Numa fotografia, o futuro e o passado de Guerra das Estrelas

Uma imagem pôs fim a parte da especulação que há 18 meses rodeia o sétimo filme da saga lançada por George Lucas em 1977: eis o elenco, de Harrison Ford a C-3P0, mas também as caras novas de uma das mais amadas sagas cinematográficas de sempre.

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A fotografia, revelada na terça-feira, do elenco e da equipa do sétimo episódio de Guerra das Estrelas david james

J.J. Abrams jogou pelo seguro e tem um elenco de pontes e ligações no novo filme da saga Guerra das Estrelas: os veteranos e desejados Harrison Ford, Carrie Fisher e Mark Hamill regressam e entram em cena acompanhados por uma nova geração. A eles junta-se a fornada do vilão Adam Driver, da série Girls, de Oscar Isaac, de A Propósito de Llewyn Davis, e Domhnall Gleeson, de Harry Potter e do romântico Dá Tempo ao Tempo, talvez os mais reconhecíveis do jovem elenco, acompanhados por Daisy Ridley e John Boyega. A equipa completa-se com um dróide protocolar que não perdeu um único filme, com um R2D2 encaixotado e com o argumentista Lawrence Kasdan.

A foto de família divulgada na terça-feira ao final da tarde parece de facto escolhida à medida para criar a sensação de reconhecimento e regresso ao universo dos Skywalker, dos Jedi e dos Sith, mas ao mesmo tempo mostrar algo de novo – a ópera espacial estreou-se em 1977, cristalizando-se não só como um dos primeiros fenómenos modernos de blockbuster da história do cinema mas também como uma visão do espaço com textura, sujidade e uso. E as imagens que com as décadas se tornariam de culto, não só as de bastidores mas as de making of, da Tunísia aos estúdios britânicos Pinewood, bem como os vídeos de casting de tantos actores que tentavam ser Luke Skywalker, Leia Organa ou Han Solo, são convocadas por esta imagem de leitura de guião que foi divulgada pela Disney e pela Lucasfilm. A preto e branco, com o dróide R2D2 a espreitar de um caixote bem perto da cadeira do realizador e, claro, nos mesmos estúdios Pinewood, onde se sabe que a pré-produção começou há um punhado de semanas a par de filmagens em Abu Dhabi.

Ei-los, então, os novos heróis de um dos mais aguardados filmes de 2015 – desde que foi anunciada a compra da Lucasfilm, produtora histórica de George Lucas, o criador da saga, pelo gigante Disney em 2012, a data está marcada nas cabeças dos fãs e no calendário da cultura popular. O sétimo episódio de Star Wars, que se estreia mundialmente a 18 de Dezembro do próximo ano, contará ainda com o veterano Max von Sydow, que vai da sua carreira com Ingmar Bergman para uma galáxia muito, muito distante com J.J. Abrams. Também recém-chegado à decana saga do fantástico cinematográfico está um dos homens mais experientes em tornar-se outra figura através do CGI – Andy Serkis, o Gollum de Senhor dos Anéis, entra também no novo filme.

Na mesma imagem, uma foto de família e de trabalho publicada no site oficial da saga e enviada para as redacções, está então J.J. Abrams, o realizador e criador cujo toque de Midas ressuscitou a concorrente série Star Trek para o cinema e que é autor de séries como Perdidos ou Fringe, mas também outros presentes para os adeptos de longa data de Guerra das Estrelas. A única personagem que atravessa todo o universo cinematográfico de Guerra das Estrelas, o dróide C-3PO, é parte da família. Na sua versão humana, o esguio Anthony Daniels (o dourado C-3P0) conversa com Mark Hamill (Luke Skywalker), enquanto o seu companheiro, o sibilante R2D2, surge sem que o actor Kenny Baker esteja visível – mas a Luscasfilm confirma que ambos regressam para se pôr na pele de dois dos sidekicks mais famosos do cinema, acompanhados pelo golias Peter Mayhew, também conhecido como o hirsuto Chewbacca.

Heróis e vilões
Esta foi a primeira vez que, depois de meses que se tornaram anos de especulação e rumores, repletos de actores a fazerem-se de desentendidos na televisão ou nos jornais, o elenco do Episódio VII foi conhecido e confirmado. “Estamos muito contentes por finalmente partilharmos o elenco de Star Wars: Episode VII”, diz Abrams em comunicado, 18 meses depois de ter começado o gigantesco building up ainda em curso. “É tão excitante quanto surreal poder ver o adorado elenco original e estes novos talentos juntarem-se para dar uma vez mais vida a este mundo. Começamos a filmar dentro de duas semanas e estão todos a dar o seu melhor para deixarem os fãs orgulhosos.”

Confirmou-se assim que os actores dos três primeiros episódios (Guerra das Estrelas, de 1977, O Império Contra-Ataca, de 1980, e O Regresso de Jedi, de 1983) regressam, num significativo piscar de olho à nostalgia e num modus operandi que Abrams já tinha excercitado em Star Trek, ao colocar Leonard Nimoy novamente na pele de Spock no filme de 2009 e 2013, e que outras sagas mais recentes estão também a escolher (veja-se o caso do iminente X-Men: Days of Future Past, com o “velho” elenco de 2000-2006 a juntar-se a Jennifer Lawrence, James McAvoy e Michael Fassbender da prequela X-Men First Class, de 2011).

Mas depois de muitos nomes que a imprensa arriscava poderem ser os novos protagonistas de Guerra das Estrelas, de Benedict Cumberbatch à própria Jennifer Lawrence, sabemos então que, afinal, havia outros.

Tudo indica que Adam Driver, o anguloso actor que foi catapultado para uma certa popularidade pela série da HBO Girls, será um vilão – é o que garante a Variety, acrescentando que a sua personagem será a central e do “tipo Darth Vader”. O negrume de Vader é o fio condutor dos seis primeiros filmes da saga, da sua emergência como um Jedi especialmente dotado à sua transformação em senhor do mal, um Sith. A mesma revista indica que Oscar Isaac será um tipo de Han Solo, o arquétipo do mercenário carismático dos primeiros três filmes que se deixa convencer tanto pela perspectiva de riqueza quanto de amor, e que a personagem de John Boyega, que neste Verão aparecerá na TV na nova temporada da série 24, Live another Day, será um Jedi.

Sabe-se já que o novo filme será passado três décadas depois dos acontecimentos de Regresso de Jedi, segundo confirmou o próprio CEO da Disney, Bob Iger, e que o argumento, começado por Michael Arndt, foi já reescrito pelo próprio Adams e por Kasdan, o autor do guião de um dos mais elogiados filmes da saga, O Império Contra-Ataca, mas também co-autor de O Regresso de Jedi – ou, de pés bem assentes na Terra, de Os Amigos de Alex (1983). Kasdan está na foto de família, claro, juntamente com o produtor Brian Burke e a produtora Kathleen Kennedy, o braço direito de George Lucas na Luscafilm que ficou como presidente da empresa e como elo de ligação ao ideólogo deste universo para a nova vida dos títulos da produtora na Disney.

Kennedy produziu todos os filmes de Indiana Jones, Regresso ao Futuro e outros contemporâneos emblemáticos daquele momento há muito, muito tempo, numa Hollywood cada vez mais distante, em que os blockbusters se tornavam também duradouros objectos de culto nas salas, com meses e meses de permanência nos ecrãs e na cultura popular. Na era dos super-heróis, dos vampiros e das heroínas juvenis pós-apocalípticas, as janelas são cada vez mais curtas, os efeitos são cada vez mais especiais e os bilhetes cada vez mais caros, agora em versão 3D. O presidente dos estúdios Disney, Alan Horn, deixou escapar na semana passada à Bloomberg TV que o sétimo capítulo de Guerra das Estrelas estará orçado entre os 126 e os 144 milhões de euros, o que o tornará o filme mais caro de sempre da saga.

A cultura mudou, graças à velocidade nela impressa pela tecnologia, e a voracidade do tempo será agora um dos desafios da equipa treinada por J.J. Abrams. Os nostálgicos quererão menos Jar Jar Binks e menos CGI, alguns dos pontos negros dos filmes mais recentes (A Ameaça Fantasma, de 1999, O Ataque dos Clones, de 2002, e A Vingança dos Sith, de 2005). E os mais jovens, que cresceram não com os filmes mas com os desenhos animados de Clone Wars e com os videojogos derivados, quererão o quê para ir ao cinema ver a sétima Guerra das Estrelas? No fundo, serão mais J.J. Abrams e companhia a querer, simplesmente, os espectadores mais jovens. O equilíbrio entre a essência de uma das mais amadas histórias de cultura pop do século XX – abandonada por Lucas quando decidiu voltar ao espaço em 1999 ao ser seduzido pelas possibilidades da tecnologia coeva – e as ainda mais amplas possibilidades da tecnologia aplicadas hoje ao cinema será a grande viagem de Abrams até Dezembro de 2015.

Negócios de milhões
Ainda assim, o planeta nerd enfrenta ainda muitas perguntas por responder – nomeadamente sobre as linhas gerais do argumento, que poderá ou não seguir a descendência de Leia e Han Solo, ou sobre os papéis específicos de cada actor. Como o da ilustre quase-desconhecida Daisy Ridley, escolhida para estrelar entre a habitual esmagadora maioria de homens caucasianos da saga, ou em particular sobre a dimensão das presenças de Ford, Fisher e Hamill no novo filme. A conversa está acesa online, nos fóruns de fãs e nos sites de publicações de todo o mundo. Uma coisa é certa, e tranquilizará os menos fanáticos que não acompanharam o “universo expandido” de Guerra das Estrelas depois de O Regresso de Jedi, a Lucasfilm esclareceu a 25 de Abril que a sua luta do século XXI nada terá que ver com os livros, videojogos, desenhos animados e comics lançados desde os anos 1980.

A dimensão da expectativa gerada em torno da nova trilogia, que será lançada em 2015 e com novos capítulos anunciados para 2017 e 2019, a par de spin-offs centrados em personagens como o caçador de recompensas Boba Fett ou o próprio Han Solo nos verões de 2016 e 2018, é algo que a Disney obviamente espera ver transformada em milhões. Pagou 4,05 mil milhões de dólares (2,9 mil milhões de euros) pela Lucasfilm em Outubro de 2012, uma aquisição que se faz também de quatro Indiana Jones e dos direitos sobre os primeiros filmes de Lucas, American Graffiti ou o exercício distópico THX 1138. Mickey e Donald, já rodeados de outras criaturas na Disney (dos heróis da Marvel à animação da Pixar), fazem também as contas aos lucros de Guerra das Estrelas. Os seis filmes tiveram 3,3 mil milhões de euros em receitas de bilheteira (sem ajustes à inflação), aos quais há que juntar os negócios que Lucas garantiu para si ainda nos anos 1970 no seu contrato com a Fox – as receitas do merchandising e produtos derivados como os videojogos e atracções em parques de diversões.

Fora desta fotografia, mas comum como a Força em todos os filmes já estreados, está o compositor John Williams, com cinco Óscares e 49 nomeações no currículo, que deu as deixas sonoras imediatamente reconhecíveis também a Indiana Jones, Super-Homem, E.T., Tubarão ou Sozinho em Casa. A banda sonora estará com ele.