Cientistas das Nações Unidas vêem futuro cinzento se não se combater alterações climáticas

Rascunho do segundo volume do quinto relatório de avaliação do IPCC aponta os impactos das alterações climáticas, antecipando custos altos e conflitos se não se travar as emissões de dióxido de carbono.

As ondas de calor e as inundações já são os efeitos das alterações climáticas, dizem os investigadores
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As ondas de calor e as inundações já são os efeitos das alterações climáticas, dizem os investigadores Jonathan Nackstrand/AFP (arquivo)

O mais negro relatório sobre os impactos das alterações climáticas anuncia um futuro cheio de inundações, secas, conflitos e perdas económicas, se as emissões de carbono não forem controladas. O relatório está pronto para ser anunciado pelos cientistas das Nações Unidas.

Um rascunho, a que a AFP teve acesso, que faz parte de uma revisão feita pelo Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC, sigla em inglês), irá provavelmente moldar as políticas e as conversações sobre o clima nos próximos anos. Os cientistas e os representantes dos governos vão reunir-se em Yokohama, no Japão, a partir de terça-feira, quando o sumário de 29 páginas for publicado. O relatório completo será revelado a 31 de Março.

“Temos uma visão muito mais clara de muitos dos impactos e das suas consequências… incluindo as implicações para a segurança”, disse Chris Field, do Instituto Carnegie dos Estados Unidos, que liderou a produção deste segundo relatório. O trabalho é publicado seis meses depois do primeiro volume da quinta avaliação do IPCC ser revelado.

No primeiro volume, os cientistas anunciaram com uma certeza quase absoluta de que a actividade humana estava a causar o aquecimento global, o relatório prevê um aumento das temperaturas médias do globo entre os 0,3 e os 4,8 graus até 2100. No final do século, o nível médio do mar terá subido entre os 26 e os 82 centímetros.

O rascunho avisa agora que os custos vão subir em espiral com cada grau a mais da temperatura da Terra. Um aquecimento de 2,5 graus em relação aos níveis pré-industriais – o que representa um aumento de 0,5 graus acima do objectivo das Nações Unidas – pode custar entre 0,2 e 2% do PIB mundial, o que pode representar muitos milhares de milhões de euros.

“As avaliações que são possíveis fazer por enquanto ainda devem provavelmente subestimar os impactos reais das alterações climáticas futuras”, disse Jacob Schewe, do Instituto Potsdam para o Estudo dos Impactos Climáticos, na Alemanha. O investigador não esteve envolvido no rascunho, mas explica que muitos cientistas concordam que as recentes ondas de calor e inundações mostram as alterações climáticas já em marcha – o pronúncio de um futuro onde fenómenos que acontecem uma vez em muito tempo passam a ser menos raros.

Alguns dos perigos enunciados no rascunho são as inundações, as secas, o aumento do nível médio do mar, a fome, a extinção de espécies e a ameaça à segurança dos países. O relatório refere que a Europa e a Ásia são os continentes mais expostos às inundações. No pior dos cenários, haverá três vezes mais pessoas vulneráveis a inundações causadas por rios. Por cada grau no aumento de temperatura, mais 7% da população mundial vai ficar com um quinto do acesso que tem hoje à água.

A produtividade média do trigo, do arroz e do milho vão diminuir 2% por cada década ao mesmo tempo que a necessidade de culturas de cereais vai aumentar em 14% até 2050 devido ao aumento de população. A falta de alimentos vai ser sentida principalmente pelas populações pobres, principalmente nos países tropicais.

“As alterações climáticas ao longo do século XXI vão trazer novos desafios aos estados e vão cada vez moldar mais as políticas de segurança nacionais”, lê-se no sumário do rascunho. “As pequenas ilhas-estado e outros estados muito vulneráveis ao aumento do nível médio do mar vão enfrentar grandes desafios em relação à sua integridade territorial.”

“Alguns impactos das alterações climáticas que transpõe fronteiras, como as mudanças no gelo nos mares, fontes de água partilhadas e a migração dos cardumes de peixe, têm o potencial de aumentar a rivalidade entre os estados. A presença de instituições robustas pode gerir muitas destas rivalidades para reduzir o risco de conflitos”, lê-se ainda no documento.

Ao reduzir as emissões de dióxido de carbono “nas próximas décadas”, o mundo pode evitar muitas das piores consequências climáticas no final do século, diz o relatório.

O IPCC está a finalizar ainda um terceiro volume da quinta avaliação com as estratégias para diminuir as emissões de carbono, que vai ser publicado a 13 de Abril, em Berlim.

Em 25 anos de história, o painel já editou outros quatro relatórios de avaliação sobre as alterações climáticas. Cada relatório soou um alarme mais alto em relação à quantidade de dióxido de carbono que os países estão a lançar para a atmosfera devido ao consumo de combustíveis fósseis.