Era bom olhar a miséria

Era bom que os nossos governantes pudessem passar um dia inteiro junto daqueles que mais precisam da nossa ajuda

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Kim Kyung-Hoon/Reuters

Ajudar os outros é uma dádiva vinda sabe-se lá de onde. É de tal forma gratificante que só quem já ajudou outra pessoa, à sério, saberá do que falo. Dar uma mão ou um pé ou uma voz a outrem é, no limite, indescritível. Especialmente quando a ajuda é (demasiado) precisa.

Quis a vida colocar-me no meio de centenas de crianças carenciadas e, eu, sem palavra a dar, anuí, sem saber a transformação que me viria a ser imposta pela experiência. Ver todos aqueles rostos felizes com uma bola e agradados com um prato de comida, compadece qualquer peitaça de gelo que por aí se passeie. É, no entanto, triste que aquele momento de plena felicidade tenha sido fugaz.

Antes de chegar à dita escola, foi preciso atravessar um dos bairros mais problemáticos do concelho de Loures e do país. Rapazes sem ocupação encostados a uma parede, de ar ameaçador, aguardam como abutres as suas próximas vítimas. Temi, confesso. Como quem atravessa um muro pejado de violência, consegui chegar à outra ponta do bairro. O caminho assemelhou-se a outro país, outro mundo, outra vida. Depois, a garotada da escola básica.

Observar de perto miúdos necessitados é um "reality check avassalador", é voltar às cavernas e testemunhar os métodos de sobrevivência humanos. Entre eles, amigos e conhecidos de sempre, da vida no bairro, fácil era destrinçar os comportamentos. Na sua vasta maioria, cada um dos presentes ostentava com orgulho roupa de marca (ainda que claramente contrafeita), como se de um escudo se tratasse, contra os desdéns dos seus pares. O discurso é constantemente ambíguo: ora se ataca com promessas de pancada, com uma latente e perene tensão territorial, ora se abraça e sorri e esquece a clivagem de há pouco.

As palavras de uma professora (cujo nome prefiro manter em segredo para sua própria segurança) corroboram a minha visão: “numa escola destas não conseguimos ser professores. Fazemos, na melhor das hipóteses, umas cenas”. Sorri para desanuviar, mas o assunto é sério. “O que importa é mantê-los ocupados para que não se juntem aos gangues onde já andam os pais e os irmãos. Alguns destes miúdos já lá estiveram e já de lá saíram. Outros estão agora a começar”, revela. A professora aponta para um dos miúdos mais minorcas da multidão. “Estás a ver aquele ali, do barrete? Tem 12 anos. A última foto de Facebook que pôs online é ele próprio a segurar uma metralhadora”. Aguarda um pouco e conclui: “este sítio não é para brincadeiras, as pessoas comuns não fazem ideia do que se passa mesmo aqui ao seu lado”.

Eu, como os outros todos, também não tinha a mais pálida noção. Há histórias, sempre. Ouve-se falar disto e daquilo. Mas ver, de olhos bem abertos, nunca. Até agora. Era bom que os nossos governantes pudessem passar um dia inteiro junto daqueles que mais precisam da nossa ajuda. Era bom que nos lembrássemos todos os dias das misérias humanas. Era mesmo, mesmo bom.