Opinião

Mostrar a Putin que a Guerra Fria acabou. Mesmo

A gravidade da crise ucraniana está a ser avaliada da mesma maneira dos dois lados do Atlântico. Isso são sinais positivos.

1. Os analistas são unânimes em reconhecer que a situação na Ucrânia é a maior ameaça à segurança europeia desde o fim da Guerra Fria. Os mais altos responsáveis políticos europeus e norte-americanos admitem em voz alta exactamente a mesma coisa. A Ucrânia é um país europeu, que se libertou do domínio soviético em 1991, quando a União Soviética implodiu. O problema é que Vladimir Putin, à falta de melhor estratégia, está disposto a jogar com as velhas trincheiras da Guerra Fria para afirmar o seu estatuto de superpotência perante os Estados Unidos. Foi ele que disse que a implosão da União Soviética tinha sido a “maior tragédia” da segunda metade do século XX. Ontem, o New York Times revelava uma parte da longa conversa telefónica entre Angela Merkel e Barack Obama (depois de ambos terem tido longas conversas telefónicas com o Presidente russo), em que a chanceler explicava ao Presidente que “ele estava completamente fora da realidade”. Os chefes da diplomacia europeia reuniram-se ontem de urgência, classificando a intervenção russa de “agressão”, que pode pôr em causa as relações com Moscovo.

São sinais positivos de que a gravidade da crise está a ser avaliada da mesma maneira dos dois lados do Atlântico. Obama percebeu que não se trata de uma crise regional que caiba à Europa resolver. Putin desafia-o directamente. A Europa percebeu que, desta vez, pagará um preço muito elevado, se se limitar a olhar para o lado. E essa é a questão fundamental. Vladimir Putin tem jogado sempre na divisão entre os europeus e entre a Europa e os EUA para prosseguir a sua política de “reabilitação” da Guerra Fria. É esta reabilitação que torna a sua actuação política tão perigosa, mas, ao mesmo tempo, tão frágil. O mundo globalizou-se, coisa que a China agradece. A Europa reunificou-se. O poder dos países não se mede apenas pelas suas ogivas nucleares (que nunca foram usadas), mas pela sua capacidade económica e tecnológica. E, finalmente, os pólos de poder não se resumem a Washington e a Moscovo.

2. A Alemanha terá um papel decisivo. Angela Merkel, e Gerhard Schroeder antes dela, trataram de desenvolver a sua própria política em relação à Rússia sem dar grandes satisfações aos seus parceiros europeus (que, em boa verdade, se preocupavam apenas com os bons negócios). Schroeder fê-lo abertamente, sem qualquer preocupação sequer em ignorar a Polónia. A chanceler teve pelo menos a sensibilidade de integrar Varsóvia na sua política russa. O problema é que a Alemanha depende do gás russo em 40% do seu abastecimento energético e os investimentos das suas empresas na Rússia são colossais. Até hoje, Berlim tem tido um comportamento internacional assente na sua visão geoeconómica do mundo (tem sido acusada de agir como uma potência “emergente”). Desta vez, é necessário que veja um pouco mais longe. Referindo-se ao Irão, o antigo chefe da diplomacia de Berlim Joschka Fisher escreveu já há algum tempo qualquer coisa como isto: “Se os EUA e a Europa querem pressionar o regime de Teerão a sério, então têm de estar preparados para pagar a gasolina ao triplo do que pagam hoje.” Da mesma maneira, é possível dizer que há um preço económico para vencer desafios estratégicos desta natureza que os EUA (ainda) estão prontos a pagar, mas que a Europa, virada sobre si própria, ainda não está.

3. A crise ucraniana, que ninguém viu chegar, surge num momento de fragilidade e de retraimento nos dois lados do Atlântico. Há meia dúzia de meses, Obama aproveitou a mão estendida de Vladimir Putin para evitar uma guerra contra o regime de Damasco, que violou a linha vermelha que ele próprio tinha estabelecido, usando armas químicas. O Presidente americano precisou de Putin para a Síria, como precisa dele em relação ao Irão. Não é nas melhores condições que vai ter de adaptar a sua política ao desafio que lhe é feito por Putin. Quanto à União Europeia, entretida a fazer contas às décimas dos défices, está muito longe de ter um pensamento estratégico em relação à Rússia. Ontem, a BBC conseguiu ter acesso a um documento interno sobre a situação na Ucrânia, segundo o qual, “por enquanto” o Reino Unido não deve aceitar sanções que envolvam a City ou os interesses comerciais russos.

A crise ucraniana é um teste fundamental para a aliança transatlântica, que pode moldar a segurança internacional nos próximos tempos. O Ocidente possui ainda argumentos suficientes para fazer recuar Putin. A economia russa é de uma enorme fragilidade e o seu autoritarismo cada vez mais contestado. Basta que não se divida. O que acontecer poderá definir a política externa dos dois mandatos de Obama. Para a Europa, esta é também a crise que pode definir o seu lugar no mundo. Para não falar da sua sobrevivência: qualquer divisão deixará marcas profundas.