No debate sobre o futuro da Colina de Santana foram muitas as vozes contra o fecho anunciado dos hospitais

Os 20 intervenientes no debate desta terça-feira, vários dos quais deputados da Assembleia Municipal de Lisboa, manifestaram também preocupações com a salvaguarda do património arquitectónico e imaterial da colina

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Painel de Azulejos do Hospital dos Capuchos Nuno Ferreira Santos

Os membros da mesa pareciam decididos a falar do futuro da Colina de Santana, em Lisboa, e dos passos já dados para que se concretizem os projectos urbanísticos que tanta polémica têm gerado. Mas era do passado, e da decisão de desactivar os hospitais ali instalados, que a maioria dos participantes no debate que se realizou esta terça-feira na Assembleia Municipal de Lisboa queria falar.

O argumento de que o fecho desses equipamentos, e a sua concentração num novo hospital em Marvila, foi decidido já lá vai uma década foi usado pelo presidente da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo (ARS-LVT), Luís Cunha Ribeiro, e depois repescado pelo vereador do Urbanismo da Câmara de Lisboa, Manuel Salgado. A ouvi-los, na plateia, estavam vários médicos, enfermeiros e munícipes de outras áreas de actividade que nas suas intervenções fizeram questão de dizer que não aceitam a ideia de que esse é um facto consumado.

Luís Cunha Ribeiro revelou-se, na sua intervenção inicial, um defensor entusiasta da criação do novo Hospital de Lisboa Oriental, que segundo as mais recentes expectativas do Governo deverá ser uma realidade em 2017. “O objectivo é rapidamente termos esse equipamento, que é essencial para a cidade. Por todas as razões e mais algumas precisamos de um novo hospital”, afirmou, acrescentando que é sua “ambição” poder encerrar “rapidamente” os hospitais de São José, Capuchos e Santa Marta.

Já o vereador Manuel Salgado sublinhou a “grande resiliência” da Colina de Santana e dos antigos conventos (que sobreviveram ao terramoto de 1755), onde funcionam hoje aqueles equipamentos hospitalares.

“A Colina de Santana resistiu a tudo menos a Manuel Salgado”, reagiu Carlos Silva Santos, já durante o período de intervenções do público, no qual houve 20 inscritos. “Ainda estamos a tempo de parar. A saúde não tem de ser corrida do centro de Lisboa”, acrescentou o médico, que é também deputado do PCP na Assembleia Municipal de Lisboa.      

Antes dele já Elsa Soares, médica que trabalhou em São José e Santa Marta, defendeu que não há “razões médicas” para justificar o encerramento desses equipamentos. Esta interveniente no debate lembrou os “elevados investimentos feitos em instalações e equipamentos” num passado recente e afirmou que dadas as “enormes dificuldades financeiras do país” não se justifica criar “um mega-hospital de raiz numa zona periférica da cidade”.

Luís Cunha Ribeiro respondeu-lhe depois, explicando que o hospital projectado para Marvila é “de dimensão média” e sublinhando a falta de condições dos equipamentos da Colina de Santana. Este dirigente falou em “enfermarias com 16 camas, em salas com pé-direito de 8,5 metros, com canalizações velhas e telhados que metem água”, dizendo que como médico não considera “aceitável” que aí se internem doentes.

Por sua vez, a historiadora Adélia Caldas questionou que sentido faz, numa cidade cada vez mais envelhecida, “obrigar” os utentes do serviço nacional de saúde “a irem a caminho de Marvila, na periferia”. “Não vejo em nenhuma cidade da Europa esta ânsia de acabar com os hospitais antigos”, disse depois António Brotas.

O engenheiro arrancou risos e palmas da assistência quando defendeu que a forma de impedir que os edifícios se degradem quando os hospitais forem desactivados (uma preocupação que a arquitecta Inês Lobo, responsável pelo Estudo Urbano da Colina de Santana, confessou ter) era “mantê-los no seu funcionamento normal”.

Nas 20 intervenções do público, várias das quais de deputados da Assembleia Municipal de Lisboa, houve vozes preocupadas com o futuro do património da Colina de Santana. “Este projecto é um verdadeiro atentado ao património nacional. Só um apátrida é que pode estar de acordo com ele”, afirmou Fátima Ferreira de Matos. 

Já Simonetta Luz Afonso, ex-presidente da assembleia e hoje deputada municipal eleita pelo PS, sublinhou a importância de se preservar e de se encontrar na Colina de Santana um espaço para musealizar o “património imaterial e móvel” ligado à “longa história da saúde e da medicina”.  

Salgado fala numa “grande oportunidade para reabilitar o centro da cidade”
O vereador do Urbanismo da Câmara de Lisboa defende que aquilo que está em causa na Colina de Santana é “uma grande oportunidade para reabilitar o centro da cidade”.

Com a vantagem, frisou Manuel Salgado, de os terrenos em causa terem um só dono (a Estamo, a imobiliária de capitais exclusivamente públicos), o que “dispensa tratar com vários proprietários e torna mais fácil encontrar soluções de conjunto que interessem à cidade”.

O autarca explicou que nenhum dos projectos em cima da mesa prevê o surgimento de centros comerciais ou condomínios de luxo na Colina de Santana e garantiu ser seu desejo que as novas habitações que ali venham a surgir sejam “acessíveis”.

Quanto a críticas relativas à falta de cuidado com a salvaguarda do património, Manuel Salgado voltou a dizer que foi acordado que os “edifícios com grande valor patrimonial” seriam transferidos, “na totalidade ou em grande parte” para o município. O vereador deixou ainda a garantia de que os serviços municipais de planeamento e reabilitação urbana desenvolveram trabalho no sentido de se construir “uma estratégia para toda a colina” e não apenas para os terrenos da Estamo.