Uma doença no coração da Europa

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Dementia, o espectáculo terminal que Kornél Mundruczó traz hoje e amanhã ao Maria Matos, expõe o país de opereta em que a Hungria se transformou — e todos os que não fizeram nada para a salvar da completa amnésia moral

Faltam dois dias para as eleições parlamentares na Hungria que vão confirmar mais uns anos de terrorismo constitucional e outras violências domésticas (já confirmaram: foi no domingo, por 44%) e talvez devêssemos estar a falar de futebol com Kornél Mundruczó. Pelo menos é de futebol que falam os jornais desta manhã de sexta, 4 de Abril, antevéspera de eleições, em que o encenador e cineasta húngaro nos envia as suas respostas desde Antuérpia, onde está a dirigir uma ópera bicéfala (metade O Castelo de Barba-Azul, de Béla Bartók, metade Viagem de Inverno, de Schubert) para a Vlaamse Opera — mais concretamente do estádio de futebol para quatro mil espectadores em que Felcsut, a aldeia onde o todo-poderoso primeiro ministro Viktor Orbán nasceu (e onde, sem contar com ele, vivem apenas 1.700 pessoas), está a enterrar alegremente mais de 12,5 milhões de euros.

Mas Felcsut é só uma pequena e não especialmente inesquecível cruz no mapa da Hungria que Viktor Orbán está a “reestruturar” desde que, há exactamente quatro anos, conseguiu pôr o seu partido, o Fidesz, a ocupar duas em cada três cadeiras do Parlamento (e, depois disso, a mudar as leis eleitorais de maneira a tornar-se praticamente inamovível, como uma fatalidade). Dementia, a opereta que Kórnel Mundruczó traz hoje e amanhã ao Teatro Maria Matos, em Lisboa, é o mapa todo — a Hungria disfuncional, e já só tecnicamente democrática (“Se a Hungria ainda é uma democracia não é pergunta de sim ou não, mas a direcção é a errada”, afirmava há uma semana o analista eleitoral Róbert László ao The Guardian), de onde 500 mil pessoas já terão saído por ser insuportável ficar. “As batalhas diárias da esquerda e da direita estão a transtornar a vida de cada cidadão — é como se vivêssemos num estado de revolução permanente. As pessoas não conseguem descansar, porque a política está demasiado implicada no quotidiano. A Hungria tornou-se um lugar menos pacífico e é muito doloroso assistir a isso, tal como é doloroso ter de lidar com tanta queixa e tanta tristeza. Os políticos mantêm que somos um país alegre e progressivo, mas não é verdade. Seria bom viver num país pacificado por uma conversão genuína e não pelo ódio, só que esse parece ser um desejo bastante irrealista, especialmente a dois dias das eleições”, diz Mundruczó ao Ípsilon.

Para ele, no entanto, sair não é uma opção. “Se não estivesse na Hungria seria um desterrado. Precisas das tuas raízes; sem elas és uma pessoa diferente e até agora eu ainda não quis correr esse risco”, justifica, não exactamente nos mesmos termos em que há um mês explicava a sua posição num texto para o programa do festival Leaving is not an option? Current artistic positions from Hungary, que o Hebbel am Ufer acolheu de 9 a 16 de Março em Berlim: “Os que abandonam o país são acusados de traição à pátria de acordo com a retórica que se tornou dominante na Hungria actual. Porque é que um emigrante é um traidor? Porque aparentemente não demonstra solidariedade com os que escolheram ficar. Porque ‘aqueles que não estão connosco estão contra nós’ (...). Quanto a mim, não pertenço a nenhum dos grupos. No Ocidente, sinto-me do Leste, no Leste sinto-me do Ocidente (...). Aqueles que se sentem estrangeiros no seu próprio país continuam a sentir-se estrangeiros no estrangeiro (...). Portanto, dou por mim numa situação desesperada. E é impossível tomar uma decisão (...). [Mas ainda] posso continuar a ser um artista. É a minha única possibilidade deste ou do outro lado da fronteira.”

Um pé dentro, outro pé fora, calçado pelos muitos coprodutores estrangeiros que têm compensado os furiosos cortes impostos pelo Governo de Viktor Orbán à criação teatral independente, logo degenerada: desde 2010, tem sido assim a vida de Kornél Mundruczó e do Proton Theatre, a companhia que fundou um ano antes com Dóra Büki. “Sem ajuda externa, o nosso grupo independente não poderia existir”, reconhecia há um mês em Berlim. Mas a Europa que começa (e de momento acaba) em Berlim seria toda uma outra desagradável conversa. Uma conversa a que, se tivesse de dar um título, ele também chamaria Dementia, pelo que isto que se passa hoje e amanhã no Maria Matos não se perde de todo na tradução (é mesmo connosco, como uma das personagens há-de atirar-nos à cara no fim, quando disser: “Todo o mundo estava ao corrente mas ninguém agiu. Porquê?”): “Sinto muitas vezes que a Hungria padece de uma doença do esquecimento. O país não quer enfrentar nem a sua História nem os problemas com que se debate actualmente. As nossas ideias sobre a História são dementes, a nossa sociedade tem sintomas de demência. Mas tenho de dizer o mesmo sobre a União Europeia, que passa a vida a esquecer-se do seu passado e a cometer os mesmos erros uma e outra vez.”

À deriva

Hungria, Abril de 2014, e é aqui que estamos: num país reduzido à escala de uma clínica psiquiátrica obsoleta (e dos últimos quatro doentes que ali ficaram esquecidos), a muito poucos dias de cair nas mãos suadas de um promotor imobiliário. Era uma história familiar sobre a velhice e a obsolescência (Mundruczó inspirou-se no episódio de uma idosa com demência que já não reconhecia os filhos mas recuperou parcialmente a memória quando um deles se sentou ao piano a tocar as suas operetas favoritas), agora é uma metáfora nacional com tantas entrelinhas que nem sabemos por onde começar — e ainda bem, diz ele. “Usámos a demência como uma metáfora e é óbvio que nos satisfaz saber que todas as camadas estão a funcionar, mas o mais importante para nós é conseguir contar a história do encerramento de uma instituição para doentes mentais. Quanto mais melodramática for a história, mais perto estaremos da verdade, mais fiéis seremos aos acontecimentos da vida quotidiana no nosso país e da vida quotidiana da minha companhia independente”, argumenta.

Mais do que uma história melodramática, é uma história trágica — mas não é uma fatalidade. Se até os semi-vegetativos quatro últimos doentes de uma clínica psiquiátrica (Ottília, que vive agarrada às fotografias do passado em que foi feliz; Lukács, que todos os dias espera a visita da mulher; Elöd, que continua assombrado pelos fantasmas da Roménia de Ceausescu; e Mercédesz, que não aceita olhar para o espelho e não ver a diva da opereta que via há 25 anos) conseguem, porque não os húngaros? “O que aconteceu à Hungria — fortuna a fortuna, catástrofe a catástrofe — é da responsabilidade de cada um de nós, cidadãos. Não basta culpar o Estado por esta deriva colectiva: há uma parte dela que é individual.”

Sentados nas suas camas brancas e empenadas, de hospital nada conforme às directivas europeias, no descampado de um país comido vivo pela amnésia (“Imaginem que a rede caótica de neurónios do vosso cérebro é devorada pelo nada. Lentamente. Como a Hungria. Não tem passado nem futuro”), Ottília, Lukács, Elöd e Mercédesz parecem apesar de tudo sobreviver a todas as pequenas e grandes violências do dia-a-dia na clínica psiquiátrica, do sexo não consentido à definitiva morte do Natal — tudo legal, como os conteúdos eróticos para adultos e as operações de mudança de sexo que enfermeira e médico, respectivamente, terão de fazer se quiserem continuar a receber um salário ao fim do mês na nova Hungria reestruturada que talvez fosse melhor eles não boicotarem, ou pelo menos não boicotarem tão activamente. Kórnel Mundruczó reconhece que é tentador ver a palavra “terminal” a piscar tipo sirene de ambulância em todos os capítulos desta história sobre um país onde só ficaram os doidos (porque é preciso ser doido, ou então totalmente suicida, para ficar). Mas, insiste, há mais humor em Dementia do que em todas as suas produções anteriores juntas, filmes incluídos — um humor negro, “grotesco”, típico da opereta que para eles, húngaros, “é, digamos, uma parte do coração”.

Tentemos rir-nos, então, destas vidas húngaras que por enquanto parecem permanecer a uma distância de segurança do país que frequentamos. “Na verdade, quanto fazemos este espectáculo em países ricos, em que este problema não é sequer imaginável, o público não consegue mergulhar com tanta profundidade e acha tudo isto muito exótico. Mas em lugares onde esta história pode muito bem ser a realidade, como Dresden ou Berlim, a peça foi muito bem recebida. Acho que neste aspecto Portugal não está muito longe da Hungria e por isso suponho que o público português terá alguma facilidade em ligar-se a nós”, antecipa Mundruczó. Ele, que é doido o suficiente para continuar lá, ri-se quando lhe perguntarmos se não teria sido mais simpático deixar as suas personagens irem embora, em vez de as obrigar a ficar e, num certo sentido, a morrer, de saco de plástico enfiado na cabeça enquanto lá atrás as iluminações de Natal projectam as suas sombras de arame farpado naquilo que já é só a fachada de um país em tempos conhecido como Hungria: “Vejo o destino das minhas personagens de uma maneira muito mais romântica. Prefiro pensar que aquilo que elas fazem no final é dar uso ao mais importante de todos os direitos: o nosso direito natural enquanto povo.”