Catalunha: “O movimento independentista transmite alegria e isso é muito difícil de combater”

Madrid podia ter impedido que se chegasse aqui, mas agora, diz Vicent Partal, não há recuo. O director do diário digital Vilaweb não tem dúvidas: os catalães vão mesmo votar para decidir se querem continuar a fazer parte de Espanha.

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JOSEP LAGO/AFP

Para entrar na redacção do VilaWeb não é preciso tocar a nenhuma campainha. Entra-se pela loja e a loja vê-se da rua. A ideia é “vender produtos com ideias”, diz-nos Vicent Partal, fundador e director do VilaWeb. Neste momento, a ideia principal é “a ideia de um país”. As cores não enganam, o amarelo e o vermelho da bandeira estão por todo o lado. Há T-shirts amarelas com uma urna e a palavra “Sim”, o jogo da glória em versão catalã, imãs, livros – um deles é A un pam da la independência, o último livro de Partal – e, claro, a estelada, a bandeira independentista da Catalunha.

Partal gosta deste seu novo espaço, aberto em 2012. Ter uma redacção realmente aberta aos leitores é mais fácil num espaço assim, convidativo e bem situado, no Raval, a dois passos do MACBA, o Museu de Arte Contemporânea de Barcelona. Aqui se fazem cafés semanais com os leitores e com convidados chamados a debater temas da actualidade.

O director do VilaWeb é um pioneiro do jornalismo digital e este diário, fundado em Maio de 1995, foi um dos primeiros digitais do mundo, o primeiro em catalão. Apesar de dizer que os grandes jornais venceram a batalha – “hoje, quando se pensa em jornais digitais pensa-se nas edições digitais dos jornais tradicionais” –, Partal sabe que a guerra continua e o VilaWeb, com um milhão de utilizadores, não pára de lançar novos projectos: para além da televisão e de um programa de rádio, tem uma página com um resumo da semana num jornal em papel, Il Punt Avui, e acaba de lançar uma revista para iPad e uma edição em inglês.

Do que Partal mais gosta de falar é do conceito de subscrição. “A informação é toda aberta e igual para todos, é a nossa responsabilidade social, mas pedimos aos mais comprometidos para participarem, pagando, mas não só”, diz. Todos os dias, estes subscritores recebem um email onde se explica “no que é que estamos a trabalhar, quem são os jornalistas” e se pedem correcções e sugestões. O editorial, por exemplo, é publicado em duas versões, a original e a do leitor, que reflecte este diálogo.

As possibilidades abertas pela net e pelas redes sociais mudaram o jornalismo mas mudaram muito mais do que isso. Tanto que, para Partal, o actual movimento independentista catalão não se pode entender sem isso. “A Internet foi determinante para as revoltas no mundo árabe ou para a primeira eleição de Barack Obama. Aqui também. Em todos os países, veio romper com as estruturas tradicionais, faz circular a informação de uma maneira diferente e permite que as ideias aflorem desde baixo”, afirma. “As opiniões dos que estavam mais afastados dos meios do establishment tornaram-se visíveis e isso mudou a percepção social da realidade.”

Em Espanha, e na Catalunha, esse processo foi especialmente importante, defende Partal, por ter coincidido com uma fase importante da transição, do pós-franquismo. “No caso catalão, a coincidência disto com um momento político no qual aparece um objectivo muito nítido – construir uma república – fez com que se disseminasse muito rapidamente.” Na Catalunha, em particular, a Internet contribuiu para dar mais visibilidade ao catalão. Partal não é o único a explicar parte do crescimento do movimento independentista com o reforço do espaço público catalão, um espaço diferente do espanhol que acabou por tornar mais evidentes duas visões distintas da realidade.
 

De baixo para cima
“Para mim, o que aconteceu aqui foi que a realidade passou a estar à mostra. O diário La Vanguardia resistiu muito a fazer o jornal em catalão, mas as vendas em catalão superam amplamente as vendas em castelhano. A realidade existia, faltava pô-la a descoberto.” O exemplo do jornal La Vanguardia serve a Partal para desconstruir um dos argumentos mais esgrimidos pelo Governo central. “Em Madrid, há esta teoria de que isto é uma loucura do presidente [da região autónoma] Artur Mas. Isso não é verdade, este é um movimento profundamente de base, das pessoas, que arrasta os políticos. Se não se entende que o que se está a passar aqui é um movimento que vem de baixo então não se entende nada.”

Há pouco mais de dois anos, Artur Mas, líder da Convergência, um dos partidos da coligação Convergência e União (CiU), no poder na Catalunha, não era independentista, defendia só que a Catalunha devia ter mais competências e uma relação fiscal mais favorável com Espanha. Tudo começou a mudar na manifestação de 11 de Setembro de 2012, organizada por um grupo de cidadãos, a Assembleia Nacional Catalã. Nesse dia, 1,5 milhões de catalães saíram à rua sob o lema “Catalunha, o novo estado da Europa”.

Artur Mas ainda tentou negociar um novo pacto fiscal, mas o governo do Partido Popular fechou-lhe a porta. Seguiram-se eleições antecipadas: a CiU perdeu votos mas os partidos nacionalistas cresceram. Hoje, Artur Mas governa com o apoio da Esquerda Republicana Catalunha, soberanista, e em Dezembro, quatro partidos aprovaram no parlamento catalão a realização de um referendo sobre a independência, marcado para 9 de Novembro.

Madrid insiste que o referendo é ilegal, o governo regional diz que é um direito dos catalães. De Barcelona para o Parlamento nacional seguiu o pedido para que os deputados deleguem no parlamento regional o poder de organizar o referendo. A resposta vai ser negativa e os deputados catalães vão votar em breve uma lei que lhes dá o poder para realizar consultas populares, algo que o PP se prepara para contestar no Tribunal Constitucional. 
 

Admitir o fracasso
“Eles continuam a ignorar o problema, mas o problema não vai desaparecer. O tempo está a passar, há uma data, o 9 de Novembro”, diz Partal. O jornalista acredita que vai haver mesmo uma consulta nesse dia, mas a verdade é que Madrid tem mecanismos para travar o referendo. “Em último caso, o presidente marcará eleições com a declaração de independência no programa. Se ganhar, proclama a república.”

Partal entende o estado de negação do Governo e das elites, daquilo a que chama “o grupito de gente que usa a ideia de Espanha em seu benefício” e se confunde com o país. Esta gente, diz, fracassou. A sua ideia de Espanha, que vem da transição, falhou. “É difícil admitir o fracasso total, é compreensível que se procurem formas de atenuar essa culpa.”

O “modelo em que Espanha está construído é um desastre total”, afirma. Acima de tudo, defende, por culpa dessas elites que controlam o país. “No fim, o franquismo acabou por vencer, a transição não foi real. Se olharmos para quem manda no Estado, na política e na economia, são filhos e netos de franquistas. As grandes empresas espanholas são paraestatais, mesmo sendo privadas.” A relação entre Madrid e as regiões, enquadrada pela Constituição de 1978, está esgotada, e os choques entre as autonomias e o poder central sucedem-se. O PP, com uma agenda centralista, só acelerou o confronto.
 

Mudança de regime?
O que Partal não sabe é se isto é só o princípio de algo novo para a Catalunha. “Na história, sempre que Espanha esteve em crise, e foram muitas vezes, a Catalunha percebeu sempre 5 minutos antes. A república, por exemplo, foi proclamada em Barcelona antes de ser em Madrid. “Isto pode ser um processo de independência da Catalunha ou um um processo de mudança de regime em que a Catalunha é o primeiro a dar este passo.”

Artur Mas tornou-se independentista e o mesmo aconteceu a muitos catalães. “Sociologicamente, os catalães não são independentistas, a população move-se muito, vem de todo o lado, é muito viva”, explica Partal. “À medida que via que o movimento se solidificava e que ia vendo as reacções de Madrid, Artur Mas foi mudando de posição”, os catalães também. Muito se explica com erros do Governo central: os ataques ao catalão como língua de ensino, por exemplo, e a recusa de negociar um novo pacto fiscal.

O que aconteceu na Catalunha, diz Partal, é que as pessoas perceberam que o Estado espanhol é débil e não funciona, e concluíram que “neste momento histórico, a opção mais prudente é a independência, ficar com Espanha não oferece garantias, isso começou a mudar a percepção das pessoas.”

A Catalunha já travou guerras com Espanha, mas a verdade é que os independentistas falam mais de futuro do que de passado. Para o jornalista, isso é fundamental. “O movimento transmite alegria e isso é muito difícil de combater”, diz, principalmente num período de crise económica e institucional, quando tantos sentem os políticos longe da realidade. A independência é também a esperança de começar de novo. Mas não se corre o risco de ver na separação uma solução milagrosa? “As pessoas não esperam que a independência vá resolver tudo. Pensam é que com Espanha não se vai resolver nada.”