2014 vai ser o princípio do fim da loucura na Síria?

Os convites estão feitos e os dados estão lançados. O que o novo ano trouxer para os sírios vai começar a perceber-se ainda em Janeiro.

Foto
Há algo em que todos estão de acordo: não vai haver vitória militar Reuters

Ainda alguém se lembra dos miúdos de Deraa? Os que grafitaram a parede da escola, escreveram “abaixo Bashar”, foram presos e depois torturados pelo regime? Em Março, faz três anos que Bashar al-Assad respondeu assim a um dos primeiros sinais de que também os sírios tinham afinal coragem para sair à rua a pedir contas, contas pelas marcas de tortura dos miúdos de Deraa, pelos presos políticos, pela falta de liberdades, pela corrupção. Em Janeiro, regime e oposição deverão sentar-se pela primeira vez à mesa a tentar negociar um plano que ponha fim à mortandade.

Aconteceu tanto em tão pouco tempo que até se percebe que os miúdos de Deraa estejam esquecidos. A Síria como existia desapareceu. Há cidades milenares irreconhecíveis, cidades-fantasma, mais de 120 mil sírios morreram e um terço da população está sem tecto, dentro do país, nos países à volta, em barcos a tentar chegar à Europa. Aconteceu de tudo aos sírios e depois ainda mais um bocadinho e parece sempre que ainda há mais qualquer coisa que lhes pode acontecer.

Os ataques com gás sarin de Agosto levaram os Estados Unidos a ameaçar atacar Assad. Mas depois conversaram com a Rússia e até começaram uma aproximação ao Irão, com o seu novo Presidente, chegaram a acordo para destruir as armas químicas do regime sírio e para organizar, finalmente, a conferência de paz em Montreux — a segunda parte de Genebra, de onde em 2012 saiu um plano de paz nunca cumprido, quando Kofi Annan era o enviado da ONU e da Liga Árabe para a Síria, posto que é hoje de Lakhdar Brahimi.

Os convites estão feitos: 30 países, incluindo a Arábia Saudita, principal apoiante dos rebeldes, e o Irão, o maior aliado do regime. A ONU porta-se como se tudo estivesse a correr dentro do previsto; a Liga Árabe duvida que a data de arranque, 22 de Janeiro, possa ser mantida.

Vamos partir do princípio que sim, que a conferência começa, que o regime se apresenta disponível para negociar de boa-fé — pelo menos um plano a longo prazo que inclua algum tipo de transição política. Que a oposição vai conseguir pensar nos milhões de sírios que precisam de voltar a ter um presente e um futuro e não nos seus jogos de poder — falta ainda decidir quem vai, a lista com os nove nomes tem de ser entregue à ONU até dia 27 de Dezembro. Que os iranianos vão à Suíça e não apenas para garantir que a Síria é cada vez mais um seu protectorado.

O que é o melhor

Se tudo correr pelo melhor, o que é que é o melhor que pode acontecer? Um cessar-fogo que seja mesmo cumprido? Um plano de transição que junte opositores e membros do regime suficientemente fortes para serem aceites pela população alauita (os Assad são alauitas, um ramo do xiismo, e esta minoria teme ser chacinada por quaisquer futuros governantes, com grande probabilidade árabes sunitas, como a maioria da população)?

O que a oposição exige — que a conferência seja o início do fim de Assad — é difícil. Uma das teorias para explicar os ataques químicos diz que quem os ordenou queria forçar a queda de Assad — os russos já teriam escolhido o sucessor, alguém aceitável para a oposição, talvez o ministro dos Negócios Estrangeiros, Walid Mouallem, alguém que garanta que o regime não desaparece e que os interesses de Moscovo são salvaguardados. O veterano opositor Ammar Abdulhamid não acredita. Talvez Assad saia de cena ao longo do ano — há eleições previstas —, mas, para já, “ainda serve os interesses de russos e iranianos”.

Encurralados pelos jihadistas — uma coligação de grupos islamistas acaba de tomar bases militares dos rebeldes, o que levou os EUA e o Reino Unido a cancelar o envio de ajuda (comunicações, alimentos, medicamentos) para os combatentes — os opositores já só pedem a libertação dos presos políticos e corredores de ajuda para as zonas cercadas por Assad antes de começar a negociar.
O que o regime exige — começar a discutir sem condições prévias — deveria ser inaceitável. Afinal, há sírios a morrer. Alguns às mãos de jihadistas, muitos por causa do Governo. Discutir a paz sem garantir que isso pára de acontecer é bizarro.

Muito em jogo

Para Assad, Montreux vem mesmo a calhar. Não é só o país que ele trata como dele que está destroçado; os sírios, mesmo muitos dos que começaram a revolta pacífica, já lamentam ter começado a protestar pelos miúdos de Deraa. Não têm forças para mais. Só querem o fim da loucura que se instalou à porta das suas casas.

Há mais de 5000 combatentes estrangeiros na Síria. Dizem-se anti-Assad mas são, antes de tudo, criminosos, gente que quer o seu pedaço de Síria. Parte da Síria de hoje é isto. E os sírios não estavam preparados. Como também não estavam preparados para morrer e ver morrer debaixo de mísseis largados pelo seu Presidente em cima das suas casas.

Morre-se de tudo na Síria, todos os dias, e Assad permanece no poder, com os homens do Hezbollah libanês a seu lado, mais milícias xiitas iraquianas, combatentes e serviços secretos iranianos a ajudar, armas russas. A oposição, que nunca se preparou para a revolta, que nunca aprendeu a governar ou a comandar tropas, não podia estar mais dividida — os sauditas têm os seus homens, os turcos idem, os ocidentais reconhecem a Coligação Nacional Síria mas desconfiam de quase toda a gente.

O Norte da Síria é campo de batalha entre opositores ao regime e jihadistas estrangeiros; Damasco ainda é de Assad; em Alepo, a maior cidade da Síria, dividida entre bairros do regime e bairros do Exército Livre, há bebés a morrer de frio. Nas últimas semanas, os homens do ditador garantiram o controlo quase total da região de Qalamoun e com ele a continuidade territorial entre as províncias de Damasco e de Homs: Homs é o local por onde passará um dia o gasoduto que vai permitir que o gás dos árabes chegue à Europa a preços mais baratos do que o gás que os russos vendem aos europeus. “Tem de passar por Homs, pelo corredor que vai até à fronteira, o único local onde não há montanhas na costa”, diz Samir Nassar, arcebispo maronita de Damasco, que esteve em Lisboa no início do mês.

Está muito em jogo, o que resta da Síria, por exemplo. Uma solução parece impossível mas há algo em que todos estão de acordo: não vai haver vitória militar. Só por isso, é possível que a conferência negociada por russos e norte-americanos e que terá Brahimi como anfitrião sirva pelo menos para iniciar uma conversa. Mas se não servir para abrandar pelo menos um bocadinho a espiral de loucura, para salvar a vida de um sírio, então não servirá para nada e 2014 só pode ser ainda pior do que 2013.
 
 

Sugerir correcção