Brasileiros em Portugal: Quatro vozes da mesma viagem

O boom de brasileiros em Portugal morreu. Muitos estão a regressar a um Brasil em crescimento, empurrados pela crise em Portugal. A sangria só não é maior por causa da chegada de estudantes brasileiros às universidades portuguesas.

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“Na minha turma de doutoramento, metade são brasileiros”, diz Thaís Helen dos Santos Fernando Veludo/N Factos
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O empresário José Manoel Figueira chegou com a crise, em 2008 Nelson Garrido

Auxiliadora Siza, uma enfermeira de 59 anos a residir em João Pessoa, capital do estado da Paraíba, e Thaís Santos, 24 anos, a morar provisoriamente no Porto, não se conhecem e, provavelmente, não o sabem, mas são o rosto das mais recentes tendências da imigração brasileira em Portugal. A primeira porque, empurrada pela crise, regressou ao Brasil. A segunda porque veio a Portugal, mas apenas para fazer um doutoramento.

“Quando fui para Portugal tinha um carro usado. Quando voltei, dois anos depois pude comprar um carro zero [quilómetros] e entretanto já pude vender esse e comprar outro, zero também”, conta Auxiliadora. E não foi por causa do que poupou em Portugal (“Voltei falida. Pior que antes”), mas porque o poder de compra no Brasil que reencontrou “melhorou bastante”. Hoje, de acordo com esta ex-imigrante, “todo o mundo tem mais de um carro na garagem”. Descontado o exagero, a verdade é que, enquanto Portugal se afunda, o consumo no Brasil cresce 4% ao ano. O desemprego lá ronda os 5%. Entre nós, subiu aos 15,3%.

Por ironia, é por causa desse mesmo crescimento brasileiro que a queda dos imigrantes brasileiros não é mais abrupta. Os regressos aumentaram, mas têm sido compensados pela chegada de estudantes brasileiros, em busca de uma “experiência internacional” financiada pelo governo de Dilma, por via do Ciência Sem Fronteiras. “Portugal é um dos principais destinos do Brasil ao nível destes doutoramentos e pós-doutoramentos, pela facilidade da língua e de acesso e também por causa dos preços”, contextualiza o investigador João Peixoto.

Thaís Helen dos Santos chegou em Setembro de 2013, para fazer o seu doutoramento em Informação e Comunicação em Plataformas Digitais na Universidade do Porto. “Na minha turma de doutoramento, metade são brasileiros”, diz. E explica que, mais do que pela qualidade de ensino, está em Portugal “por causa da facilidade de não ter que dominar outro idioma”. “O que é valorizado no Brasil é a experiência de se ter estudado fora, independentemente do país”.

“Coimbra aparece como a cidade fora do Brasil com mais estudantes brasileiros”, ilustra o especialista em migrações Jorge Malheiros, do Instituto de Geografia da Universidade de Lisboa. “O Brasil promove a formação superior e incentiva as pessoas a fazerem essa formação fora porque tem dificuldade em dar resposta e, em parte, isso tem compensado a redução da imigração laboral”, contextualiza.

Difícil de quantificar, este movimento de retorno começa agora a ser estudado. “Uma das minhas orientandas está no Brasil a entrevistar brasileiros que regressaram. Num outro projecto, concluído em 2011, e onde já se tentava perceber por que é que regressaram, as pessoas apontavam motivos pessoais mais do que a crise, mas depois percebia-se que o projecto migratório era concluído mais depressa por causa da crise”.

No caso de Auxiliadora Siza o que estava em causa mesmo era a impossibilidade de sobrevivência em Portugal. “Foi uma roubada em que eu entrei”, recorda, ao telefone, a partir de João Pessoa. “Fui para Portugal em 2006 através de uma agência de recrutamento. Aqui no Brasil tinha dois empregos mas tinha comprado apartamento e estava devendo muito. Os dois salários não davam para pagar a prestação. Então, essa agência prometeu-me um salário de quatro mil euros, mas cheguei aí e vi que os enfermeiros ganhavam 900 euros. Eu arranjei trabalho numa agência de home care e fiquei com um salário de 500 euros, a pagar 400 euros pelo apartamento. No Brasil morava já num apartamento bom, de 120 metros quadrados, e aí fiquei numa kitchenette pequena, em Cedofeita”. Eram ela e três filhos. A situação melhorou quando as duas filhas foram trabalhar como "garçonetes". “Mesmo assim, teve um mês que eu não consegui pagar nem à Ordem dos Enfermeiros”.

Ao fim de nove meses, Auxiliadora decidiu voltar. “Completamente falida. Levou dois anos para me reerguer de novo. Trabalhei de manhã, de tarde e à noite. Mas consegui não perder a casa, que tinha deixado alugada aqui. Quando cheguei, o desemprego ainda estava um pouco alto, mas, hoje, as pessoas já ganharam poder de compra”. Aposentada, Auxiliadora fez entretanto um mestrado e um doutoramento e é professora de enfermagem. Ganha oito mil reais por mês. Cerca de 2500 euros.

A dentista brasileira Lys Alonso, em Portugal há dez anos, confirma que “para quem tem um nível de qualificação alto, já não compensa vir para Portugal, porque o Brasil pratica salários ao nível de Londres”. Já para os menos qualificados, Portugal oferece um acesso a escolas e hospitais que o Brasil não tem. “Entre as minhas amigas brasileiras eu sou a única que tem seguro de saúde privado, elas não precisam porque Portugal tem uma saúde espectacular”. Quanto ao resto, considera que o Brasil, ao contrário de Portugal, atravessa um momento bom. “É água e vinho. Lá não tem problema de crise nem de falta de dinheiro. Mas falta ver se não é uma ilusão, porque, quando cheguei, cá também era assim”, ressalva.

Apesar de considerar que o oceano “está mais inclinado para lá”, João Peixoto recusa falar num regresso ao Brasil em massa. “Há mais pessoas a regressar, mas o regresso não é um sucesso garantido. Nem isto está assim tão mau nem aquilo está assim tão bom”, opina um dos co-autores do estudo Vagas Atlânticas: a imigração brasileira em Portugal.

Os números do último relatório Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) ajudam a confirmar esta tendência. No final de 2012, os brasileiros ainda constituíam a maior comunidade estrangeira em Portugal: 105.622 brasileiros, num universo de 417.042 imigrantes. Eram 111.445 em 2011, chegaram a ser 119.363, em 2010. O que os relatórios do SEF não contam é quantos partiram e quantos “desapareceram” desta estatística por se terem nacionalizado. A leitura dos números também não permite, por outro lado, medir quão mais abrupta teria sido a diminuição, se não fosse este movimento de chegada de estudantes. O que sabemos, sem qualquer margem para dúvidas é que as remessas de cá para lá diminuíram. “Atingiram o seu máximo em 2006, com quase 349 milhões de euros. Em 2013, tinham descido para 253 milhões”, frisa João Peixoto.

Que há cada vez mais brasileiros a sair prova-o o facto de haver cada vez mais companhias marítimas a assegurar o serviço de transporte de pessoas e bens para o Brasil, segundo José Manoel Figueira, empresário brasileiro, 52 anos, a viver em Vila Nova de Gaia, desde 2008. “Há empresas que começaram a fazer uma rota Portugal-Brasil uma vez por ano para levar imigrantes brasileiros. Os imigrantes contratam contentores para levar no navio as coisas que têm cá, porque fica bem mais barato do que no avião”, conta.  

À sua volta, José Manoel conhece vários exemplos de “retornados” que “concluíram que não valia a pena estar aqui a trabalhar 20 horas por dia para mandar dinheiro para lá”. “Se é para sobreviver, preferem sobreviver na sua terra”, explica. Isto apesar de quem for Classe C (média baixa) viver melhor em Portugal do que no Brasil, segundo este empresário. “É verdade que a Classe C cresceu bastante no Brasil e tem mais como consumir, a economia lá funciona em cima do consumo. Mas se for para fora dos grandes centros urbanos, eles estão com falta de tudo. A corrupção ainda é um problema seriíssimo e, apesar de os recursos federais existirem, o dinheiro não chega ao destino”.

Chegado com a crise, José Manoel deixou para trás um Rio de Janeiro em que “quem tem condições financeiras não pode sair à rua, por causa da violência”. Manteve as empresas que tinha no Brasil. Mas o facto de não ser o imigrante laboral típico, não significa que a crise não o tenha beliscado. “Trouxemos para cá uma marca, na área de produtos naturais, para abrir novas lojas em regime de franchise mas as coisas têm tido certa dificuldade em alavancar”.

Apesar disso, não lamenta a mudança. “Portugal tem uma qualidade de vida muito boa, com infra-estruturas óptimas. As pessoas falam de crise, mas se esquecem que, em crise, têm de vender lenço porque há muita gente chorando”. Posto noutros termos, esgotado o filão das rodovias e da construção, “Portugal devia estar apostando em áreas como o turismo ou energias renováveis, em que pode ser uma referência”. O que Portugal não pode é aceitar impávido a sua perda de soberania no seio da União Europeia, como quem abdica do direito a trocar os móveis de lugar na sua própria casa. “O país virou uma máquina que forma profissionais para os outros. Há dez anos, Portugal era uma referência pela qualidade dos seus médicos. Hoje, está perdendo isso. Vai-se aos hospitais fora do horário normal e encontra-se profissionais de todo o mundo, menos portugueses!”.

Ainda o jogo das diferenças entre Portugal e Brasil, mas agora ao nível da Educação. “As universidades federais no Brasil são muito boas, dão 100% de gratuitidade para os alunos, o grande problema é que a infra-estrutura é fraca. Falta o giz, ou falta a lousa ou falta o papel para imprimir ou a luz que o governo não pagou!. E enquanto o Brasil ainda esta tacteando nesse projecto de investir as classes baixas de escolas e educação, Portugal, pelo contrário, já era uma referência nesse campo 10 ou 20 anos atrás. O problema é que, aos poucos, está perdendo esse prestígio. Os professores bons estão a sair ou a reformar-se”, compara José Manoel, para questionar: “Todos os países em desenvolvimento aprenderam que não se deve mexer nos recursos da educação, porque a educação é o pilar de um povo. Portugal não sabe isso não?!”.