Strauss-Kahn vai processar Abel Ferrara porque tem “direito ao esquecimento”

Filme apresentado durante o Festival de Cannes descrito pelo advogado do ex-director do FMI como "uma merda".

Dominique Strauss-Kahn, o ex-director-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), vai apresentar queixa judicial contra o filme do cineasta Abel Ferrara inspirado na detenção do responsável francês nos EUA em 2011, acusado de violação por uma empregada de um hotel. O seu advogado resume: Strauss-Kahn tem “direito ao esquecimento”.

Welcome to New York não integrou a selecção oficial do Festival de Cinema de Cannes, mas passou no último sábado à noite numa tenda montada na praia à margem do mais importante festival de cinema do mundo para cerca de cem jornalistas - e esteve disponível em vídeo on demand. Elogiado por grande parte da crítica, o filme protagonizado por Gérard Depardieu e Jacqueline Bisset é apresentado pelo cineasta como sendo uma ficção a partir de factos, e será agora alvo de “uma queixa por difamação” que dará entrada nos tribunais “dentro de dias”, segundo anunciou esta segunda-feira o advogado de Strauss-Kahn, Jean Veil.

O mesmo Jean Veil não se coibiu de descrever Welcome to New York à rádio Europa 1 como “uma merda, um cócó de cão” e, segundo cita a AFP, alude mesmo ao facto de o título da produtora norte-americana Wild Bunch conter “uma parte de anti-semitismo”.

Acusado de violação por Nafissatou Diallo, empregada de quarto do Hotel Sofitel de Nova Iorque em Maio de 2011, Strauss-Kahn caiu em desgraça, sendo detido e depois chegado a acordo, confidencial, com a sua alegada vítima no final de 2012. Logo em Maio de 2011, demitiu-se do seu cargo. O seu nome surgiria depois envolvido numa grande investigação sobre proxenetismo em Lille, França, o que levou a nova detenção – aguarda ainda julgamento por este caso, que deverá acontecer ainda este ano. A sua carreira política sofreu um revés aparentemente irrecuperável numa altura em que era apontado como potencial candidato às eleições presidenciais de 2012 em França.

Agora, depois de o filme há muito em preparação ter sido mostrado, Strauss-Kahn terá ficado “irritado e sobressaltado” – apesar de não ter visto, nem pretender ver, o filme - e “pediu aos seus advogados que apresentem uma queixa por difamação sobre as acusações de violação e sobre as insinuações” feitas ao longo do filme, disse ainda Veil. O advogado detalha que o procurador de Nova Iorque ilibou há três anos da forma “mais limpa” o seu cliente, referindo-se ao processo penal abandonado em Agosto de 2011 por contradições nos testemunhos da queixosa, invocando assim o “direito ao esquecimento” de Strauss-Kahn. “Há um direito à ficção, mas não há direito à acusação, tal como é apresentada neste filme. Basta ouvir as entrevistas dadas por todos, quer se trate dos actores ou do realizador, para compreender que se trata de Strauss-Kahn”, disse ainda o advogado, desta feita citado pelo Le Monde, sobre as precauções do projecto para que fossem apenas feitas alusões a situações e não identificados nomes, por exemplo.

Também Anne Sinclair, a jornalista francesa que se divorciou do ex-director do FMI meses depois do escândalo nova-iorquino, expressou publicamente o seu descontentamento com o filme de Ferrara. Interpretada no filme por Jacqueline Bisset, Sinclair não planeia recorrer à justiça contra Welcome to New York, falando ainda assim de “vómito” e de “sordidez” a propósito do projecto do norte-americano. No seu blogue na edição francesa do site Huffington Post, Sinclair considerou que o filme inclui ataques “claramente anti-semitas”, precisando: “As alusões à minha família durante a guerra são verdadeiramente degradantes e difamatórias”. O título do seu post é "Dégoût" (asco, ódio, repugnância).