Numa década, Vaticano afastou 848 padres pedófilos

Santa Sé divulgou pela primeira vez estatísticas sobre abusos sexuais de menores cometidos por elementos do clero.

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Silvano Tomasi defendeu que não há um clima de impunidade na Igreja FABRICE COFFRINI/AFP

Mais de uma década depois de ter estalado o escândalo que manchou, como nenhum outro, a sua reputação, o Vaticano divulgou pela primeira vez dados concretos sobre a forma como puniu os padres acusados de pedofilia – um crime que, reconheceu o seu embaixador nas Nações Unidas, pode em determinadas circunstâncias ser equiparado a tortura.

Segundo Silvano Tomasi, observador permanente da Santa Sé nas Nações Unidas em Genebra, o Vaticano investigou, desde 2004, 3420 “acusações credíveis” de abusos sexuais contra menores cometidos no último meio século, tendo afastado do sacerdócio 848 padres. Os restantes 2572 foram instruídos a “viverem uma vida de oração e arrependimento”, o que passa muitas vezes pelo ingresso em mosteiros. Apesar de menos gravosa, Tomasi assegura que os abusadores “foram colocados em locais nos quais não podiam ter contactos com crianças”.

“Uma análise séria da realidade sobre o que a Santa Sé e o clero local fizeram mostram claramente e sem ambiguidade que não há um clima de impunidade na igreja”, disse o embaixador durante a audição, na terça-feira, no Comité contra a Tortura, a segunda instância das Nações Unidas a debruçar-se sobre a forma como a Igreja lidou com os casos de abusos sexuais contra menores.

Em Fevereiro, num relatório de uma dureza sempre precedentes, o Comité para os Direitos da Criança acusou o Vaticano de fechar “sistematicamente” os olhos às denúncias, pondo em risco a segurança dos menores ao transferir padres pedófilos de paróquia em paróquia. Acusando a hierarquia católica de não ter dado “os passos necessários para proteger as crianças”, a comissão exigia que todos os padres suspeitos de pedofilia fossem denunciados às autoridades e desafiava o Vaticano a abrir os seus arquivos sobre a pedofilia.

Na terça-feira, Tomasi lembrou todos os passos dados desde que, em 2001, a Congregação para a Doutrina da Fé deu ordem às dioceses para que lhe enviassem todas as denúncias consideradas credíveis. Mas foi só em 2010 – depois de o escândalo que estalou em 2002 nos EUA ter alastrado a vários países europeus – que o Papa Bento XVI deu instruções claras aos bispos para comunicarem às autoridades dos seus países os padres suspeitos de pedofilia. Já este ano, o Papa Francisco criou uma comissão para ajudar o Vaticano a definir regras para a protecção da infância, da qual faz parte uma irlandesa vítima de abusos.

“Cada passo dado para melhorar a transparência é bom. Mas este é bastante insignificante, porque nenhum pai pode proteger os filhos de um número. Do que os pais precisam é de conhecer os nomes e o paradeiro dos abusadores”, disse, terça-feira, ao Washington Post David Clohessy, director do SNAP, o maior grupo de vítimas de padres pedófilos nos EUA e que acusa o Vaticano de continuar a ocultar a dimensão dos abusos.

Na audição, Tomasi foi várias vezes questionado sobre se considerava que os abusos sexuais de menores podem ser equiparados a tortura. A tese, rejeitada pelo Vaticano, tem sido defendida por várias associações de vítimas, expectantes que um parecer favorável do comité da ONU abra caminho à reabertura de processos judiciais em vários países onde o crime de tortura não é passível de prescrição.

“Não sou advogado”, respondeu o embaixador, dizendo apenas que a definição só poderá ser usada “de forma consistente com o definido pela Convenção” de 1984, que descreve a tortura como um “acto intencional através do qual seja causada dor profunda ou sofrimento, seja físico seja mental”, como forma de obter informação, punir ou coagir. Tomasi insistiu, no entanto, que a Santa Sé só pode ser responsabilizada pelos actos cometidos dentro do Vaticano e “não por tudo aquilo que fazem os membros da Igreja Católica”. O relatório do Comité  da ONU deverá ser conhecido no final deste mês.