Coreia do Sul enfrenta uma das maiores tragédias dos últimos 40 anos

Ferryboat com 459 pessoas a bordo afunda-se. Autoridades confirmavam ontem seis mortes, mas 280 pessoas continuavam desaparecidas após o acidente, a maioria alunos de uma escola secundária.

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Familiares procuram os nomes dos seus entes queridos numa lista fornecida pelas autoridades Kim Hong-Ji/Reuters
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A mãe de um dos sobreviventes recebe a notícia de que o seu filho foi resgatado e está à sua espera Kim Hong-Ji/Reuters
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O ferry transportava 476 pessoas Guarda Costeira da Coreia do Sul/AFP
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Sobreviventes do naufrágio Kim Hong-Ji/Reuters
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Guarda Costeira da Coreia do Sul/AFP
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O ferry Sewol tinha capacidade para transportar 900 pessoas Guarda Costeira de MOKPO/AFP
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A embarcação tombou e acabou por se afundar Guarda Costeira da Coreia do Sul/AFP

As horas passam sem um balanço final de vítimas mortais, mas é certo que a Coreia do Sul está a enfrentar uma das maiores tragédias marítimas das últimas quatro décadas. O ferryboat Sewol, que saíra do porto de Incheon na noite de terça-feira com 475 pessoas a bordo, a maioria estudantes de uma escola dos subúrbios de Seul, afundou-se na manhã de quarta-feira, a cerca de 100 quilómetros do seu destino – a ilha de Jeju, a maior da Coreia do Sul e palco de várias atracções turísticas e de visitas de estudo.

Nas horas que se seguiram ao acidente, as equipas de salvamento conseguiram resgatar 179 pessoas e recuperar os corpos de nove vítimas mortais, mas 287 pessoas continuavam desaparecidas, temendo-se que tenham ficado aprisionadas na embarcação, que tombou e acabou por se afundar em duas horas.

Os mergulhadores da Marinha sul-coreana lideravam as operações de salvamento, apoiados por mais de uma centena de navios militares e da Guarda Costeira e embarcações de pesca. Dois anfíbios da Marinha norte-americana, que estavam a realizar uma patrulha de rotina, foram também enviados para a zona do acidente.

A bordo seguiam 325 estudantes de uma escola secundária da cidade de Ansan, nos arredores de Seul. A partida do porto de Incheon, localizado a cerca de 20 quilómetros da capital, no noroeste do país, estava marcada para as 18h30 de terça-feira (hora local, 10h30 em Portugal continental), mas foi adiada duas horas por causa da densidade do nevoeiro. De acordo com as informações disponíveis no site da operadora Chonghaejin Marine, o ferry Sewol fazia este trajecto duas vezes por semana e a viagem demorava cerca de 13 horas e meia.

O primeiro sinal de alarme foi dado às 8h55 de quarta-feira (0h55 em Portugal continental), a cerca de 100 quilómetros da ilha de Jeju. Os trabalhos das autoridades estavam concentrados nas operações de busca e salvamento, o que deixava pouco espaço para uma investigação às causas do acidente. A única indicação partiu de alguns dos sobreviventes, que dizem ter ouvido um estrondo pouco antes de o ferry ter começado a tombar.

“Estava tudo normal, mas de um momento para o outro ouviu-se um ‘boom’ e começámos a ouvir o barulho da carga a cair”, disse à agência Reuters uma das sobreviventes, Cha Eun-ok. Esta e outras testemunhas ouvidas pela agência noticiosa sul-coreana Yonhap dizem também que receberam ordens da tripulação para se manterem nos seus lugares. “As pessoas que se mantiveram [nos seus lugares] ficaram presas”, disse Cha Eun-ok.

O jornal de língua inglesa The Korea Times avançou a hipótese de o ferry ter embatido numa rocha submersa, mas o Ministério dos Oceanos e das Pescas garante que o Sewol não encontraria nenhum desse tipo de formações se mantivesse a sua rota inicial, e também não havia indicações de que a embarcação tivesse saído do seu trajecto. A possibilidade de condições meteorológicas adversas também foi afastada pela Administração Meteorológica da Coreia. 

As operações de busca foram ainda mais dificultadas pelo cair da noite. Se se confirmarem os piores receios, este será o mais grave acidente marítimo dos últimos 20 anos e um dos piores das últimas quatro décadas. Em Outubro de 1993, o ferry Seohae afundou-se na costa sudeste da Coreia com 362 pessoas a bordo – 292 morreram; mais de duas décadas antes, em Dezembro de 1970, um outro ferry, o Namyoung, afundou-se na mesma zona – 323 pessoas morreram e apenas 17 sobreviveram.

Tanto o Namyoung  como o Seohae seguiam com passageiros e carga a mais em relação à sua capacidade, mas essa hipótese foi logo afastada no caso do Sewol, um ferry de 146 metros de comprimento com lotação máxima de 921 pessoas.


Cronologia de acidentes marítimos na Coreia do Sul
15 de Dezembro de 1970: o paquete Namyoung afundou-se ao largo da costa da cidade de Yeosu, no Sudeste do país. Morreram 323 pessoas.

10 de Outubro de 1993: o paquete Seohae afundou-se ao largo da costa sudoeste, na província de Jeolla. Morreram 292 pessoas.

12 de Maio de 2007: o cargueiro Golden Rose afundou-se no mar da China Oriental. Morreram seis pessoas e dez pessoas foram dadas como desaparecidas.

12 de Julho de 2007: o cargueiro Orchid Sun afundou-se ao largo da costa de Yeousu. Treze membros da tripulação foram dados como desaparecidos.

25 de Dezembro de 2007: o navio Eastern Bright, carregado com substâncias químicas, afundou-se ao largo da costa de Yeosu. Foram dados como desaparecidos 14 marinheiros.

10 de Março de 2009: o cargueiro Orchid Pia afundou-se na sequência de uma colisão com um navio de transporte de automóveis ao largo da costa do Japão. Dezasseis marinheiros foram dados como desaparecidos.

26 de Maio de 2010: o navio de guerra sul-coreano Cheonan afundou-se perto da fronteira marítima com a Coreia do Norte. Morreram 46 marinheiros.

2 de Abril de 2010: um barco que regressava das operações de resgate após o afundamento do Cheonan chocou contra uma outra embarcação. Morreram duas pessoas e sete foram dadas como desaparecidas.

15 de Outubro de 2013: um cargueiro registado no Panamá afundou-se ao largo da cidade de Pohang, no Sudeste do país. Morreram nove pessoas e duas foram dadas como desaparecidas.

4 de Abril de 2014: o navio da Mongólia Grand Fortune 1 afundou-se ao largo da costa de Yeosu. Morreram duas pessoas e 11 foram dadas como desaparecidas.