No ano passado morreram quase mais 24 mil pessoas do que as que nasceram

Tendência de saldo natural negativo começou em 2007 mas a diferença entre nascimentos e óbitos nunca tinha sido tão elevada.

Foto

Os dados provisórios, agora publicados no Boletim Mensal de Estatística de Fevereiro, mostram que Portugal tem vindo, desde 2007, a reforçar a tendência para apresentar saldos naturais negativos, uma situação que acontece sempre que a mortalidade ultrapassa a natalidade e que se tem acentuado com a queda de nascimentos e com a tendência de envelhecimento da população. Porém, a diferença nunca tinha sido tão elevada.

Desde o início do século XX que as estatísticas de nascimento ultrapassavam as de óbitos, apenas com excepção para o ano de 1918, em que a gripe pneumónica (também conhecida como gripe espanhola) matou milhares de pessoas. O ano de viragem no comportamento destes números aconteceu em 2007, ano em que morreram em Portugal 103.512 pessoas, enquanto o número de nascimentos não foi além dos 102.492, o que faz uma diferença de mais de mil pessoas.

Em 2008 a tendência foi revertida, com 104.594 nascimentos e 102.492 óbitos. Porém, no ano seguinte, o saldo natural voltou a ser negativo e tem-se mantido desde essa altura. Aliás, o ano de 2009 foi o primeiro em que os nascimentos ficaram pela primeira vez abaixo da fasquia dos 100 mil (99.491 bebés nascidos, contra 104.434 óbitos e um saldo negativo de quase cinco mil pessoas).

Em 2010 os nascimentos ultrapassaram de novo os 100 mil, mas mesmo assim o valor não foi suficiente para superar os quase 106 mil óbitos. Em 2011 o saldo foi negativo em quase 6000 pessoas, com o número de bebés a ficar-se pelos 96.856, contra 102.848 óbitos. Em 2012 houve um novo recorde com um saldo negativo de quase 18 mil pessoas, com 89.841 nascimentos e 107.612 mortes.

Quanto às principais causas de morte, os dados do Instituto Nacional de Estatística ainda relativos a 2010 indicam que foram quase 34 mil os óbitos atribuídos às chamadas doenças do aparelho circulatório, mais de 14 mil registados nas doenças cerebrovasculares e quase 12 mil que se incluem nas doenças do aparelho respiratório. Houve ainda quase 50 mil pessoas a morreram por tumores benignos e malignos, com uma distribuição quase igual entre ambos. Dentro dos tumores malignos destacam-se os da laringe, traqueia, brônquios e pulmões, que mataram mais de 4000 pessoas, seguidos pelos tumores do cólon (com 2650 pessoas) e os tumores do estômago (com 2323 pessoas).

Em Março, o INE já tinha divulgado projecções que apontam para um fortíssimo envelhecimento demográfico. De acordo com o pior cenário, se a natalidade não aumentar e os saldos migratórios continuarem negativos, Portugal poderá chegar a 2060 reduzido a apenas 6,3 milhões de habitantes. Dessa forma, o actual índice de 131 idosos por cada 100 jovens aumentaria para os 464 idosos por 100 jovens. O recuo dos actuais 10,5 milhões para os 6,3 milhões é o mais pessimista dos cenários projectados pelo INE. Numa projecção mais moderadamente optimista, aquele instituto admite que Portugal possa chegar a 2060 reduzido a apenas 8,6 milhões de habitantes, sendo que, neste caso, passaria a haver 307 idosos por cada 100 jovens. 

O problema da redução do número de nascimentos e do envelhecimento populacional voltou recentemente aos debates, com o primeiro-ministro, Pedro Passo Coelho, a anunciar em Fevereiro, no congresso do PSD, a criação de uma comissão multidisciplinar, chefiada por Joaquim Azevedo, da Universidade Católica, para, em três meses, preparar um plano de acção para contrariar a quebra de natalidade registada nos últimos anos em Portugal.