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As prequelas (por vezes) importam

“Left Behind”, que é editado hoje digitalmente, explora o passado de Ellie antes de conhecer Joel, ambos protagonistas da história

Uma grande obsessão das indústrias de entretenimento neste século é o fascínio pelas histórias que contam origens. Isto no cinema é perfeitamente tangível (como a necessidade de recontar a história do Super-Homem ou de dividir “O Hobbit” em três partes) e sente-se muito nas adaptações do universo da banda-desenhada: muitas delas nem precisam de uma história de origens, mas estão lá, para criar a necessidade de que o espectador nunca saberá de tudo, saberá o suficiente. Antes a imaginação preenchia essas lacunas, mas como hoje nos alimentamos desses pormenores, a forma mais óbvia de saciar essa vontade é através de respostas concretas. E isso cria a necessidade de nos alimentarmos de mais filmes e séries em volta deste assunto. Os videojogos têm aprendido a explorar isto também.

Nem sempre de uma maneira óbvia, muito menos para explicar tudo, mas voltar atrás é uma óptima forma de explorar conteúdo quando não se sabe ou não se pode olhar para a frente. Em suma, ainda conseguem criar a ilusão de novidade e esquivarem-se à exaustão desta formatação. É por isso que quando olhamos para os capítulos de “Metal Gear Solid” onde Naked Snake é o protagonista (no “presente” da história é conhecido como Big Boss) tudo parece tão novo, original e sequencial: não se sente como uma história de origens que criou necessidade para ser contada, mas algo que está realmente a preencher um espaço que nem sabíamos que existia no nosso imaginário. Noutras palavras, está mais a criar história do que a explorar.

O termo prequela ficou regular no léxico do entretenimento como um modo viável de tornar exequível a expansão de certos franchises. A indústria dos videojogos tem encontrado diversos modos de introduzir este conceito. Há os óbvios, bem recentes, como “God Of War: Ascension” para a Playstation 3 e “Gears Of War: Judgement” para a Xbox 360 no ano passado, óptimos títulos que fracassaram em chamar o interesse do jogador, talvez porque o ciclo destes jogos nessa geração de consolas já estava fechado e eram quase explorações desnecessárias dessas marcas.

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Como também existem aquelas prequelas que encontram a sua razão de existir nas consolas portáteis e concretizam estas ideias da melhor forma, exactamente por serem uma fuga ao evento principal. “Crisis Core: Final Fantasy VII” na PSP passa-se antes da história original e resolve o enigma de uma grande nota de rodapé do jogo-mãe; ou o brilhante “God Of War: Chains Of Olympus” que, anos antes de “Ascension” fez um melhor trabalho sobre o passado de Kratos e que serviu para demonstrar as imensas potencialidades da consola da Sony.

Às vezes estas prequelas podem acontecer dentro do próprio jogo, como as maravilhosas sequências da infância de Nathan Drake em “Uncharted 3”. E enquanto um novo “Uncharted” não chega, a Naughty Dog resolveu encher ainda mais o mundo de “The Last Of Us” (um dos jogos mais aclamados de 2013) com o primeiro conteúdo para download que publicam com um propósito narrativo.

“Left Behind”, que é editado hoje digitalmente, explora o passado de Ellie antes de conhecer Joel, ambos protagonistas da história. A sua importância deve-se ao facto de ser mais uma peça a acrescentar ao mundo apocalíptico exemplar criado em “The Last Of Us”. Num jogo onde a humanização das personagens é tão importante, ficou o desejo de saber o que ficou no passado de Ellie (porque o de Joel é complementado no jogo).

“Left Behind” parece um passo calculoso mas certo na forma de adicionar este género de conteúdo – origens/prequelas – em grandes jogos que deixaram um universo por explorar. Algo que faz sentido numa altura em que a transição do software das consolas para o digital está cada vez mais presente e onde ainda se encontram muitos erros estratégicos. Este não é um deles.