chegando e recebiam um “livre trânsito” para aceder ao “quartel-general” do PS. António Costa não passou por lá. Nem nenhum dos seus mais próximos, excepto Jorge Lacão, que integrava (demitiu-se na quarta-feira, 28) o secretariado nacional do partido, órgão executivo restrito que se reuniu durante a noite para analisar os resultados.

Em Janeiro do ano passado, Costa e Seguro ensaiaram um acordo. Pressionado pelos críticos de Seguro, Costa chegou a anunciar aos seus vereadores que iria disputar a liderança. Tudo estava preparado. Porém, à última hora, numa reunião da comissão nacional — órgão máximo entre congressos — acabou por recuar. A saída encontrada para o impasse foi um “acordo” que garantiria a paz entre a direcção e os críticos. A substância do acordo é o “Documento de Coimbra”, um texto suficientemente vago e adaptável. Lacão passou a integrar o secretariado nacional, que tinha, agora, a ambição de representar todas as “tendências” do partido. Mas tudo isso durou pouco mais de um ano e não resistiu à análise dos críticos. 

Desta vez, Costa não reuniu o executivo da autarquia. Comunicou, informalmente, que decidira, sozinho, avançar. Isto foi na segunda-feira, 26. Na terça, 27, anunciou a decisão publicamente. Seguro tinha reservado esses dois dias para descansar, junto da família, nas Caldas da Rainha, onde mora com a mulher, Margarida, farmacêutica, e os filhos, uma menina e um menino.

A revolta no partido, liderada por Costa, mas que teve eco em ex-secretários-gerais, como Mário Soares e Ferro Rodrigues, apanhou-o de surpresa. Pensava que a vitória — a segunda, como frisou, “em menos de um ano” — tornaria inviável qualquer esforço dos seus adversários. Por isso, talvez, tenha carregado tanto nas tintas do discurso que leu, passavam 27 minutos das 10 da noite de domingo, 25, no Altis. “O PS teve hoje uma grande vitória”, disse, mais para consumo interno do que para o país que a via um pouco mais renhida.

A verdade é que a tensão, no 13.º piso do Altis, já antecipava qualquer coisa. E depois veio o sms de Costa.
Nem um nem o outro tinham descansado com o acordo de 2013. Depois disso, jogaram as suas cartas. Seguro propôs ao partido uma mudança dos estatutos que prevenisse o que agora parece inevitável — uma disputa pela liderança —, colando a eleição do secretário-geral ao ciclo eleitoral das legislativas. As outras regras mantêm-se e quem quiser ganhar o partido, antes de 2015, terá de recolher o apoio de 50% das federações, ou dos militantes, ou dos membros da comissão nacional. 

Costa também não ficou quieto. Antecipando este momento — o rescaldo de um eventual falhanço nas europeias —, reforçou a sua equipa na Câmara de Lisboa. Candidatou-se com um número dois de peso, Fernando Medina, que lhe garante a coordenação política da vereação caso necessite de se ausentar, pontual ou permanentemente.

São ambos, Costa e Seguro, experientes. “São dois homens de partido”, reforça Pedro Adão e Silva, professor de políticas públicas e comentador político, que os conhece a ambos. “Têm um percurso de muitos anos nas estruturas partidárias e uma ligação [ao PS] que passa também por uma dimensão afectiva. Foi por isso que Costa, no ano passado, cedeu à pressão de ‘preservar’ o partido.”

A Primeira Zanga

Esse longo percurso separou-os, bem cedo. O ano é 1984. Seguro tem quatro anos de militância e é um recém-chegado a Lisboa. Costa já conta nove anos de JS. O primeiro foi recrutado, em Penamacor, à beira de completar 18 anos. O segundo foi pelo seu pé à sede, em São Pedro de Alcântara, em Lisboa, e fez-se fotografar, com 14 anos, punho direito erguido e cerrado, no “Verão quente” de 1975, depois de se ter desiludido com os “métodos” comunistas. Ao pai, Orlando da Costa, escritor neo-realista, de Goa, comunista, passou a descrever o PCP como “lá os seus amigos…”. À mãe, a jornalista Maria Antónia Palla, confessou que a inscrição na JS era convicta, mas o partido “não é tão à esquerda como gostaria…”

Nesse ano de 1984, há 30 anos, Costa e Seguro separaram caminhos. Margarida Marques, a primeira mulher a ocupar um cargo de chefia partidária no Portugal democrático, concluía o seu mandato à frente da JS. Quem devia suceder-lhe? António Costa era o candidato evidente. Tinha 23 anos, estava a concluir o curso de Direito, era um “veterano” da Jota. Dava-se bem com toda a gente que importava no PS: Mário Soares, Salgado Zenha, António Guterres, Jorge Sampaio. Mesmo que todos eles divergissem entre si.

Reunia-se com o grupo que, nessa altura, se opunha à liderança de Mário Soares e integrava, entre outros, António Guterres e Jorge Sampaio, o “ex-secretariado”, que se juntava para serões prolongados no sótão do actual alto-comissário da ONU para os Refugiados, em Algés. Costa era o mais jovem, e aparecia nas reuniões levado pelo seu amigo, ex-líder da jota, Alberto Arons de Carvalho.

Quando chegou ao fim o mandato de Margarida Marques, marcado por uma actividade política intensa (legalização do aborto, diálogo com a Juventude Comunista, etc.), quer Soares quer Guterres, apesar da rivalidade, acabaram por concordar que a “linha” da JS devia ser menos intensa.

Surge o nome de José Apolinário, que Costa conhecia bem, já que era líder da associação de Direito, numa lista que ele mesmo tinha tratado de eleger. A solução para a JS é toda ela concebida por Costa. Porfírio Silva, o candidato apoiado por Margarida Marques e derrotado pela lista de Apolinário, hoje reconhece: “Embora na altura não tenha gostado, António Costa conseguiu montar uma candidatura que contava com o apoio da direcção do partido e do ex-secretariado. É uma prova da capacidade que ele tem para fazer pontes.”

O problema surgiu depois. Apolinário e outro jovem, “Tozé” Seguro, aliam-se para acabar com a influência de Costa na JS. Sentem ambos que já não precisam de uma figura tutelar. E mais: Seguro é indicado por Apolinário para o conselho nacional da juventude, uma estrutura criada no tempo de Margarida Marques, a que o jovem de Penamacor presidirá, ganhando notoriedade. Também ele faz pontes. Mas com a JSD, liderada então pelo seu grande amigo — e padrinho de casamento — Carlos Coelho, actual eurodeputado do PSD. Em 1990, Seguro rompe com Apolinário e torna-se ele próprio presidente da JS, sempre contra Costa. 

A disputa entre os dois permanecerá na organização, por interpostos militantes, de um e do outro lado, anos a fio: Sérgio Sousa Pinto, que sucedeu a Seguro, apoia Costa; Jamila Madeira, que sucedeu a Sousa Pinto, apoia Seguro, Ana Catarina Mendes, que sucedeu a Jamila, apoia Costa...

A relação entre os dois azeda. Costa sente-se traído, Seguro considera-o arrogante. Quem vê de fora pode, até, vislumbrar uma razão para ambas as recriminações. 

As Origens

António Costa cresceu no Bairro Alto, em Lisboa. Estudou no Conservatório de Lisboa, onde aprendeu ballet, mas acima de tudo a conviver num mundo de diferenças. Na escola, havia de tudo: os filhos das famílias ricas de Santa Catarina, mas também os filhos das prostitutas e dos operários. Em casa tinha livros em pilhas. Pais intelectuais, que se divorciaram cedo, com amigos “do contra”.

Passa a semana com a mãe e os fins-de-semana com o pai, que o trata por um petit non em concanim “babush”, que significa “menino” na língua goesa. Orlando da Costa, que morreu em 2006, cumprimentou-o sempre assim, mesmo nas cerimónias protocolares de investidura a que foi, com orgulho, apesar de ser militante do PCP desde 1954 e, nessa qualidade, preso político da ditadura.

O bairro era cosmopolita, a família era cosmopolita. O avô paterno era um goês católico, com uma linhagem que remonta ao século XVI. A avó Amélia Frechaut era de origem francesa. O pai nascera em Moçambique. A mãe levou-o, desde muito novo, a passear pela Europa. 

Em Penamacor, António Seguro era o mais novo de três irmãos, todos rapazes. O pai, Domingos Seguro, passou-lhe uma rotina: ler os jornais, diariamente. Com Maria do Céu, a mãe, que morreu em 2011, geriam uma papelaria. E era à porta que António José montava uma banca com livros e jornais da esquerda revolucionária, logo após o 25 de Abril, que o apanha na flor da idade, com 12 anos. 

A família Seguro há-de conquistar a terra para o PS, mas para isso foi preciso que Porfírio Saraiva, dirigente local, visse naquele jovem as qualidades de organizador que ele já mostrava. Fundou um jornal, policopiado, A Verdade de Penamacor, e com o seu primo, que actualmente integra o secretariado do partido, Jorge Seguro Sanches, criou também uma associação cívica, Geração 2000.

Jogava futebol — conta-se que sem lugar fixo, ora à baliza, ora a ponta-de-lança — na ADEP (Associação Desportiva de Penamacor) e dava treinos de ginástica e atletismo a jovens da terra, gratuitamente. A sua primeira experiência política é local: funda a primeira concelhia da JS na terra e vai angariando militantes. É candidato à Assembleia Municipal e ganha. Tudo isto antes de partir para Lisboa, para um curso de Gestão de Empresas no ISCTE, que nunca chegará a concluir, graças à política. Tirará Ciência Política quase 20 anos depois.

É nesses primeiros tempos de Lisboa que se zanga com António Costa e conhece Pedro Passos Coelho e Miguel Relvas. Com o actual primeiro-ministro, a relação nunca chegará a ser de amizade. Nos primeiros tempos, em que ambos, estudantes deslocados na capital, fazem noitadas no Bairro Alto, o clima até podia ser propício. São, os dois, clientes assíduos da Adega Ribatejana e consta que chegavam a cantar fados, em noites mais animadas.

Mas quando coincidem na liderança das jotas rivais, Pedro na JSD e António José na JS, a relação esfria. Até hoje. Com Miguel Relvas, a amizade veio mais tarde, a ponto de o ex-ministro ter confidenciado que “dormiria descansado” se Seguro fosse primeiro-ministro.

PÚBLICO -
Foto
1991, Congresso do PS: Jorge Sampaio perde as legislativas para Cavaco Silva. Seguro sempre apoiou António Guterres Ilídio Teixeira/Arquivo

Os Governos

Costa integra o secretariado do PS desde 1987. E torna-se um dos mais respeitados conselheiros de Jorge Sampaio, como prova o momento em que este lhe confidencia “sou eu”, depois de um longo impasse sobre quem seria o candidato socialista à Câmara de Lisboa, em 1989. Juntos farão o primeiro — e único — acordo pré-eleitoral PS-PCP. Costa trazia uma experiência de “frente de esquerda”, nos tempos em que ganhou a associação de estudantes do Passos Manuel, numa lista conjunta com os comunistas liderados por Miguel Portas. A partir daí, passaram sempre a tratar-se por alcunhas: Costa era Bernstein (Eduard Bernstein, social-democrata alemão); Miguel era Suslov (Mikhail Suslov, teórico comunista ortodoxo soviético). 

Sampaio ganha a capital (1989), mas o PS perde o país para Cavaco (1991). E Guterres lança-se contra ele, no partido. António Seguro é um dos seus apoiantes. Numa cena que faz lembrar a que hoje se assiste no PS, o partido divide-se. Costa está com a “ala esquerda” de Sampaio que sai derrotada. Mesmo assim, graças ao seu prestígio, Guterres chama-o.

Seguro vai para Espanha aprender a fazer campanhas eleitorais, com o PSOE de González. Ajuda a organizar os Estados Gerais em 1994. Quando Guterres forma Governo no ano seguinte, Costa e Seguro são chamados para duas pastas subalternas. O primeiro para secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, o segundo para secretário de Estado da Juventude. Vêm daí duas das alcunhas que os críticos gostam de usar contra Seguro: “O eterno jovem” ou o “jovem velho”.

Costa é o primeiro a chegar a ministro, em 1997, com a responsabilidade da Expo-98. Seguro vai para o Parlamento Europeu em 1999. No segundo Governo de Guterres, Costa passa a ministro da Justiça. Reencontrar-se-ão, em 2001, quando Guterres manda chamar Seguro para seu ministro adjunto, cargo que ocupará por escassos nove meses, porque o “pântano” se impôs. Foi o seu único cargo ministerial. Mas a proximidade com Guterres era evidente. Na noite em que perdeu as câmaras de Lisboa, Porto, Sintra e várias outras para candidatos-surpresa do PSD, Guterres tinha Seguro ao seu lado quando desabafou: “Isto assim não pode ser…”

O Que Os Separa?

PÚBLICO -
Foto
António Costa integrou o secretariado do PS desde 1987 e tornou-se num dos mais reconhecidos conselheiros de Jorge Sampaio. António Guterres, quando forma Governo, vai chamá-lo para a pasta dos Assuntos Parlamentares Paulo Carriço/Arquivo

Desde logo a experiência. “Seguro não teve, de facto, funções executivas, com uma pasta governamental; enquanto Costa geriu várias e ainda tem o mandato autárquico”, aponta Pedro Adão e Silva. Há, também, embora possam parecer subtis à primeira vista, algumas nuances no discurso. “Costa não partilha do discurso sobre os códigos éticos e de conduta, nem o posicionamento anticorrupção que Seguro elege como prioridade. E a reserva de Seguro face ao último Governo do PS [Sócrates] torna-o incapaz de defender programaticamente algumas coisas que são centrais para Costa, como o discurso económico baseado em procedimentos de simplificação administrativa como o Simplex e a desburocratização.” 

Costa pretende — e muitas vezes consegue — seduzir quem o ouve. Foi assim nas últimas cerimónias do 5 de Outubro, em que, como autarca de Lisboa, discursou nos Paços do Concelho. Várias vezes se disse que parecia ser ele o chefe de Estado ou o líder da oposição. 

Seguro prefere que o avaliem pela “coerência”. “Talvez o excesso de responsabilidade retire algum colorido ao meu idealismo”, diz-nos, procurando ser autocrítico. O secretário-geral do PS prefere ouvir. “Não consigo estar na política sem ouvir o que pensam as pessoas. Sempre fui assim.”

Nesta campanha ouviu de tudo. Histórias tristes e piropos. Chamaram-no para lhe dizer: “Você é o nosso Cristiano Ronaldo.” Até uma freira, numa visita a um centro social em Setúbal, lhe disse — o que o deixou visivelmente constrangido — “é a nossa última esperança”. Será que as pessoas são mesmo assim? Dizem uma coisa destas a um político, na rua, e depois trocam-lhe as voltas no voto? “Os meus colaboradores mais próximos dizem-me que seria bom que cada português me conhecesse pessoalmente.” Seguro não ignora as críticas. “Às vezes, dizem-me: ‘Estou a gostar de si, mas tem de ser um bocadinho como os outros’, ou então ‘tem de ser mais duro’.”  Para os militantes, a escolha é difícil. 

De um lado, Costa, uma “máquina eleitoral”, que conseguiu mais de 50% dos votos da capital, há menos de um ano, que contém eleitoralmente a esquerda e é combativo no terreno da retórica com a direita. Do outro, está Seguro, que ganhou duas eleições mas não provou ser capaz de capitalizar o descontentamento com o Governo, nem de iniciar uma estratégia de convergência com a restante oposição.

O actual líder preparou-se, pacientemente, para chegar onde está. “As monarquias sempre prepararam os príncipes para governar. Não percebo por que a democracia não o faz também”, explica, na viagem de regresso de Amarante.  Compreende que a adesão popular à sua mensagem não seja imediata: “As pessoas estão tão de pé atrás que precisam de tempo para avaliar as propostas e os protagonistas. Por isso quero trabalhar numa base séria e não ilusória. Eu sei o que as pessoas me dizem: ‘Não me desiluda…’”
Ambos têm apoiantes incondicionais. Conquistados pelas qualidades, mas também pelos gestos de generosidade que, tanto um como o outro, exibem naturalmente. Um colaborador de Seguro conta como, certa noite, o actual líder interrompeu as suas férias no Sul do país para aparecer no velório de um familiar. “Não sei como ele soube, porque eu não o avisei”, lembra, preferindo manter o anonimato. “É um gesto que nunca esquecerei.”
Costa manteve por perto os seus apoiantes, mesmo quando os tempos não corriam de feição. Marcos Perestrello, o actual líder da federação lisboeta, e boa parte da equipa que dirigiu a JS no tempo de Sérgio Sousa Pinto, foram crescendo à sua sombra.

O dia em que Seguro perdeu seis anos

PÚBLICO -
Foto
No Hotel Altis, a 17 de Março de 2002, está reunido o Partido Socialista para conhecer os resultados das legislativas, que dão vitória ao PSD Miguel Silva/Arquivo

Mas há momentos em que até os amigos nos desiludem. O enredo parece saído de um filme de terror. Tem, até, um cenário digno de Stanley Kubrick, o Hotel termal da Curia. A época: o fim da liderança de Ferro Rodrigues.

Este texto começou por aqui. Seguro é líder parlamentar, Costa foi para Bruxelas, embalado por uma vitória significativa do PS sobre o PSD e o CDS coligados. Durão Barroso, que chefiava o Governo em Lisboa, aproveita os tempos em que pontificava na “nova Europa” de George W. Bush, Tony Blair e José-María Aznar — os seus parceiros da Cimeira das Lajes que ditou a Guerra no Iraque — para vislumbrar uma oportunidade: a presidência da Comissão Europeia. 

Fragilizado pelo “caso Casa Pia”, que martirizava o PS e levou à detenção preventiva do número dois do partido, Paulo Pedroso (que nunca chegou a ser acusado em tribunal), Ferro Rodrigues não convence o Presidente da República, Jorge Sampaio, a convocar eleições antecipadas face à saída de Barroso. Zangado com o seu amigo Sampaio, Ferro demite-se. O PS agita-se para a sucessão. Seguro pensa em avançar. Mas há outros candidatos.

Quem gere a sucessão é, mais uma vez, um velho amigo: “O Jorge Coelho ligou-me a convidar-me para o Hotel da Curia com o objectivo de falar com uns amigos sobre o futuro do PS. Quando lá cheguei, percebi que era mais do que isso...” Esta é a versão do próprio Seguro, citada no livro Jorge Coelho, o Todo-Poderoso, do jornalista Fernando Esteves (ao qual fomos buscar o diálogo das linhas seguintes). 

De facto, fora Fausto Correia a ter a ideia de convocar a cimeira, mas depois não apareceu. Coelho ficou entregue a si próprio e pôs um travão a Seguro.
— Este não é o momento para avançares. Não tens condições no partido, onde, se o fizeres, serás derrotado pelo José Sócrates. E não és o melhor colocado para ganhar eleições legislativas. Uma candidatura tua vai partir o PS ao meio e isso é muito prejudicial para o partido.

Seguro ficou destroçado.
— Não lhe reconheço capacidade para ser o meu líder. Por que é que tenho de o aceitar se achar que tenho mais condições do que ele?
— Eu penso que ele tem mais condições do que tu.

Seguro nunca passou de deputado, nos seis anos em que Sócrates liderou o partido e o Governo. Era um crítico — toda a gente o sabia — mas foi sempre discreto, raramente expressando, em público, o seu desacordo.  Costa foi o número dois do Governo, ministro de Estado. Saiu, quando a sua “coligação” com Sócrates já mostrava sinais de desgaste. Ganhou a Câmara de Lisboa ao PSD e por lá ficou, iniciando a sua carreira de comentador televisivo.

Hoje, Seguro repete que se “irrita” sempre que “adulteram, enganam e mentem” a seu respeito. Mesmo assim, garante, não guarda rancores: “Às vezes, dizem-me que ficam admirados com determinado convite que dirijo, porque pensavam que eu estaria chateado. Nada disso. Não gosto de ajustes de contas.”

Coelho regressou, pela sua mão, ao partido, depois de sair da Mota & Engil. Assis, que foi seu adversário na corrida à liderança, foi o seu cabeça de lista às Europeias e está consigo na actual contenda com Costa. Mas o seu adversário mostra, na prática, que consegue atrair mesmo os mais distantes. Na Câmara de Lisboa, tem um vereador que foi candidato pelo BE, José Sá Fernandes, e a independente — e muito crítica — Helena Roseta. “É uma lista PS mais”, disse, na altura Roseta. “Esta vitória dá um sentido de esperança e de futuro para Lisboa e para o país”, reforçou Costa, indiciando que o seu olhar não estava centrado apenas na autarquia.

A culpa é deles ou o socialismo está em crise?

Seguro e Costa podem ser, e são, muito diferentes, mas a última dúvida que os portugueses têm não é quanto às suas características pessoais. Será, mais, quanto ao que se propõem fazer. Em Portugal e na Europa.

Perguntámos a Manuel Alegre, um dos históricos socialistas portugueses, o que se espera de um líder socialista, hoje, em Portugal. “Compreender o que se está a passar”, responde prontamente. “Estas eleições mostraram que há uma rejeição desta Europa, tal como existe, e uma punição dos partidos do sistema. Na noite das eleições, no Altis, passei uma hora a falar com o Eduardo Lourenço. É inconcebível o que aconteceu em França, com a vitória da Frente Nacional. Quanto a mim, um líder do PS tem duas rupturas a fazer: uma face a estas instituições europeias, dominadas pelo capital financeiro; a outra face à sujeição interna de Portugal e ao caminho da austeridade.” 

Para Alegre, a hipótese de o PS participar, futuramente, num “bloco central” ou num Governo com os partidos da direita “seria a machadada final no nosso sistema político”. “O PS deve propor um diálogo aos restantes partidos da esquerda, como o Livre, a Renovação Comunista e até a Marinho Pinto, que tem preocupações democráticas. E temos de perguntar ao PCP o que quer. Será que o PCP prefere a direita no poder?”

Pedro Adão e Silva considera que essa é “a grande diferença” entre Costa e Seguro. “Costa tem uma experiência anterior, em Lisboa, de convergência. Já mostrou que consegue alargar o campo do PS.”

À esquerda do PS, há um constrangimento óbvio: o Tratado Orçamental, que os socialistas aprovaram, e impede os governos europeus de afrouxar a “consolidação das contas públicas”. Seguro garante que não havia alternativa: “Se o PS votasse de outra forma, isso poria em causa a manutenção de Portugal no euro”, garante.

Costa (que não respondeu ao pedido da Revista 2 para participar neste artigo) ainda tem de explicar duas coisas sobre a sua candidatura: porquê e para quê. Está previsto que o faça, ou com um texto programático ou com uma entrevista, ou ambos. 

“Sempre tive por adquirido que a pior coisa que a nossa geração podia fazer, um dia que lhe coubesse a liderança do PS, seria repetir as lutas fratricidas que enfraqueceram o partido durante dez anos, entre figuras tão notáveis como Vítor Constâncio, Jorge Sampaio, António Guterres, Jaime Gama. Foi um erro trágico que essa geração cometeu e que a minha geração não deve cometer.” Isto dizia Costa, numa entrevista à Visão, quando era ministro de Estado de Sócrates e elogiava a forma como o partido fora capaz, então, de superar as clivagens.

“Diz ter a certeza de que nunca será primeiro-ministro. Porquê?”, continuava a entrevista.  “Digo que nunca serei candidato a líder do PS, não são essas as minhas ambições e não percebo a obsessão de se discutir esse futuro improvável da minha existência, que não está na ordem do dia nem se perspectiva que venha a estar.” Isso era o que dizia em 2006. E sempre irritou os que nele viam uma vocação bem maior do que permanecer, para sempre, “um número dois”. Arons de Carvalho era um dos que lhe apontavam o destino de vir a liderar o partido. No seu livro de curso, em Direito, uma colega, Isabel Gonçalves, parece ter captado, em rima forçada, o dilema: “Era romântico e apaixonado/ mas não sabia bem por qual/ agora parece ter assentado/ e quer dar o golpe final.”

Seguro nunca teve o mesmo dilema. “Há sempre 20 ou 30 dirigentes que recebem estímulos para avançar. Eu sinto que tenho o dever, e a ambição genuína e sincera, de responder às expectativas que criei, dentro e fora do PS.”, diz-nos. Nas últimas semanas, Costa e Seguro desceram juntos o Chiado por duas vezes. Com Martin Schulz, ainda presidente do Parlamento Europeu, tiraram uma fotografia agachados, à equipa de futebol. Pareciam cordiais, palmadas nas costas, sorrisos. São, afinal, velhos conhecidos (embora Costa tivesse um dia contrariado esse facto numa entrevista). E sabem, nesta altura, que, ganhe quem ganhar, uma parte importante do partido terá de ser reconquistada. Foi sempre assim. Esta é apenas a primeira vez em que os dois se enfrentam à vista de todos. Demorou 30 anos. 

PÚBLICO -
Foto
António Seguro e António Costa na campanha para as autárquicas em 2013 Nuno Ferreira Santos