Milhares de fiéis encheram a nova catedral que a IURD ergeu em Gaia

Autocarros com devotos tomaram a rua onde agora se ergue um dos maiores templos da IURD na Europa. Há moradores com medo de perder o sossego e comerciantes ainda com esperança de fazer mais negócio.

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A IURD diz contar com mais de 30 mil fiéis em Portugal Fernando Veludo/NFactos
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A IURD diz contar com mais de 30 mil fiéis em Portugal Fernando Veludo/NFactos
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Cenáculo de Gaia é mais pequeno do que o do Porto, que foi inaugurado em 2010, e custou 12 milhões de euros Fernando Veludo/NFactos

Dezenas de autocarros lotados e vindos de todo o País e cafés abertos nas redondezas, a aguardar que os fiéis fossem também bons clientes. Neste domingo, a Rua do Agueiro, em Gaia, foi ontem pequena para receber a multidão que ali rumou para a inauguração do novo templo da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). O Cenáculo do Espírito Santo custou mais de 12 milhões de euros e é um dos maiores da Europa.

Segundo os elementos da PSP, que orientavam o trânsito no local, foram mais de 50 os autocarros que transportaram devotos de cidades como Braga, Penafiel, Paredes, Coimbra e Lisboa. A rua entupiu durante quase todo o dia, com os fiéis da IURD a saírem directo das camionetas para os cultos da manhã, tarde e noite.

A inauguração do templo gerou grande expectativa no comércio local, que prescindiu do descanso dominical para abrir neste dia. “O negócio esperado saiu furado. Eles saem das camionetas directos para o templo”, lamentava Manuel Gonçalves, dono da cafetaria Nevada. À semelhança daquele café, também os outros estavam quase vazios, ao contrário da rua cheia de gente.

Mais próximo do Cenáculo, contudo, o cenário era diferente. A cafetaria Divinus abriu precisamente ontem e contava com mais clientes. “Quisemos abrir hoje para coincidir com a inauguração. O meu irmão é da Igreja e já por lá recomendou o café. O nome foi escolhido para ter alguma relação com o templo”, disse Paulo Resende, um dos donos.

Este café, qe antes foi um restaurante chinês, tinha recebido cerca de 30 clientes até meio da tarde. “Está a correr bem o negócio. O meu irmão disse para abrirmos neste dia para o café ficar abençoado”, aponta Paulo Resende que, pela vitrina, observava a abundante corrente de fiéis a encher o cenáculo.

“A minha vida estava muito difícil quando aqui cheguei. Vim procurar ajuda”, diz Ana Ruas à entrada. Pouco depois, Lisete Silva sublinha que ali encontrou “a força para viver”. “Estava desempregada quando vim pela primeira vez à Igreja. Passei momentos muito difíceis e foi aqui que encontrei a estabilidade”, explica.

Lá dentro, no auditório principal, o culto da tarde começava à hora certa. Às 15h, um dos bispos brasileiros iniciava um melódico cântico religioso, enquanto os fiéis enchiam num ápice a sala que conta com isolamento sonoro e ecrãs panorâmicos.

Na vizinhança, porém, o templo não é bem visto por todos. “Com tantas excursões de fiéis, vamos deixar de ter sossego. Isto é uma zona habitacional. Não devia ter sido permitida a construção. Levaram-nos metade da rua e as obras sujaram-nos as casas”, queixa-se Marina Meireles. Manuel, o vizinho do lado, indigna-se também com a “falta de paz” e espera que “alguém faça o milagre" de acabar com a confusão.

A IURD diz contar com mais de 30 mil fiéis em Portugal, dez mil dos quais no distrito do Porto. “Nos últimos dois anos, mais pessoas recorreram à Igreja para pedir ajuda, alimentos e roupa. Temos um movimento que ajuda muitos jovens que estavam na droga, um projecto que ajuda mulheres vítimas de violência doméstica, trabalho de apoio a idosos e um lar de terceira idade na Azambuja”, explica o presidente da IURD em Portugal, João Filipe.

O novo templo que ontem recebeu milhares de devotos tem espaço para 1600 pessoas no auditório principal, 200 no pequeno auditório, cinco pisos de estacionamento subterrâneo, estúdios de televisão e de rádio e apartamentos de habitação.

“Este é um dos maiores da Europa. Tem 17 mil metros quadrados. O maior continua a ser o do Porto, com cerca de três mil lugares”, explica João Filipe que ainda não consegue adiantar qual será o destino do edifício do antigo cineteatro Vale Formoso, onde antes a IURD tinha a sede, no Porto.

O líder da IURD em Portugal garante que o custo total da obra em Gaia foi sustentado com recurso a um crédito bancário, cujas mensalidades são, entretanto, asseguradas por “donativos espontâneos” dos fiéis. “Doze milhões podem chocar em tempo de crise, mas isto tem um objectivo", diz o presidente da IURD referindo-se aos vários projectos de intervenção social da sua igreja. "E temos aqui a prova de que o dinheiro serviu para isto”, acrescenta João Filipe, a apontar para o templo imponente.

A IURD está em Portugal há 24 anos, não chegou há 24 dias nem há 24 meses, sublinha o responsável. Este é o terceiro templo que constrói de raiz. O do Porto, inaugurado em 2010, custou 18 milhões de euros. A IURD tem ainda um templo em Faro, no Algarve, e a sede nacional – num edifício próprio remodelado para aquele uso – em Chelas, Lisboa.