Pessoas em situação de pobreza não se vêem como pobres e mostram-se optimistas

Estudo da AMI, apresentado nesta quarta-feira, traça o perfil da pessoa em situação de pobreza: uma mulher desempregada, a viver com alguém e, entre outras características, tem entre 40 e 59 anos, escolaridade entre o 2º e 3º ciclo do ensino básico, e carências alimentares.

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Fernando Nobre diz que é urgente “assumir de uma vez por todas que há fome em Portugal”

A maioria das pessoas em situação de pobreza não se revê nessa realidade, identificando-se antes com uma classe social superior. Segundo o estudo A vivência da pobreza – como se sentem os pobres?, apresentado nesta quarta-feira pela AMI, apesar de 88% dos entrevistados terem um rendimento per capita inferior a 421 euros, apenas 48% consideravam estar em situação de pobreza.

Os dados foram recolhidos ao longo de 2012 nos Centros Porta Amiga da AMI e trabalhados em 2013. As conclusões mostram que, apesar de 88% dos entrevistados possuírem um rendimento per capita inferior a 421 euros – 48% muito pobre e 40% pobre -, valor considerado como limiar da pobreza, apenas 48% se auto-avaliam como estando numa situação de pobreza, considerando os restantes que estão numa classe superior, que pode oscilar entre pobre e média-baixa.

“Quase todas as pessoas tendem a fugir da classe muito pobre e a auto projectarem-se em classes sociais mais elevadas porque para eles muito pobres são as pessoas que não têm casa, dormem na rua e são pessoas que não têm comida”, explicou a directora do departamento de Acção Social da AMI e orientadora do estudo, Ana Martins, acrescentando que o facto de ainda terem casa e irem buscar comida à AMI ou a outras instituições, tira-as, na opinião dos inquiridos, da classe social muito pobre. Paradoxalmente, quando questionadas sobre a existência ou não de pobreza em Portugal, 64% referem que mais de metade da população está em situação de pobreza.

De acordo com esta investigação, “a postura optimista entre a classe social real e a percepcionada pelos próprios é ainda maior se projectarmos para um futuro a cinco anos”: 60% imagina-se na classe média e média-baixa e apenas 36% diz que daqui a cinco anos continuará a ser pobre ou muito pobre.

A classe social definida pelo estudo como muito pobre corresponde a 48% da amostra e diz respeito a pessoas que, em 2012, viviam com rendimentos até 189 euros. Neste grupo apenas 14% se vê como muito pobre. Já a classe social pobre representa 40% da amostra e diz respeito a pessoas que vivem com um rendimento entre 190 a 421 euros. Neste grupo, 34% vê-se como pobre.

Para este estudo foram feitas 50 entrevistas a 26 mulheres e 24 homens em vários pontos do país, num universo de 31.842 beneficiários da acção social da AMI em Portugal, mas Ana Martins ressalva que os instrumentos estatísticos utilizados permitem fazer uma leitura global acerca da percepção da pobreza.

Mulher e desempregada
O perfil dominante da pessoa em situação de pobreza apontado inclui, entre outras características, ser mulher, viver com alguém, estar desempregada, ter entre 40 e 59 anos, escolaridade entre o 2º e 3º ciclo do ensino básico, ter carências a nível de alimentos e dinheiro, e rendimentos inferiores a 150 euros per capita. É ainda uma pessoa solidária, receosa e triste que considera que o rendimento adequado, para dois adultos e duas crianças, situar-se-ia entre os 251 e os 312 euros ou acima dos 312 per capita.

Apesar de serem as mulheres que se mostram mais optimistas, os dois sexos evidenciam de forma geral um “sentimento de acomodação e optimismo", o que, somado à falta de percepção sobre a própria realidade em que vivem, “dificulta imenso o trabalho de todas as organizações”: “Inibe o sentimento de indignação e revolta no sentido construtivo, o direito á indignação que permita a pró-actividade”, diz o presidente da AMI, Fernando Nobre.

Apesar deste sentimento de optimismo, Fernando Nobre garante que os técnicos da AMI lidam com a revolta das pessoas no terreno: “As pessoas estão cansadas e fartas”, diz, ressalvando que as entrevistas do estudo foram feitas em 2012, não reflectindo ainda o sentimento das pessoas em relação às mais recentes medidas de austeridade.

Fernando Nobre diz que é urgente “assumir de uma vez por todas que há fome em Portugal” e lançar “uma causa nacional” de luta contra a pobreza e exclusão social, juntando esforços de cidadãos, instituições, empresas, juntas de freguesia, câmaras municipais, e estado central. “Nós estamos perante uma vergonha nacional que não é de hoje mas que, enquanto portugueses que somos, deixa-nos numa situação em termos europeus nem sempre a mais vantajosa”, ressalva.

Também Ana Martins sublinha que Portugal é o país da Europa com mais reprodução de pobreza, “onde é mais difícil filho de pai pobre sair da pobreza”: “O ciclo de pobreza é o mais duradouro. E isto cria problemas grandes ao nível da alteração de comportamentos, de maneira de pensar, e de trabalhar a pobreza, porque efectivamente em termos práticos é muito mais difícil para um filho de um pobre ascender, sair do ciclo da pobreza, do que na maior parte dos países europeus”, diz, salientando que esta é uma realidade agravada pela crise.
 
 

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