Entrevista

“Alimentação desequilibrada tem um impacto negativo no rendimento escolar dos estudantes”

A redução do número de refeições servidas nas cantinas das universidades e institutos politécnicos não é por si só motivo para alarme para Pedro Graça, professor da Universidade do Porto, que lembra que há hoje alternativas saudáveis à disposição dos estudantes. A colocação de micro-ondas em muitas faculdades nos últimos anos permite aos jovens fazerem refeições mais baratas e equilibradas. Mas o especialista em nutrição, que é também director do programa de Alimentação Saudável da Direcção-Geral de Saúde, alerta para os reflexos negativos que uma alimentação desregrada pode ter no rendimento académico.

Que consequências para a saúde poderá ter uma alimentação menos regrada (com refeições incompletas ou “saltando” refeições) numa faixa etária como a dos estudantes universitários?
Penso que a diminuição das refeições servidas não se deve apenas à questão da redução da quantidade de alimentos disponíveis para os estudantes (embora essa possa ser uma razão para esta situação), mas também se explica pelo facto de ter havido uma sensibilização por parte das instituições de ensino superior e das associações de estudantes para a actual crise que estamos a passar, tendo colocado micro-ondas em espaços das faculdades que permitem que os estudantes tragam as suas refeições de casa, poupando algum dinheiro.

Por outro lado, o preço das soluções alternativas tem vindo a adaptar-se. Em alguns casos são saudáveis, noutros não. De forma pedagógica poderemos dizer que uma sopa, uma sandes de pão de mistura com carne ou omolete, envolvida com alface ou tomate e uma peça de fruta e água são soluções económicas e saudáveis.

A alimentação menos cuidada pode ter reflexos no rendimento académico?
Ter uma alimentação adequada é um factor essencial para manter a saúde. Uma alimentação desequilibrada pode contribuir para uma redução do bem-estar. A curto prazo, pode contribuir para o stress, cansaço e diminuição da capacidade de trabalhar, e, a longo prazo, para o risco de desenvolver doenças ou outros problemas de saúde (obesidade, alguns tipos de cancro, depressão, distúrbios alimentares, doenças cardiovasculares).

O nosso cérebro utiliza a glicose como fonte de energia, sendo que a sua falta pode diminuir a performance cognitiva, devendo-se ingerir principalmente alimentos ricos em hidratos de carbono complexos (grupo dos cereais integrais). A ingestão de ácidos-gordos n-3 (encontrado principalmente em peixes gordos como o cavala, sardinha, arenque) tem sido referido como benéfico para o desempenho cognitivo. Também deficiências em certos micronutrientes como ferro, zinco e folato estão associados a um decréscimo do desempenho cognitivo, daí a importância de uma alimentação rica em hortícolas. Assim, uma alimentação desequilibrada pode pôr em causa o fornecimento destes nutrientes tendo um impacto negativo no rendimento escolar dos estudantes do ensino superior.

Como podem as universidades e institutos politécnicos ajudar a superar esta situação?
As instituições de ensino superior podem alertar para os perigos para a saúde de uma alimentação desequilibrada, bem como disponibilizar micro-ondas para a regeneração das refeições trazidas pelos estudantes de suas casas (algo que algumas instituições já fazem). Neste sentido, creio que as associações de estudantes deverão também ser parceiras activas.

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