Palavra da búlgara Nicoleta: “Nem que quiséssemos, não iríamos invadir nada”

Muitos jovens búlgaros sentem-se entre um país que não lhes dá hipóteses e uma Europa cheia de possibilidades de trabalho. Mas esta Europa nem sempre é o que imaginaram. E tem medo deles.

Nicoleta Georgieva ri-se. O melhor é levar estas coisas com sentido de humor: “Por favor, somos só sete milhões! Nem que quiséssemos, não iríamos invadir nada.” Apesar de estarmos num parque de Sófia cheio de estátuas evocativas de guerra, não é de forças armadas que estamos a falar, mas sim do discurso de alguns países europeus quando, em Janeiro, foram levantados os limites ao direito de búlgaros e romenos trabalhar em países como o Reino Unido e a Alemanha.

A imprensa de Londres e Berlim usou termos como “invasão” e a BBC chegou mesmo a ir esperar ao aeroporto quem vinha de voos de Bucareste e Sófia – para verificar que afinal ninguém vinha trabalhar.

É disso que Nicoleta se ri. Talvez ela possa ter esta reacção, porque gosta de viajar (“ginginha!”, diz, mal se fala de Lisboa) mas com o seu mestrado em Engenharia Civil, não terá problemas em encontrar emprego na Bulgária. Gostaria de ter uma experiência internacional, mas sempre com a perspectiva de voltar.

A búlgara que vai “invadir” o mercado de trabalho de outros países ou sobrecarregar o sistema social não será ela. Na verdade, não será quase ninguém. Segundo o diário britânico The Guardian, o número de romenos e búlgaros a trabalhar na Grã-Bretanha desceu desde que as restrições foram levantadas em Janeiro, segundo as estatísticas. Em Dezembro, havia 125 mil romenos e búlgaros a trabalhar no país, um número que desceu para 122 mil em Março.

PÚBLICO -
Foto
Nicoleta e Viktoria Joana Bourgard

Estes imigrantes são vistos como uma ameaça às finanças públicas. Nunca se falou tanto de “turismo social” como agora – os residentes que se mudam de país da União Europeia para beneficiarem de melhores programas de assistência social. Os búlgaros tornaram-se, a par dos romenos, símbolo desta ameaça.

Um estudo da London School of Economics (LSE) mostra, por outro lado, que os imigrantes que foram recentemente para o Reino Unido contribuíram muito mais em impostos pagos do que o que receberam em benefícios sociais.

PÚBLICO -
Monumento ao Exército Soviético no centro de Sófia Joana Bourgard

Mas vendo notícias, ninguém diria que os imigrantes da área económica europeia (UE mais três pequenos vizinhos) deram mais 34% em contribuições do que o que receberam em benefícios – numa contribuição líquida de 22,1 mil milhões de libras, ou seja mais de 26 mil milhões de euros, e que esta contribuição para as contas públicas britânicas foi essencial para o equilíbrio orçamental britânico, como diz a LSE.

Saiamos do parque por uns momentos para ir até à livraria Elephant Bookstore, onde está Matthew Willis, que sabe uma ou outra coisa sobre a Bulgária. O britânico (nota-se: caracóis ruivos e olhos azuis), está em Sófia “on e off” há dez anos, e acabou por abrir uma livraria de livros em inglês na capital búlgara. “O que tenho visto é que há um desejo muito forte de sair e viver no estrangeiro”, nota. “Mas depois são muito poucos os que são felizes – têm saudades dos amigos, do país. Não se sentem bem. Ouvi isso de várias pessoas que viveram no Reino Unido ou na América, que ficaram presos numa armadilha económica, de terem melhores salários e padrão de vida no estrangeiro mas sacrificando a qualidade de vida. É um paradoxo”.

Isto vindo de um imigrante que gosta muito de viver no seu “novo” país: “É uma boa base estável. Sófia é uma cidade calma, agradável, e segura. O país é bonito – tem montanhas mesmo aqui”, vêem-se a circular a cidade. Apesar de obviamente estrangeiro, não sente esse peso: “Já vivo aqui há algum tempo e falo qualquer coisa de búlgaro.”

Matthew fala de um imenso mal-entendido no seu país natal em relação aos imigrantes vindos da Bulgária e da Roménia. “Parece que é conveniente aos políticos ter uma história sobre imigrantes, e romenos e búlgaros encaixam bem. Não tem base nenhuma: é muito barulho, um modo de não discutir o que é importante”. Ainda por cima junta dois países “que são muitas vezes vistos como um só mas que na realidade não se vêem nada assim – aliás na adesão à União Europeia demoraram mais porque não queriam cooperar.”

PÚBLICO -
A cidade de Sófia está localizada num vale e rodeada de montanhas Joana Bourgard

Voltamos ao parque. É onde muitos estudantes da universidade descontraem depois de um dia de aulas, pontuado pelo barulho de bolas de pingue-pongue, o som de skates a rolar em fundo, acompanhado por uma ou outra cerveja.

É um lugar de descontracção um pouco estranho, um parque cheio de estátuas imponentes de soldados soviéticos… se bem que uma em especial se tornou uma tela de protestos: tem ainda vestígios de tinta da última vez em que foi pintada (e já foi colorida de Super-homem e Capitão América, adornada com passamontanhas a la Pussy Riot, e mais recentemente, com o amarelo e azul da bandeira da Ucrânia).

Debaixo desta escultura icónica estão Christiana, Mitko e Pettya, todos estudantes de vinte e poucos anos. Christiana queixa-se: “Muitas pessoas neste país não têm sonhos por causa da economia”. Mas ela está a trabalhar para os seus sonhos, que incluem ir embora. Trabalha na cadeia de fast-food Nordsee enquanto acaba o curso de Economia, e há vários anos estudava espanhol com ideia de viver em Espanha – “Ou Portugal, um país quente!” –, mas a crise no Sul estragou-lhe esse plano em especial. Agora pensa em Holanda ou Inglaterra. “Estou muito desapontada com o meu país. Está a tornar-se pobre por causa da política.”

PÚBLICO -
Foto
Ivan Dimitrov Joana Bourgard

Saímos deste parque e vamos para um outro – Sófia tem muitos parques e estão todos cheios de gente – ao encontro de Ivan Dimitrov. Ivan, barba e cabelos longos em dreadlocks, escreve. Para ganhar a vida, trabalha num bar. Para além disso, foi activista. É impossível falar da Bulgária hoje sem falar dos protestos que começaram em Junho do ano passado. Dias, semanas, meses sem fim houve manifestações, pessoas saíram dos seus empregos e juntaram-se à frente do Parlamento. Começaram por protestar contra uma nomeação controversa para o Governo, e a sua reversão foi a única coisa que conseguiram. Continuaram então a protestar contra o mau funcionamento das instituições e a corrupção e acabaram a pedir mais mudanças, até à demissão do Governo.

Mas nada mudou. “É uma situação muito estranha”, diz Dimitrov. É mais uma situação estranha num país que descreve como estando “numa crise política permanente há 24 anos”, num país que viveu ainda duas crises económicas nos anos 1990, uma delas, em 1996-97, em que muitas pessoas perderam todas as poupanças. Ivan não vai tão longe a ponto de dizer que visto deste ponto de vista, esta crise da Europa pareça “só mais uma crise”. Mas num país em que os anos 2000 vieram com um optimismo de algum crescimento, a partir de 2008 “tudo se desmoronou”. E a sensação só se aprofundou agora, depois de semanas em que pessoas saíram à rua dia após dia sem arredar pé e nada aconteceu.

Na verdade, há algumas que continuam a sair. Dia após dia, um pequeno grupo faz barulho em frente ao Parlamento. Ainda com esperança de que algo mude. Uma das manifestantes tem uma bandeira da União Europeia, e fala muito da Ucrânia. O que se passa ali toca forte aqui. As estátuas do parque mais popular de Sófia são, afinal, de soldados soviéticos.

PÚBLICO -
“Estamos aqui [a protestar] todas as noites, todas”, Iulia Maleva Joana Bourgard

Esta é a quinta de 11 paragens na Europa que vai a votos. Amanhã, Budapeste.