Crónica

A selecção já tem “coiso” e uma “força sempre a crescer”. Tenham medo

A selecção já tem hino, anunciou nesta quinta-feira a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) com estrondo no seu site na Net.

“Kika, a jovem estrela da música portuguesa, dá voz a Vai Portugal!, música apresentada esta quinta-feira em Óbidos. Veja o videoclip”, diz-nos a FPF.

Fui ver. Num primeiro momento fiquei sem conseguir pensar. Foi a primeira vez que me aconteceu. Num segundo momento, fiquei tipo António José Seguro no minuto em que viu o António Costa anunciar nas TV’s que era candidato a secretário-geral do PS, que não sei explicar como é, mas não é coisa boa.

Comecemos pelo título, Vai Portugal! Vai? Então não se sabe já há muito tempo que a lusa selecção ia? Vai para onde? Então não era para o Brasil?

Então lembrei-me que quem fez o vídeo não é português — um tal RedOne, que a FPF diz ser um “famoso produtor e compositor”. Devem pois ter explicado mal a proposta ao tal RedOne (se calhar também dava um bom treinador para o Benfica), que deve ter ficado a pensar que a encomenda era outra.

Quanto à cantora, uma tal Kika, que a FPF apresenta como “a jovem estrela da música portuguesa”, não conheço. Peço desculpa, com a crise do país e do PS tenho ouvido pouca rádio para lá das notícias.

A música é tipo abana-para-a-esquerda; abana-para-a-direita; levanta-os-braços; baixa-os-braços; abana-a-cabeça e agora-corre-um-bocadinho. Um pop que dá para tudo, desde passar a ferro a ter sexo com alguém 25 anos mais novo ou mais velho que nós.

E agora o filme. Rapidamente se percebe que tenta mostrar Portugal e a paixão da sua gente pela bola.

A paixão é revelada com uns rapazes e raparigas a correrem de um lado para o outro com as cores de Portugal e a verem jogos pela televisão; um homem com um bigode farfalhudo e um pastor de fartas barbas, vestido com uma samarra e com meia-dúzia de borregos a correrem. Há também um barbeiro e um padeiro, que têm em comum o facto de não terem nem barba nem bigode.

Mostra ainda uma senhora a estender uma bandeira portuguesa na corda da roupa e Kika no meio do Estádio Nacional (uma provocação a Pinto da Costa), primeiro sozinha e, já no final, com uma data de malta a mexer os braços para baixo e para cima. Pelo meio, umas crianças batem palmas e mexem os braços.

Quanto à imagem de Portugal, tudo se resume a um cacilheiro, uma gaivota, um avião, uma vista geral de Lisboa, umas casas às cores, muitas varandas com flores, umas salinas e uma bandeira portuguesa.

Está pois tudo dito sobre a paixão lusa pela bola e pela imagem do país e as suas gentes.

Falta a letra. E aqui é que a coisa pia mais fino. Com refrão não há crise, podia ser a de qualquer selecção do mundo: “Portugal, meu Portugal/ de mãos dadas pela selecção/ Portugal meu Portugal/ todos juntos pela mesma paixão/ Portugal allez/campeão allez/ traz contigo mais uma vitória”.

Há, porém, fora do refrão, duas frases no mínimo polémicas. A primeira é quando a Kika canta: “Portugal que emoção nos teus pés a força da nação”. Até me arrepiei, só de pensar que a força da nação também está nos pés do Meireles, do Rafa e do Éder 

Mas mais polémico é quando a cantora diz: “Todos nós a torcer, uma força está sempre a crescer”. Kika? Uma força sempre a crescer? Que força a menina pensa que virá à cabeça do pescador, do barbeiro, do padeiro e do pastor da samarra? O IVA?

Só posso pensar que há mão do Passos Coelho, que pensa aproveitar a cantiga para hino do plano de natalidade.

Eis pois o hino da selecção para o Brasil. O que me custa é resumir tudo isto a uma palavra. Só me ocorre uma: o “coiso”. Aquilo que não se percebe bem o que é. É assim um “coiso” entre o pequeno Saul e os UHF.

Se Portugal não trouxer o caneco, pelo menos já há uma desculpa. Foi o “coiso”. Deu azar.

PS: Não terem colocado umas barbas à Kika é mais uma grande falha.

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