PS deve votar contra o DEO e procurar acordo sobre crescimento, defende António Vitorino

Antigo comissário socialista acredita que PS ganhará as europeias, mas admite que as legislativas de 2015 tenham que ser resolvidas com um Governo do bloco central.

António Vitorino
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António Vitorino Enric Vives-Rubio

O socialista António Vitorino defende que o PS deve votar contra o DEO – Documento de Estratégia Orçamental porque a intenção do Governo é apenas a de tentar amarrar o PS à estratégia de cortes” que já está definida, sem que nestes últimos três anos tenha dado mostras de querer a opinião do maior partido da oposição.

Entrevistado pela Antena 1, o antigo comissário europeu diz perceber “perfeitamente” a dificuldade de o PS chegar a um acordo com o Governo sobre o DEO porque o documento é “centrado sobretudo nas finanças públicas, no défice e nos cortes”. António Vitorino duvida que não venham a existir ainda mais medidas de austeridade por anunciar, apesar das repetidas declarações do PSD em sentido contrário.

“Acho [normal que o PS vote contra]. Depois de dois anos de ausência completa de diálogo, de sete revisões do memorando de entendimento com a troika, sem que a opinião do PS tenha sido importante, neste momento tentar amarrar o PS apenas à estratégia de cortes orçamentais que o Governo já tem definida não me parece bem”, diz Vitorino, que recusa que o voto contra do PS tenha alguma influência no modo como Portugal irá sair do programa.

Desvalorizando os desencontros sobre o DEO, o socialista preferia ver o PS ir “além da questão do défice e da dívida” e negociar uma estratégia sobre o crescimento e a forma como este deve ser aproveitado para “melhor distribuir ou compensar os sacrifícios que foram impostos aos portugueses” durante os últimos três anos.

“Mais do que o DEO, o que o país precisa é desse acordo mais amplo e abrangente, com partidos e parceiros sociais, que não fica apenas pela macro-estrutura financeira do Estado, mas que toca também em questões sociais fundamentais”, descreve António Vitorino. Mas esse acordo só é possível depois de eleições legislativas.

Eleições essas de que Vitorino não quer antecipar um resultado, apesar de estar convicto de que o PS vai ganhar as europeias com “uma vantagem que o deixa tranquilo quanto à sequencia da opção política que vai fazer até às legislativas do ano que vem”.

Sobre as legislativas, o socialista está pelo menos convencido de que Seguro será candidato a primeiro-ministro. “Agora, se o PS ganha ou não ganha as legislativas… O que posso dizer é que ganhar as europeias é uma boa alavancagem para vir a ganhar as legislativas e o resultado decorrente disso seria António José Seguro ser primeiro-ministro. Agora, em política, nas eleições, não há garantias nenhumas à partida.”

Apesar da recusa em fazer prognósticos sobre vencedores, António Vitorino lá vai admitindo que quem ganhar pode não ter maioria absoluta – nem à direita nem à esquerda. “E isso provavelmente desaguará num Governo do tipo bloco central”, prevê o antigo comissário europeu.

Já sobre as presidenciais, confidencia que António Guterres seria a sua primeira escolha e admite fazer um forcing junto do antigo primeiro-ministro.

António Vitorino diz ainda ter ficado “surpreendido” com a polémica gerada em torno do manifesto das 74 personalidades que pedem a reestruturação da dívida. Sobretudo porque diz lembrar-se que as contas de que o país só conseguiria ter uma dívida de 65% do PIB em 2035 já eram feitas pela equipa do ministro Vítor Gaspar. “Não vale a pena estarmos a fazer um debate sobre esses modelos macro-económicos quando a vida entretanto vai encarregar-se de mostrar, aos portugueses e aos alemães, que as coisas não vão ser exactamente assim.”