As imposturas da poesia

Falemos de uma coisa que interessa a pouca gente: a poesia. Sabemos muito bem, pelo menos desde a segunda metade do século XIX, que esta falta de público a ameaça e a protege. O pretexto é o último número da Relâmpago (uma louvável revista de poesia da Fundação Luís Miguel Nava, que já vai no número 33) que, sob a forma de respostas de poetas e críticos a um inquérito, apresenta um vasto dossier sobre “o estado da poesia”. É uma questão recorrente: estes balanços tornaram-se desde há mais de um século consubstanciais à própria prática da poesia. São várias as suas declinações: o estado da poesia, a situação da poesia, o lugar da poesia, a crise da poesia, para onde vai a poesia?, ou até, como ousou uma revista francesa há mais de duas décadas, “A forma poesia irá, poderá e deverá desaparecer?” (também aqui se tratava de um inquérito). Mas, nas suas diversas formulações, o que sempre se manifesta nesta sociologia espontânea é a situação crítica e precária da poesia, embora nenhuma outra forma de existência lhe seja concedida pelo menos desde que Hölderlin proferiu o “para quê poetas?”. Mas o tópico do “estado da poesia” é quase sempre a expressão de um enorme amor pela poesia e de um receio de que o seu presente seja de degradação e não esteja à altura de épocas anteriores — e este dossier da Relâmpago, nas perguntas que formula, mais do que nas respostas que recolhe, não é excepção. É certo que nem todas as épocas se equivalem, tanto na produção poética como em tudo o resto. Mas não é isso que me importa aqui discutir. A minha atenção incide, antes, na subtil reconstrução, invertida, de um tema que ganhou a forma de um quase-manifesto nada virtuoso contra as “imposturas da poesia”. Les Impostures de la Poésie é um pequeno livro de Roger Caillois, publicado em 1945, cujo capítulo inicial se chama precisamente Situation de la poésie e que começa desta maneira: “Se é a ocasião para uma confidência, direi que me senti sempre muito mais disposto a combater a poesia do que a abandonar-me a ela”. As “imposturas da poesia” eram, para Caillois, as da complacência (que ele identificava com o lirismo), as do esquecimento do poema como um pensamento do contra. E, nesse aspecto, ele foi acompanhado pelo “ódio da poesia” do seu contemporâneo Georges Bataille e, mais tarde, por Gombrowicz. Mas não é preciso recorrermos aos exemplos extremos destes escritores que, enquanto tal, nunca quiseram prestar grandes honras aos impolutos desígnios da República das Letras. Desde sempre (e o célebre verso do poeta provençal, o rei Guilherme IX de Aquitânia — “farei um verso de puro nada” —, tem um sentido fundador) a poesia manifestou uma espécie de desejo auto-erótico. Este auto-erotismo da poesia ocidental transferiu-se de um plano imanente — interior à própria poesia, aos seus engendramentos — para o discurso sobre ela e os modos de a representar socialmente. Temos assim uma longa história em que quanto mais se assiste ao enfraquecimento da irradiação social e cultural da poesia mais ela é objecto de celebração e de auto-sacralização. Podemos pois dizer que os piores inimigos da poesia não são os que acham que ela é uma inutilidade obsoleta (contra esses tem ela os seus escudos), mas os que a celebram para a recomporem num estado teológico-poético. Toda a história da poesia moderna nos ensina que o amor da poesia é o que de mais pernicioso existe para ela. O Dia Mundial da Poesia é uma consagração universal desse amor, celebra-a na sua ideia e no seu mito. Exalta-a no seu “estado” eterno.