Opinião

A política do preconceito e as escolas superiores de Educação

O ministro Crato pertence a um grupo de pessoas que passou diversos anos a perorar contra o que chamaram “eduquês”, afirmando que os alunos aprendiam cada vez menos nas escolas e que, quer as políticas de educação, quer os programas de ensino, quer os métodos pedagógicos, quer as práticas dos professores estavam erradas e eram “facilitistas”.

Os expoentes deste pensamento até escreveram livros sobre o assunto. Curiosamente nunca apresentaram qualquer estudo ou dados que sustentassem o que diziam, ou seja, apesar de defenderem uma educação com “maior rigor” (o que quer que isso seja) não mostraram muito rigor na defesa da sua tese. Limitaram-se a explorar os sentimentos de incerteza da classe média face à democratização do acesso à escola e a fazer acusações indiscriminadas a políticos, professores, psicólogos, sociólogos, etc., assentes, somente, em meros preconceitos sem qualquer sustentação minimamente séria.

O simplismo da abordagem e a sua filiação conservadora e neoliberal não deixou de conquistar alguns políticos, de tal forma que o grupo conseguiu chegar onde queria: ter um ministro da Educação.

A partir daí foram só más notícias. Em vez da propalada destruição do Ministério da Educação, começou a constatar-se a destruição da educação ela-mesma, numa política de terra queimada, onde, à semelhança das conquistas medievais, se destroem as estruturas, se violam as pessoas e se queimam os livros. Foi rompido o acordo social sobre a escola pública em Portugal, que começou a construir-se com a reforma Veiga Simão e atravessou praticamente todos os governos constitucionais, sem grandes distinções, quer liderados pelo PSD, quer pelo PS. E o desprezo pelos professores, que aquela abordagem sempre conteve, lá acabou finalmente por vir à tona.

A divulgação recente dos resultados do PISA 2012 veio mostrar, com dados seguros, não só o primarismo daquela abordagem, como a sua falsidade. Afinal enquanto o “antieduquês” vociferava que os alunos estavam a aprender menos, eles aprendiam mais. De 2000 a 2012 os resultados dos alunos portugueses no PISA melhoraram em todas as matérias testadas! Face a tais dados veio o ministro, ou algum dos seus correligionários, explicar porque é que os dados mostravam o contrário do que os próprios haviam dito durante vários anos? Vieram dar uma explicação aos que neles haviam acreditado?

Não. Afinal venderam um produto avariado e esconderam-se quando isso começou a notar-se.

Quando se baseia uma política na crença e não no conhecimento, mais tarde ou mais cedo a realidade mostra os preconceitos subjacentes. Como se prova, uma vez mais, com a declaração do ministro Crato sobre as “dúvidas dos professores formados nas escolas superiores de Educação”. Esperar-se-ia que uma afirmação destas, que ataca gravemente a imagem e o estatuto público desses largos milhares de professores, as escolas que os formaram, os seus professores e os seus responsáveis, fosse fundamentada em dados que permitissem sustentá-la. Mas tal não aconteceu. Aparentemente o ministro da Educação ter-se-á pronunciado levianamente, assente somente nos seus preconceitos. Se assim foi, mostrou, mais uma vez, que as suas decisões são meramente voluntaristas e portanto não devem merecer a confiança dos cidadãos. Mas mostrou também uma enorme irresponsabilidade.

Um governante não pode fazer acusações de tal gravidade e consequência sem dados absolutamente seguros e objetivos, como se fosse um mero comentador. Porque arrisca-se a que os visados o considerem ignorante ou charlatão e percam qualquer respeito pela personagem e pelas suas afirmações e decisões.

Espera-se, assim, que o ministro Crato apresente rapidamente os estudos que sustentam a sua afirmação, pois, numa democracia, os governantes devem merecer respeito.

E, já agora, que extinga a Agência Nacional de Acreditação do Ensino Superior, porque os seus preconceitos serão critério suficiente para avaliar os cursos.

Professor do Ensino Superior e ex-secretário de Estado da Educação