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Megafone

Já não vejo comédias românticas

Canso-me do amor que acontece sempre à primeira vista, dos clichés, dos finais que são obrigatoriamente felizes num estalar de dedos. Já não vejo comédias românticas, daquelas que alimentam a ideia cor-de-rosa, que nos deixam cansados de tanto desejar que realmente fosse assim.

Dizem que ficamos frios com a idade e eu já vi que sim, mas também já vi que não. Tudo depende do que já rimos, do que já chorámos e de como nos deixamos moldar por cada pessoa com quem nos cruzamos. Já não vejo comédias românticas, a não ser que valham realmente a pena – principalmente se o enredo for “algo completamente diferente”. Percebo que as pessoas queiram algo irreal, um cenário perfeito, vislumbrando o que as suas vidas podiam ter sido. Porém, recuso-me a viver na ilusão quando posso ter a realidade que é a vida, com tantas emoções como num filme.

Não percebemos, tão embrenhados no nosso quotidiano aborrecido e veloz, mas a nossa vida também pode ser digna de filme. A minha. A tua. E umas dignas de Óscares. Mas canso-me do amor que acontece sempre à primeira vista, dos clichés, dos finais que são obrigatoriamente felizes num estalar de dedos. Já não vejo comédias românticas, daquelas que alimentam a ideia cor-de-rosa, que nos deixam cansados de tanto desejar que realmente fosse assim.

Culpo esta ideia de Hollywood por nos ter deixado assim, frios, — e acredito que ainda somos alguns — por fazer as pessoas acreditarem que se não encontrarem ninguém até aos 26 são uma anomalia da Natureza. Termos alguém é, de facto, um sentimento que nos preenche e dá vida, mas temos cada vez mais pressa, mais pressão para sermos perfeitos fisicamente. Não ter ninguém não faz mal, não temos de cozinhar a mais, não temos o desejo de mudar ninguém. Por vezes sinto as pessoas perdidas no vazio que toda esta evolução sufocante transporta. A velocidade da vida parece cada vez mais rápida, conhecemos tantas pessoas todos os dias que nos perdemos em quem somos realmente, preocupados com o que os outros pensarão de nós.

Decerto que os tempos que correm são diferentes dos de outrora, sem toda a pressão a girar sobre nós. E por isso penso que a minha geração — e posteriores — é desprendida, uma geração rebelde, das relações fugazes, em busca de visões sobre o nosso futuro profissional e afectivo, por vezes assustador. E se alguém sofrer por amor, eu considero um sortudo, porque a maioria dos nossos sentimentos estão adormecidos. Aliás, quem ainda sabe o que é essa coisa antiga de “sofrer por amor”?

Já não vejo comédias românticas porque quase me são indiferentes, porque me cansei da ilusão, pelo que foi, pelo que já não volta a ser, por tanta coisa. Mas prometo que irei estar atenta ao que estrear nos cinemas.