Reportagem

Crato foi apresentar “a sala de aula inteligente”, mas “não há nada que substitua o professor”

A Samsung ofereceu os tablets, a LeYa os conteúdos. O ministério diz-se disponível para apoiar projectos deste tipo, mas não há um plano nacional para levar estes equipamentos às escolas.

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Nuno Crato também experimentou o equipamento sul-coreano Daniel Rocha

Não é um novo plano para levar equipamentos informáticos às escolas. Não é um segundo “programa Magalhães”, longe disso – aliás o ministro da Educação, antes de o ser, defendeu que é “um perigo” achar que os computadores resolvem os problemas do ensino. É uma “experiência”, apenas. E a Escola Básica de Vale Figueira, em São João da Talha, Loures, foi a escolhida. Mais concretamente, a turma do 3.º ano da professora Paula Simões, uma docente de 40 anos e mais de 15 de profissão que já tem tudo planeado: vai usar tablets na sala de aula, pelo menos uma hora por dia, com os seus meninos.

Paula Simões garante que não se vai ver livre dos manuais em papel, nem dos cadernos e das canetas. Mas fala com entusiasmo das potencialidades daquele que foi baptizado como programa Smart School – ou “sala de aula inteligente” –, que põe alunos e professores a interagir com tablets.

Sentados nas suas secretárias, os alunos podem estar a fazer exercícios, cada um com o seu tablet, que a professora, que também tem um, monitoriza-os em tempo real. Todos ao mesmo tempo. Pode controlar e corrigir o que cada um vai fazendo, explica, e enviar-lhes mensagens ou sinais personalizados durante o exercício. “Posso, por exemplo, para um determinado aluno, enviar-lhe uma chamada de atenção, se o vejo distraído, fazendo vibrar o tablet dele".

É possível usar conteúdos multimédia e jogos, cada aluno sempre com o seu tablet e o professor com o seu, em interacção – é muito diferente ensinar o sistema circulatório, aqui isto, ali aquilo, mostrar um coração realmente a bater, exemplifica Paula Simões. E, no fim da aula, é possível pôr todos os alunos da turma a fazer o mesmo teste – mal eles terminam, a professora tem acesso a um gráfico com os resultados que permite perceber que conteúdos foram apreendidos e que meninos não conseguiram lá chegar.

A Samsung Portugal forneceu os 25 tablets à escola e este processo deverá abranger mais algumas ainda este ano, indicadas pelo Ministério da Educação – diz Jorge Fiens, director de Relações Públicas da Samsung. O grupo editorial LeYa fornece os conteúdos educativos. Os miúdos, esses, mostraram-se, nesta quarta-feira, bastante hábeis – no dia anterior, já tinham treinado uma hora e meia, para garantir que, na apresentação com o ministro, tudo corria bem. E parece ter sido suficiente. “Isto é fácil”, garantiu Lucas, de oito anos. Ele os colegas só esperam também ter acesso ao Facebook. A professora já disse que não vai ser possível.

Mas nada – fez questão de sublinhar o ministro Nuno Crato, com um velho quadro de giz atrás de si e Jong Soo Kim, o sul-coreano de 46 anos que preside à Samsung Portugal, ao seu lado –, “não há nada, que substitua o professor e o contacto humano”.

No centro de tudo, "o saber"
A escola do futuro, segundo Nuno Crato, terá mais tecnologia – “e vocês têm a sorte de ter um bocadinho desse futuro nas vossas mãos”, disse o ministro às crianças –, mas, “no centro de tudo, está o saber bem, saber escrever, saber História, saber contar.”

O ministro admitiu, questionado pelo PÚBLICO, que era um crítico dos Magalhães, porque “não havia conteúdos, não havia uma estratégia” para os utilizar nas escolas – “aqui, o centro não é o tablet, são os conteúdos”, sublinhou. E, de resto, estamos a falar de experiências, com a ajuda de empresas, que o ministério está interessado em apoiar cada vez mais, e não de um programa nacional, disse.

A professora Paula Ferreira está entusiasmada. É que, apesar das reservas do ministro, ela era uma adepta dos Magalhães, que eram distribuídos pelos alunos, e cujo programa foi interrompido pelo actual Governo. Esta turma já não teve portáteis. Agora foi das escolhidas para terem tablets.

No final da apresentação, Crato distribuiu alguns, fez conversa com os miúdos e experimentou um também. Por fim, falou aos jornalistas. “Sabemos que, na Coreia [do Sul], que é um dos países que acompanhamos com muita atenção no que diz respeito à Educação, há factores que explicam muito do sucesso: um ensino muito organizado, muito bem estruturado, com metas muito claras. E este é um aspecto em que estamos a trabalhar no nosso país, com metas claras e liberdade para os professores organizarem as suas aulas de acordo com aquilo que consideram que dá mais resultado na sua sala de aula. Outro dos aspectos que acompanhamos na Coreia é a evolução tecnológica. A evolução tecnológica virada para a sala. Não estamos interessados em introduzir tecnologia por introduzir tecnologia. E esta permite pegar nos conteúdos e trabalhá-los melhor.”

Questionado pelos jornalistas sobre as graves carências reportadas por algumas escolas, o ministro admitiu que “há muitos problemas a ultrapassar”, em termos de equipamentos, mas isso não quer dizer que não se faça “melhor pelos alunos”.

Quando lhe perguntaram sobre o caso de quatro escolas de ensino especial, que se queixaram de ainda não terem recebido as verbas contratualizadas com o ministério, disse que achava que isso já estava em pagamento.

Quando lhe falaram de uma escola onde chove dentro da sala de aula, referiu que não tem conhecimento do caso – mas que certamente a direcção-geral competente vai tratar do assunto.

E, por fim, uma pergunta sobre a suspensão da polémica prova de avaliação de capacidades e conhecimentos dos docentes. Crato respondeu o que já se sabia: “Houve cinco tribunais que deram razão ao ministério. Houve, salvo erro, seis tribunais que se julgaram incompetentes para julgar a acção e houve duas sentenças que não deram razão ao ministério. Vamos recorrer, como é evidente.”