Crítica

A voz enorme de Ricardo Ribeiro sabe brilhar no largo maior do fado

A apresentação de Largo da Memória na noite de 15 de Fevereiro num CCB superlotado mostrou o melhor da arte de Ricardo Ribeiro. 4 estrelas.

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Ricardo Ribeiro no CCB: uma actuação iluminada Enric Vives-Rubio

Entrou no palco sob uma prolongada salva de palmas, mas nos primeiros minutos não parecia ele: voz hesitante, pouco expressiva, baça, como se pisasse território estranho. Mas a meio do primeiro fado (Destino marcado, o Fado Menor de Fernando Farinha) Ricardo Ribeiro venceu as contrariedades (“estou cheio de nervos”, diria ele depois) e mostrou do que é capaz.

E é capaz de muito, com a voz enorme que se lhe conhece, mas sempre chamando a atenção para os méritos restantes: os dos compositores, criadores, músicos, os que o acompanham e os que fizeram dele o que hoje é. Essas referências ocupam grande parte do tempo em que ele fala, por entre fados. E muito do que ele diz interessa ouvir, pelo que explica e conta, não dispensando até a ironia – quando lhe gritam “És o maior!”, responde “Sou o maior em peso, não há nenhum mais gordo do que eu”.

Mas o que ele na verdade quer maior é o fado, o seu fado. Entre temas de Largo da Memória (cantou 13, num total de 16) e do anterior Porta do Coração (mais cinco), mostrou a grandeza e solidez do seu canto. Com Pedro de Castro (guitarra portuguesa), Jaime Santos (viola de fado), Francisco Gaspar (viola baixo), João Nuno Represas (percussão) e um quarteto de cordas (Tiago Neto, António José Nogueira, Sandra Raposo, Nuno Abreu), Ricardo teve ainda a seu lado quatro convidados notáveis:

Pedro Caldeira Cabral, que na guitarra portuguesa o acompanhou na trovadoresca Cantiga de seguir, ficando para o instrumental Quando nasceste, melodia exaltante que Ricardo Ribeiro escreveu e gravou para dedicar à filha (na sala, ouviu-se um “obrigada, pai!”);

Joel Pina, o histórico viola baixo que, a poucos dias de completar 94 anos (a 19 de Fevereiro) acedeu a subir da plateia ao palco para se integrar no grupo e acompanhar, com saber e desenvoltura, um belíssimo Fado é canto peregrino;

Pedro Jóia, cuja ágil guitarra deu alma e cor a Entrega (excelente), Gaivota perdida (criação de Celeste Rodrigues, que Ricardo Ribeiro não gravou mas cantou aqui) e Tarab, feliz composição ibero-árabe;

E, por fim, Rabih Abou-Khalil, experiente e criativo músico libanês que “casou” o seu oud (espécie de alaúde árabe) com a voz de Ricardo em dois temas: Adolescência perdida, do disco que registou a parceria de ambos, Em Português; e Grão de areia, inédito com música de Abou-Khalil e letra do fadista António Rocha que em boa hora Ricardo gravará num próximo disco. Quatro momentos inesquecíveis.

De resto, Ricardo honrou o seu reportório com interpretações à altura, com escassos momentos menos conseguidos, destacando-se já no final De loucura em loucura e Não rias, interpretações sentidas e vibrantes que lhe valeram sonoros “bravo!” da plateia.

A fechar ouviu-se Malhas do amor, o Fado Sem Pernas que foi também sem casaco, já que Ricardo o tirou para ficar em camisa, mas sem abandonar o característico lenço. O encore, numa tempestade de aplausos, trouxe ventos fadistas e árabes em conjugação perfeita: o Fado do Alentejo (com arranjo de oud e cordas de Rabih Abou-Khalil) e o Fado de Alfama, de novo com Joel Pina a subir ao palco para um final em festa.

Uma noite de grandes momentos musicais iluminados por uma voz que é um portento.