Jogos de fortuna e poder

Os Olímpicos mais caros de sempre vão realizar-se numa zona de segurança delicada, onde há uma guerrilha independentista islâmica.

 A maior fatia do investimento foi mesmo para a construção de uma impressionante estrada e de uma linha de caminho-de-ferro, de cerca de 49 km, todas sobre pilares ou com túneis (12) que atravessam montanhas, que fazem a ligação entre a cidade de Adler, junto à costa, e Krasnaia Poliana, nos picos do Cáucaso, onde se realizam as provas de esqui, de saltos e outras que requerem neve. Avaliada em 8,7 mil milhões de dólares, os russos comparam a dificuldade de concretização e a ambição desta obra em Sochi com a ferrovia construída nas décadas de 1970-80 Linha Principal Baikal-Amur, que atravessou o Leste da Sibéria e o Extremo Oriente russo, ao longo de 4324 km.

Há suspeitas de corrupção, com um orçamento tão grande?
Havia dinheiro para gastar em Sochi, isso foi claro desde o início, e foi lá gasto muito, embora Vladimir Putin tenha aplicado um modelo pouco comum na Rússia, instituindo parcerias público-privadas, que podem assumir duas formas. Uma delas é fazer convites irrecusáveis a alguns oligarcas a investirem em projectos que, espera-se, venham a tornar-se negócios rentáveis depois dos jogos – embora isso não seja certo (ver texto principal). Estão neste caso o magnata do alumínio Oleg Deripaska, que se envolveu na renovação do aeroporto, e Vladimir Potanin, que está a construir Rosa Khutor, onde decorrerão os eventos alpinos dos Jogos de Inverno. Estes investimentos têm uma considerável almofada de segurança de financiamento por bancos estatais na ordem dos 80-90%. Mas é sobre o outro tipo de parceria público-privada que recaem ainda mais suspeitas, aquele que leva as grandes empresas estatais, como a Gazprom, a fazer contratos para empreitadas específicas. As empresas dos irmãos Arkadi e Boris Rotenberg, velhos companheiros de Putin quando ele estava a dar os primeiros passos no judo e hoje grandes milionários, estão nesse caso, e estima-se que sejam quem mais beneficiou com os Jogos de Sochi, avança a revista Business Week. Receberam 21 contratos, no valor de 7000 milhões de dólares – o que, só por si, é mais do que custaram os Jogos Olímpicos de Inverno de Vancouver, em 2010.

Pode-se confiar na qualidade das obras feitas em Sochi?
Verdade seja dita, há sempre suspeitas e acusações, nestes grandes eventos, há sempre quem esteja disposto a afirmar que as coisas estão mal e nunca estarão prontas a tempo. No caos de Sochi, há bastantes casos – a Internet encheu-se nos últimos dias de fotografias absurdas, como a da casa de banho com duas sanitas e as dos quartos dos jornalistas que não estão, de todo, terminados. Mas o problema dos alojamentos dos jornalistas tem a ver com o caso dos irmãos Bilalov, que eram responsáveis pela sua construção e também pelo Complexo de Saltos RusSki Gorki, e acabaram por ser despedidos em directo na televisão, por Vladimir Putin, quando o Presidente visitou as obras, que, por essa altura, tinham dois anos de atraso. O complexo RusSki Gorki acabou por custar 265 milhões de dólares – mais de seis vezes a estimativa inicial, que era de 40 milhões –, num processo que parece ter devido bastante a mal planeamento, segundo um relato do Wall Street Journal.

Os homossexuais não podem ir aos Jogos?
A polémica internacional por causa de uma lei que entrou em vigor em Junho de 2013 e que pune com uma multa que pode ir até 10.600 euros e até mesmo penas de prisão quem faça “propaganda” da homossexualidade junto de menores afastou de Sochi muitos líderes mundiais. Mas os activistas gays na Rússia pediram que não haja boicote aos Jogos – é preferível que o país passe a conhecer melhor o rosto de algo que desconhece e mesmo assim não tolera, por exemplo com atletas que mostrem abertamente a sua homossexualidade. É que esta lei desprezada internacionalmente tem o apoio de mais de 80% da população russa. 

Há ameaças de terrorismo contra os Jogos. Como é o dispositivo de segurança?
Os Olímpicos de Inverno de 2014 foram aterrar no meio do Cáucaso do Norte, uma região altamente efervescente. Sochi é, neste momento, guardada por um exército de 100 mil militares e seguranças, há mísseis nas montanhas, barcos de alta velocidade no porto e submarinos a patrulhar a costa. E drones a vigiar os céus. Teoricamente, é o lugar mais seguro do mundo. Mesmo os espectadores da competição olímpica só entram em Sochi com passaportes especiais, para tentar eliminar as hipóteses de que lá entre um terrorista com explosivos que se faça explodir na aldeia olímpica. Os Estados Unidos lançaram o alerta de que pode haver um atentado com explosivos dentro de tubos de pasta de dentes, e é expressamente proibido transportar quaisquer líquidos na cabina do avião. Mas os atentados de 29 e 30 de Dezembro em Volgograd, uma cidade a 690 km de distância, que fizeram quatro dezenas de mortos, mostram que o raio de alcance da ameaça terrorista da guerrilha islâmica liderada pelo checheno Dokka Umarov, que luta pela independência de Moscovo e para estabelecer um emirado islâmico no Cáucaso do Norte, é muito mais vasto do que apenas a estância balnear preferida de Vladimir Putin.