Ideia de criar um Museu da Medicina no Hospital de São José conquista terreno

A historiadora Raquel Henriques da Silva defendeu a necessidade de se “resgatar” espólios que estão hoje ao abandono em vários equipamentos de saúde da Colina de Santana.

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O Hospital de São José é um dos vários localizados nesta zona histórica de Lisboa Ana Ramalho

A criação de um Museu da Medicina no Hospital de São José foi defendida esta terça-feira por vários dos intervenientes naquele que foi o quarto debate promovido pela Assembleia Municipal sobre o futuro da Colina de Santana.

O mesmo é proposto pela Câmara de Lisboa no seu Documento Estratégico de Intervenção na zona, embora aí se deixe em aberto a localização desse equipamento.

Em discussão neste debate, que mobilizou mais de 200 pessoas, estava o impacte das propostas para os hospitais Miguel Bombarda, São José, Santa Marta e Capuchos “na memória e identidade histórica” desta zona da cidade. Mais uma vez, a decisão de encerrar esses estabelecimentos hospitalares, com a qual muitos munícipes, incluindo profissionais de saúde, não se conformam, dominou boa parte das intervenções.

Foi a historiadora Raquel Henriques da Silva quem introduziu a ideia de um Museu da Medicina, lembrando que existem já hoje “espólios de qualidade muito significativa”, dispersos por vários equipamentos da Colina de Santana. Por exemplo, o Museu Mac-Bride, em Santa Marta, que “está completamente abandonado” e onde se destaca a mesa de trabalho de Egas Moniz, e o núcleo museológico do Hospital dos Capuchos, que se assemelha a “uma arrecadação mal cuidada”.

A professora associada da Universidade Nova de Lisboa lembrou que existe já um Museu da Saúde, do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, embora seja “um espaço virtual”. Nesse sentido, Raquel Henriques da Silva defendeu que “é impensável” que na colecção futura desse museu “a memória dos hospitais da Colina de Santana não permaneça, não seja regatada, tratada, cuidada e integrada”.

A historiadora não tem dúvidas de que o espaço com “vocação” para acolher um Museu da Medicina é o Hospital de São José, “independentemente de manter a valência hospitalar ou não”. No debate, Raquel Henriques da Silva propôs que a ex-presidente da Assembleia Municipal Simonetta Luz Afonso ficasse responsável pela elaboração de um plano nesse sentido.

O reitor da Universidade Nova de Lisboa aplaudiu a ideia e garantiu que esta instituição assumiu o compromisso de “ajudar a transformar a Colina de Santana na Colina do Conhecimento”, designação que tem sido promovida pela Câmara de Lisboa. António Rendas afirmou que “o património é sagrado mas não é intocável”, acrescentando que acima dele devem estar as pessoas.

O reitor destacou ainda que para um projecto como este possa avançar é preciso que os técnicos apresentem “soluções viáveis” para travar a degradação daquela zona da cidade e que o Governo se comprometa com “um cronograma inabalável”. “Os próximos anos vão ser excitantes para a colina”, concluiu António Rendas.

Mais críticos de todo este processo foram Vítor Freire, presidente da Associação Portuguesa de Arte Outsider, e o arquitecto José Aguiar. O primeiro manifestou-se contra o facto de os projectos arquitectónicos existentes preverem a demolição de muitos imóveis, sem estudos que o justifiquem e sem respeitar as Zonas Especiais de Protecção dos edifícios.

Vítor Freire, que tem sido particularmente crítico do projecto existente para o Hospital Miguel Bombarda, do qual foi administrador, denunciou ainda os “elevados índices de construção” previstos e o impacto “desastroso” que terão sobre a memória da Colina de Santana.

Já José Aguiar lamentou que não tenham sido equacionadas outras alternativas para os terrenos dos quatro hospitais, defendendo que se devia optar por uma “intervenção mínima”. O arquitecto também sublinhou a importância de “prever desde já usos para os edifícios desactivados”, para que não se transformem em ruínas quando deixarem de funcionar.

O Documento Estratégico de Intervenção para a Colina de Santana, elaborado pelos serviços camarários no fim de 2013, diz que “as questões patrimoniais e identitárias da área não podem ser menosprezadas” e propõe a criação de um Museu da Medicina, como forma de “perpetuar essas memórias para as gerações futuras”.

Notícia corrigida às 9h30: corrige nome do Museu da Saúde