Lynch enquanto espera por uma ideia, segue outras que vão surgindo

“À conversa com David Lynch”: encontro com Paul Holdengräber na Brooklyn Academy of Music
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“À conversa com David Lynch”: encontro com Paul Holdengräber na Brooklyn Academy of Music Lucas Jackson/REUTERS

Vai voltar a Twin Peaks? O que se pode esperar? Ele goza o prazer da espera. Encontro com um realizador, músico, fotógrafo que experimenta no seu estúdio que paira sobre Hollywood.

“À conversa com David Lynch” não foi o primeiro encontro do realizador com Paul Holdengräber. A última vez que falaram tinha sido em Novembro de 2012, no Grand Palais de Paris, onde a proposta era olhar para 100 imagens da exposição Paris Photo. Mas agora, sem um objecto específico para promover, Lynch aceitou o convite para estar na Brooklyn Academy of Music (BAM), em Nova Iorque, a falar sobre as suas paixões e inspirações. Holdengräber, da New York Public Library, queria mergulhar no mundo de Lynch enquanto realizador, pintor e músico.

A audiência que esgotou a Howard Gilman Opera House do BAM, na noite de 29 de Abril, partilhava o desejo de imersão no trabalho de uma figura misteriosa – alguém comenta que gostava de tocar nas ondas do seu cabelo branco. Este era o regresso de Lynch à sala onde apresentou, em 1989, o musical Industrial Symphony No. 1: The Dream of the Broken Hearted. Era também o seu regresso a Brooklyn, onde a mãe nasceu e cresceu. As primeiras memórias daquele bairro, do tempo em que vinha visitar os avós, eram compostas por “casas com toldos, árvores alinhadas a formar uma abóbada sobre as ruas e carros pretos.” Essas imagens foram alteradas nos anos 50, com a violência – “Lembro-me de estar no metro e pensar que a qualquer momento tudo podia correr mal. Ainda hoje, o cheiro do metro traz-me a memória do medo”, confessa.

Lynch não veio para falar de cinema, e não confirma os rumores sobre um remake de Twin Peaks. Também não veio falar sobre The Air is on Fire, a banda sonora que compôs em 2007 com Dean Hurley para a exposição com o mesmo nome, e que acabou de ser lançada em vinil no Record Store Day. Apesar disso, enquanto a audiência entra na sala, ouve-se Big Dream, o seu segundo álbum, lançado em 2013 pela Sacred Bones Records. A música chegou a Lynch através do cinema, depois de trabalhar com Angelo Badalamenti em Twin Peaks e Mulholland Drive. Angelo estava ali, sentado, a ouvir o cineasta dizer que se deixou seduzir: “A guitarra é como um motor poderoso, mas áspero, com um mau silenciador”.

Em 2008, em conversa com Richard A. Barney (que editou o livro David Lynch: Interviews – Conversations with Filmmakers), comentava o lançamento do single Ghost of Love (composto para Island Empire): “Quando digo que agora estou a fazer música, estou a gozar”. Mas entretanto lançou dois álbuns, e assim que se ouvem as primeiras notas de The Big Dream (o remix de Moby com Mindy Jones), perante um único e tímido aplauso, Lynch ri-se: “Um fã!”.

Na linha da proposta inicial de mergulhar nas suas paixões, Paul põe Lynch e o público a ouvir Little Wing de Jimi Hendrix e Blood on the Leaves, de Nina Simone, na versão de Kanye West. Lynch gosta de blues, de Elvis, dos Beatles, de Dylan, de Jimi Hendrix, de ZZ Top, de Love and War de Neil Young, e de Kanye West – esta pode parecer uma escolha surpreendente, mas gosta do seu lado moderno: “é uma peça minimalista, poderosa e ao mesmo tempo incrivelmente bonita”. Numa entrevista à Rolling Stone, falava sobre esse fascínio: “o que é mínimo não nos fere a mente e dessa forma pode elevar-se. Quando há demasiadas coisas à volta, perturba-me.”

Sempre ligou o cinema e a música, não sendo claro o que lhe surge primeiro, se a imagem ou o som. Às vezes é a música que estimula uma ideia, como a canção que habita Blue Velvet, de que aliás não gostava. “Um dia ouvi a versão de Bobby Vinton e de repente começaram a surgir uma série de imagens”. Quando criou o Asymmetrical Studio foi com o intuito de trabalhar o som dos seus filmes, mas descobriu o poder da guitarra e agora usa o estúdio para as jam sessions com Dean Hurley. Foi também ali que gravou com Lykke Li para o seu último álbum e onde cria com Chrysta Bell, com quem gravou This Train. É nesse espaço de experimentação, sobre Hollywood, que tem passado muito do seu tempo.

As palavras não são necessárias

Os silêncios consecutivos de quem não quer responder a quem procura um significado para as suas escolhas pontuam as suas entrevistas. Tem prazer nessas longas pausas e insiste que a explicação de um significado é limitativa – “faz com que as pessoas parem de intuir, de pensar por si próprias”.

Enquanto realizador nunca gostou de explicar uma imagem. Isso não é diferente para as outras formas de criação. “As palavras limitam a interpretação. Quando termino um filme, lanço-o para o mundo, e não há necessidade de explicação. É aquilo, está ali. O cinema é uma linguagem de uma beleza incrível – e assim que se termina um filme, as pessoas querem que o transforme em palavras. É triste. Nada deve ser acrescentado ou subtraído. Um filme, um livro, uma pintura, quando estão terminados, devem falar por si próprios.” A afirmação do artista que não se quer explicar foi a mais aplaudida da noite. E com a projecção da imagem de uma orelha na relva (de Blue Velvet), Lynch recusa-se a explicar: “Terias de ver o filme, foi uma ideia que surgiu.”

Mais tarde, quando as imagens de Eraserhead surgem na tela, seguidas do pedido de Paul para explicar, afirma: “na verdade, Eraserhead é o meu filme mais espiritual. Mas quando leio o que escrevem sobre ele, percebo que não foi entendido na totalidade. Aquilo que cada um vê pode mudar o significado. Nunca ninguém viu do mesmo ângulo que eu.” Mas não quer falar sobre cinema, e a única altura em assume o papel de porta-voz é quando a causa é a meditação transcendental. Começou a meditar a 1 de Julho de 1973. Em 2005 criou a David Lynch Foundation for Consciousness-Based Education and World Peace, que se dedica a ensinar meditação transcendental a grupos de risco e jovens. Por isso foi com surpresa que a audiência, com Catching The Big Fish, o seu livro sobre o tema, nas mãos, percebeu que Lynch não iria falar sobre a prática desenvolvida por Maharishi Mahesh Yogi ou sobre o seu poder transformador. Mas foi com um tom efusivo que contou a história da sua visita a uma exposição de escultura do Extremo Oriente, em Los Angeles: “Entrei sozinho numa sala onde estava um Buddha da Índia, e de repente uma luz branca disparou do Buddha e encheu-me de felicidade.”

Filadélfia, esse lugar estranho

Vê beleza em tudo o que o inspira e é dessa forma que reage não só à maior parte das coisas que vão sendo projectadas durante a noite na BAM, como os trabalhos de Edward Hopper ou de Francis Bacon, mas também àquilo a que tem sido exposto ao longo da vida. “É horrível e é incrível” – diz-nos sobre Filadélfia –, “prédios enormes, divisões com um tom de verde muito específico, pelo qual acabei por me apaixonar e ao qual volto sempre. Sujidade, insanidade, corrupção, medo, a ausência de amor fraterno. Filadélfia sempre me inspirou, muitas ideias surgem ali.” Esse fascínio pelo que é uma mistura do feio/industrial com o bonito/natureza foi o que o levou a fotografar fábricas em Lodz, Polónia. “Adoro fumo. Adoro fogo. Adoro metal. Adoro vidro. Adoro gesso. Em 1800, começaram a construir as fábricas mais incríveis, como se fossem catedrais. Visitei essas fábricas e fotografei-as. Para mim, era como entrar num sonho de texturas, formas e disposições. Mas hoje em dia, as fábricas modernas são aborrecidas.” A série de fotografias surgiu depois de ter sido convidado para o festival Camerimage na Polónia. As suas contrapartidas seriam ter acesso a fábricas abandonadas que pudesse fotografar e mulheres nuas, à noite.

No Outono, terá uma exposição na Pennsylvania Academy of the Fine Arts, onde estudou. David Lynch: The Unified Field incluirá 90 pinturas e desenhos produzidos desde 1965. Além disso, será ainda apresentada uma selecção de curtas-metragens do início da sua carreira em Filadélfia.

As suas ideias vêem como fragmentos, “surgem numa TV na minha cabeça”, mas espaçadamente “como se fosse um puzzle, mas onde me vão atirando uma peça de cada vez, da sala que está do outro lado da porta.” Mas espera, como esperava no Bob’s Big Boy, um dinner em Los Angeles que frequentou durante sete anos – “Ia sempre às 2h30 da tarde, bebia um batido de chocolate e inúmeras chávenas de café, e escrevia as ideias em guardanapos de papel. A beleza dos dinners vem do conforto que proporciona, mesmo quando a mente acaba de viajar por lugares obscuros. Muitas ideias surgiram ali.”

Acaba por seguir essas ideias que por vezes originam projectos paralelos. Já em 1997, Kathrin Spohr o entrevistava em Santa Mónica e lhe perguntava “o que mais se podia esperar de Lynch: realizador, mas com paixões que iam além do cinema e da televisão.” Lynch já tinha passado pela pintura, enveredado pela escrita, acabara de ter uma exposição de fotografia em Paris e estava a desenhar mobiliário. Respondeu: “não se preocupe. Não quero parecer como um all around talent. De todo.” Recentemente, participou em Louie, o programa de Louis C.K. e tem uma linha de café - “David Lynch Signature Cup” – que está à venda na cadeia de supermercados Whole Foods na Califórnia. Parece renascer a cada uma destas ideias, ou na espera do seu processo criativo que um dia referiu como “o prazer de esperar”, o mesmo que tem quando está a filmar e que no fundo será semelhante ao princípio Maharishi: “Rega a raiz e desfruta o fruto.”