Nacho Doce/Reuters
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Qual será a marca da Copa do Brasil?

Envergonha-me pensar que a Copa possa deixar como legado uma imagem distorcida dos brasileiros: uma nação sem civilidade e educação

A pouco mais de quatro meses para o início da Copa do Mundo 2014, no Brasil, começo a temer pelo vexame nacional a que estamos sujeitos. Ao contrário do que possam imaginar, meu temor não está relacionado com comportamento das autoridades políticas. Quanto a estes, é facto que não deram conta de suprir todo o atraso estrutural do país, consequência das décadas de descaso com os serviços prioritários necessários a qualquer país que queira ser chamado desenvolvido.

Pagamos caro por tal incompetência. Mas o medo a que me refiro está relacionado ao comportamento da população diante da realização da Copa, pois parte dela discute o tema como se a palavra já não tivesse sido dada há sete anos, quando o Brasil foi escolhido como sede da Copa do Mundo de 2014.

Ainda hoje alguns grupos discutem a questão como se ela estivesse em aberto. É possível ver nas redes sociais, nas ruas e nos noticiários, pseudo-manifestantes que destroem bens públicos e ameaçam dificultar a realização da Copa, com palavras de ordem do tipo “Não vai ter Copa”.

E é justamente desta atitude que advém todo meu temor. E explico porque uma coisa já me parece certa: os visitantes que se aventurarem a vir ao Brasil para a Copa de 2014 vão ter de encarar as dificuldades de falta de infraestrutura com as quais convivemos todos os dias. Não haverá como poupá-los e acho bom que assim seja, pois não estamos aqui para apresentar um Brasil que não existe.

O que realmente me assusta é imaginar que, além de lidar com estes problemas estruturais, os nossos visitantes tenham de lidar com a violência, a hostilidade e falta de educação, atitudes que se contrapõem ao modo de ser e agir dos brasileiros, um povo reconhecido por sua pacificidade e hospitalidade. Digo isso, pois acredito que ser pacífico não tem nada a ver como ser apático. E ser cortês e educado não significa ser alienado.

Parece-me estranha a atitude de grupos que ao protestar contra a nossa precariedade estrutural vá às ruas justamente destruir bens públicos e privados tão caros à população.

A maioria das reivindicações feitas em prol da melhoria da saúde, educação e transporte público são legítimas, mas o que aterroriza é o modo como elas são feitas, como bárbaros e não como cidadãos. Não vejo de que maneira a postura adotada por vândalos travestidos de manifestantes possa contribuir para o desenvolvimento do país.

Envergonha-me pensar que a Copa possa deixar como legado uma imagem distorcida dos brasileiros: uma nação sem civilidade e educação. Acredito que qualquer embaraço quanto à falta de estrutura possa ser facilmente perdoada por nossos visitantes se não abrirmos mão do que somos em nossa essência: um povo educado que sabe acolher mesmo diante da nossa precariedade estrutural.

Imperdoável é disseminar a cultura da ignorância e da violência, marcas de um povo que não sabe reivindicar.