O realizador antes conhecido por O Artista foi à guerra da Tchetchénia

O mau cinema de Michel Hazanavicius nesta ida à guerra, a forma como se imobiliza na convenção, provocam um sentimento próximo do da indignação.

Michel Hazanavicius, o realizador antes conhecido por O Artista, exercício árido (e oscarizado) que utilizava o cinema mudo não como linguagem que foi interrompida pelo som mas como um compacto de trejeitos, foi à guerra da Tchetchénia. O Óscar e o dinheiro conseguido pelo Artista permitiram-no.

O encontro com Raphaël Glucksmann, para quem escreveu o argumento do documentário Rwanda: History of a Genocide (2004), foi o momento decisivo, qualquer coisa próximo de um despertar: Raphaël é filho do filósofo André Glucksmann, um dos poucos no Ocidente, segundo Hazanavicius, que foi alertando publicamente para os massacres na Tchetchénia. O que durante algum tempo foi actualidade jornalística, logo a seguir foi esquecido. Eis The Search (competição) no Festival de Cannes, para ir contra o esquecimento, “estar mais próximo do humano, e estabelecer uma relação mais directa com as personagens…”, segundo o realizador.  

São quatro personagens, cruzam-se: uma criança que se destaca da maré dos refugiados, depois de os pais terem sido mortos na aldeia pelo Exército russo – o elo mais visível com o The Search, de Fred Zinneman, filme de 1948 que inspirou Hazanavicius, mostrando o percurso em direcção à vida de um órfão do Holocausto; a irmã mais velha, que o procura no meio do êxodo; uma delegada da União Europeia encarregada de fazer profissionais relatórios sobre a situação dos direitos humanos (é uma versão feminina, numa personagem interpretada pela limitadíssima e também premiadíssima Bérénice Bejo, do soldado que Montgomery Clift interpretava no filme de 1948); e um jovem russo obrigado a alistar-se no Exército, aí perdendo a sua virgindade moral.

As pesquisas que fez permitem a Hazanavicius afirmar que o Exército russo “é uma máquina formidável de criar soldados”. O realizador está em condições de resumir, se lhe pedissem, a história militar de um país, situando no pós-queda do Muro de Berlim o desmantelamento do Exército Vermelho, e depois, nos tempos de Putin como primeiro-ministro do Presidente Boris Ieltsin, a criação de uma força militar à custa de mercenários. Thomas Langmann, produtor: “É uma realidade histórica, o exército russo fez massacres.”

À superfície, depois de uma brincadeira irónica, O Artista, eis uma coisa séria. É verdade, mas há pontos de contacto, e não tanto o facto de também neste filme existirem fundamentalmente duas personagens em percursos opostos, de ascensão e de queda (o miúdo e o jovem soldado aqui – Hazanavicius salienta a coincidência da semelhança física entre os dois actores, como variações de uma mesma amplitude humana; a estrela do mudo em declínio de Jean Dujardin e a actriz em ascensão de Bérénice Bejo em O Artista).

O que os aproxima, na verdade, é a dificuldade de, apesar de o título ser The Search, o filme ser incapaz de qualquer possibilidade de movimento que o faça evoluir, viver e complexificar a partir da convenção e do lugar estabelecido para cada personagem. Exactamente como O Artista não conseguia nunca sair do gadget. É um filme que parece construído não com tableaux vivants mas com quadros mortos, o que várias vezes ao longo da projecção, e depois no final, motivou alguns assobios e crispação: o mau cinema de Hazanavicius nesta ida à guerra, a forma como se imobiliza na convenção, provocam um sentimento próximo do da indignação.

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