Num frio armazém no Prior Velho, não há mãos a medir para fabricar brinquedos

Não há Natal sem brinquedos, nem brinquedos sem Natal. Cerca de 40% das vendas são feitas nesta altura do ano. A fábrica da portuguesa Science4you, para quem a época festiva vale 60% do negócio, está a laborar a dois turnos. No comércio e nas indústrias que mais lucram com a época festiva, a maior campanha do ano está a ser preparada há um ano

Não há Natal sem brinquedos, nem brinquedos sem Natal. Cerca de 40% das vendas são feitas nesta altura do ano. A fábrica da portuguesa Science4you, para quem a época festiva vale 60% do negócio, está a laborar a dois turnos. No comércio e nas indústrias que mais lucram com a época festiva, a maior campanha do ano está a ser preparada há um ano

Por estes dias, o centro de distribuição e logística da empresa de brinquedos educativos Science4you, está a laborar a dois turnos e tem 40 trabalhadores, o dobro do habitual. Das nove da manhã às 18 horas. E das 22 horas às seis da manhã. No armazém atulhado de caixotes de cartão, que já invadiram dois pisos do edifício no Prior Velho, às portas de Lisboa, sente-se uma aragem fria. O espaço é exíguo para a quantidade de mercadoria, as mesas de trabalho são improvisadas: um extenso tampo de madeira em cima de embalagens de esferovite.

Inês Saraiva, coordenadora de produção, diz que em breve vão chegar cavaletes para substituir estas mesas, onde se alinham caixas de fruta reutilizadas. Cada uma tem um objecto diferente. Tubos de ensaio de plástico, copos medidores, luvas ou os óculos que, mais tarde, uma criança há-de colocar na cara para assumir o papel de cientista.

Com um saco de plástico na mão, uma jovem de casaco e cachecol enrolado ao pescoço pega em cada componente acomodado nas caixas de fruta e compõe o kit. Ao lado, numa mesa baixa, outros trabalhadores enchem tubos de ensaio com reagentes, pós brancos que parecem farinha, ou colocam as etiquetas nos frascos.

O Natal chegou cedo à Science4you. Entre Outubro e Novembro, a empresa fundada em 2008 por Miguel Pina Martins (hoje com 28 anos) lançou 50 brinquedos e o trabalho no armazém não tem faltado. O negócio está a correr bem. A facturação deverá crescer de 1,4 milhões de euros em 2012 para 3,1 milhões este ano.

Inês está a ajudar a preparar uma encomenda da Catalunha, personalizada, com um sem-número de componentes. Conta os sacos com a ajuda de Simão Rubim, o seu braço-direito e actor que pertenceu à Companhia Teatral do Chiado e integrou, durante 13 anos, o elenco de As Obras Completas de William Shakespeare em 97 minutos. Não há máquinas para facilitar o trabalho. É tudo feito e contado à mão. As únicas máquinas que se avistam é uma plastificadora e uma empilhadora, no primeiro andar, onde se embalam e prepararam os brinquedos para a distribuição.

Há truques para não perder o Norte. Por exemplo, um brinquedo pode levar dois ou três tubos de ensaio, sacos de plástico, pipetas de Pasteur, espátulas de madeira. Para não se enganarem na quantidade, nas caixas onde se colocam estes objectos (cada uma com um diferente), escreve-se o número de componentes necessários para o kit. Há brinquedos que têm mais de 20 conteúdos diferentes.

O processo de produção é simples. Primeiro preparam-se os materiais: o pequeno grupo de trabalhadores que está sentado à mesa em cadeiras de escritório e bancos enche tubos ou outro tipo de embalagem com materiais, como a goma de guar (usada na indústria alimentar como espessante, por exemplo). Não há um método pré-definido: cada um usa a técnica que mais lhe convém. Uma das funcionárias segurava dois tubos ao mesmo tempo, enchia-os com a ajuda de um copo medidor, depois batia os tubos na mesa para o pó assentar e colocava as tampas. Outro optava por colocar tubos alinhados na caixa onde o pó está guardado e enchia-os todos ao mesmo tempo.

“A parte mais demorada é a dos componentes. Para o [kit] da Fábrica Viscosa serão 40 minutos de pré-produção”, conta Inês, 23 anos, que ficou na empresa depois de um estágio de três meses, que se sucedeu à licenciatura em Gestão de Distribuição e Logística.

Segue-se a preparação da mesa de trabalho. Em cada caixa são colocados os objectos que vão ser precisos para completar o brinquedo. Um trabalhador coloca a quantidade definida num saco de plástico que, assim que está pronto, vai para um caixote de cartão. Daqui segue para o outro andar, onde é feito o embalamento. Outra equipa coloca nas embalagens finais os sacos e o manual que explica em detalhe como se pode brincar com a ciência. Nesta fase, os funcionários preenchem uma espécie de folha de controlo com a quantidade de caixas feitas, entre outros dados — que só mais tarde são compilados para um sistema informático.

O pacote é plastificado e armazenado. Está pronto para ser distribuído. Nesta altura do ano, “a mais confusa”, todos os dias chegam três camiões de transporte de mercadorias para abastecer o mercado nacional e internacional. A Sciente4you tem 27 quiosques próprios em centros comerciais em todo o país, quatro em Espanha, e tanto vende para grandes cadeias de distribuição como a FNAC ou o El Corte Inglés, como para o pequeno comércio.

O nascimento de um brinquedo

A concepção do brinquedo começa nos escritórios que a empresa ainda ocupa na Faculdade de Ciências de Lisboa, no Tec Labs-Centro de Inovação, uma incubadora de base científica e tecnológica. Depois de um corredor coberto com recortes de artigos sobre a empresa publicados na imprensa nacional e internacional, entra-se directamente numa sala cheia de pessoas e computadores.

Daniela Silva tirou o curso de Engenharia Química e, juntamente com Ana Garcia (bióloga de formação), gere a par e passo o nascimento de um novo brinquedo. São já quase 200 no mercado que exploram, não só na área de química, como também biologia, geografia, física, electrónica ou astronomia. Cada kit dá para fazer, no mínimo, dez experiências diferentes.

“Não há um processo concreto para chegarmos até à ideia de um novo brinquedo. Imensas pessoas dão sugestões e não são só as da equipa de Investigação e Desenvolvimento (I&D). Alguém que tenha um filho ou um sobrinho chega com uma proposta. Também olhamos para o mercado internacional e trazemos muitas sugestões”, conta Daniela, coordenadora do processo de I&D. O mais recente brinquedo, a Fábrica Viscosa, surgiu das actividades que a Science4you desenvolve nas festas de aniversário, campos de férias científicos ou workshops de ciência nas escolas. Nestes eventos, as crianças fazem os seus próprios pega-monstros, “a experiência mais adorada”. Foi uma questão de adaptar os materiais.

“Temos de ter outros reagentes, adaptados ao uso das crianças, o material não pode ser de vidro nem ter arestas”, exemplifica. Pesquisam-se alternativas, que são testadas constantemente e adaptadas ao brinquedo. O kit passa sempre pelas mãos de uma criança para ser experimentado e, nesta fase, o manual de instruções (peça fundamental) também já está elaborado. Quem faz os testes são normalmente crianças que já participaram em actividades da Science4you ou filhos de familiares e amigos dos trabalhadores da empresa.

Quando testam os brinquedos, as crianças reagem “de forma bastante entusiástica”, diz Daniela Silva. “Não fazem frequentemente perguntas no decorrer da experimentação pois tudo se passa de forma espontânea, como se estivessem a brincar e não a experimentar um brinquedo”, detalha. A equipa de I&D observa as reacções, comentários e dificuldades, anotando tudo com pormenor. “Alguns kits são recusados na fase de desenvolvimento. Existem inúmeras etapas que o brinquedo tem de ultrapassar para ser viável, como a qualidade dos materiais, o preço de produção, a adaptação ao target pretendido, a receptividade no decorrer dos testes com as crianças, assim como a certificação comunitária de acordo com a legislação aplicável a brinquedos”, conta.

“Quando fazem as experiências, as crianças já vão com algum conhecimento de base. Temos uma equipa de biólogos, químicos, professores que escrevem e que complementam o conhecimento, além de especialistas na área da educação. Damos muita atenção à linguagem, tem de ser simples. E o manual tem de ser atractivo, para que a criança queira ler”, detalha.

Fazer o manual demora, em média, entre duas e quatro semanas. O design e a paginação, uma semana. No caso da Fábrica Viscosa, desde que nasceu a ideia até estar pronto a produzir, passaram dois meses.

“A partir do momento em que as componentes estão definidas e escritas, avançamos em simultâneo para as encomendas dos materiais aos fornecedores e a concepção do design. A primeira produção é acompanhada na fábrica e, em média, produzem-se cerca de três mil unidades. Nunca menos de duas mil”, adianta Daniela Silva.

Miguel Pina Martins está a viver a altura mais atarefada do ano. Mas 2013 correu bem para a Science4you. Os portugueses compraram muitos brinquedos da marca que criou há cinco anos e que, no primeiro ano de vida, facturou 50 mil euros. Este ano, os mercados internacionais deverão pesar entre 30 e 40% nas vendas (com o grande contributo de Espanha), mas a intenção é ultrapassar os 50% em 2014. “Estamos em 14 países e temos escritório no Reino Unido e em Espanha”, conta o presidente executivo, que tem planos para entrar na Alemanha.

O aumento da facturação este ano, para mais de três milhões de euros, explica-se pela cada vez maior variedade de brinquedos. A Science4you vai além dos kits científicos, tem relógios, jogos de cartas, vende bonecos em forma de animais e, mais recentemente, lançou o Tab4you, o seu primeiro equipamento electrónico a pensar nos mais novos. Além disso, as vendas em Portugal continuam a crescer (em volume). “Em redes como as da FNAC crescem 100%. A maior parte das pessoas já conhece”, revela Miguel Pina Martins.

O Natal é rei

Mas, neste mundo encantado de brinquedos, o rei é mesmo o Natal. É nesta altura do ano que a Science4you vende 60% dos seus produtos. “É tudo. É a altura em que se passa tudo. Vendemos tudo em duas semanas”, conta.

Dezembro é “o mês”. A campanha de Natal é preparada com um ano de antecedência em lojas como a Toys‘R’Us, para quem esta época representa 56% do negócio, diz fonte desta empresa. Também nos hipermercados Continente, do grupo Sonae (dono do PÚBLICO), o período de Natal vale 60% do total das vendas de brinquedos. As lojas Modelo Continente já têm produtos associados a este acontecimento desde 28 de Outubro; nos hipermercados, a campanha arrancou a 4 de Novembro. Os brinquedos são essenciais para atrair consumidores. “A venda de brinquedos tem uma importância relevante como gerador de tráfego nas lojas Continente”, confirma fonte oficial da empresa, acrescentando que, até agora, as prendas na categoria de bonecas, construções e carros estão no top 3 das vendas.

Ana Isabel Trigo de Morais, directora-geral da Associação Portuguesa das Empresas da Grande Distribuição, espera alguma recuperação de vendas, nomeadamente de brinquedos, mercado onde 40% do negócio é feito no último trimestre do ano. “Desde 2010, 2011 e 2012, a categoria tem vindo a perder vendas e nestes três anos o mercado caiu em valor 10,6%”, avança. Este ano, esperam-se mais prendas no sapatinho, com a ajuda das promoções.

“A fortíssima actividade promocional continua a existir como motor fundamental para gerar vendas e ajustar as propostas de valor ao consumidor. E não temos sinais de que haja qualquer alteração de poder de compra das famílias”, garante.

Com cortes no rendimento e muitas incertezas quanto ao futuro, os portugueses esperam gastar, este ano, ainda menos dinheiro em presentes de Natal do que em 2012. O estudo anual, que a consultora Deloitte publica sobre o tema, revela mesmo que Portugal está entre os três países da Europa Ocidental com o menor orçamento: 393 euros, menos 2,3% face ao valor real do ano passado. Em 2007, o montante indicado pelos inquiridos foi de 596 euros.

A maior fatia será gasta com as prendas. Segue-se a comida e os jantares e eventos sociais. Na lista de compra, estão livros e roupa. Os chocolates são o terceiro presente mais oferecido: 33% dos portugueses vão dar doces à família e amigos.

A Imperial, o maior produtor português de chocolates, dona de marcas como a Jubileu, Regina ou Pintarolas, preparou-se para satisfazer o apetite dos consumidores e lançou 30 novos produtos, explica Manuela Tavares de Sousa, presidente executiva da empresa, detida pelo grupo RAR. O “ciclo de desenvolvimento de um novo produto tem a duração média entre seis a 12 meses. Actualmente, a Imperial já identificou o conjunto de novos produtos que vai lançar no mercado na próxima campanha de Páscoa e está a iniciar o processo de desenvolvimento para o Natal de 2014”, adianta.

Para criar novos sabores e texturas, a empresa envolve não só equipas internas, como também “capta conhecimento” de uma rede de parceiros que inclui universidades e centros tecnológicos, clientes ou fornecedores. Na hora de comprar, os consumidores procuram cada vez mais chocolates com benefícios funcionais, com alto teor em cacau ou baixo teor de açúcar, ou produtos exóticos. Os produtos clássicos também são tendência, adianta.

Com o Natal, a Imperial consegue 35% das vendas, graças ao “forte pico de consumo de chocolate”. As Fantasias de Natal da Regina (com destaque para o famoso Pai Natal embrulhado em papel-prata) continuam a ser campeões de venda, mas os bombons são os produtos com mais expressão no carrinho de compras. Manuela Tavares de Sousa acredita que os 30 novos produtos podem vir a representar cerca de 20 a 25% do volume de negócios total da Imperial.

A distribuição dos chocolates nas lojas começou logo no início de Outubro e a verdade é que o Natal parece começar cada vez mais cedo. As árvores e luzes enfeitam as montras há mais de um mês e no comércio tradicional há alguma esperança de recuperação. “Não devemos entrar logo como derrotados. O Natal permite superar algumas dificuldades sentidas ao longo do ano e as nossas expectativas nem são baixas nem são elevadas. Estão equilibradas”, diz Carla Salsinha, presidente da direcção da União das Associações de Comércio de Serviços (UACS).

Na Livraria Barata, na Avenida de Roma, em Lisboa, Sandra Cruz diz que ainda “não cheira a Natal”. Uma boa campanha dará para “respirar um pouco”, mas a prudência impera. Com a venda de livros em queda, os brinquedos estão a ajudar a dinamizar o negócio. “As pessoas procuram jogos didácticos e marcas como a Science4you ou a Edicare estão a ter muita procura”, conta a funcionária, que, no dia em que a Revista 2 visitou a loja, aguardava com expectativa o primeiro fim-de-semana de Dezembro. “Os dois grandes momentos de vendas são o regresso às aulas e o Natal. Um bom Natal e uma boa época escolar dão para respirar um pouco. Mas já não é a mesma coisa”, lamenta.

Os jogos educativos da Science4you estão alinhados numa escadaria. Vêem-se os puzzles a três dimensões de animais, o telescópio e o microscópio, a caixa da ciência dos perfumes ou a da fábrica de sabonetes, desenvolvida em parceria com a Ach Brito, marca nacional de sabões. João Jesus, 25 anos, acabou de combinar mais um reforço de mercadoria na Livraria Barata, o maior cliente da empresa entre as lojas de pequena dimensão. Os brinquedos estão a ter saída no comércio tradicional. “Não notámos quebra. Trabalhamos com pequenas livrarias, papelarias e até lojas de roupa. Já batemos recordes de vendas este ano”, adianta o comercial da Science4you.

O dia está prestes a terminar e João, um sociólogo que descobriu nova vocação no mundo das vendas, ainda vai visitar mais um lojista.

Os pedidos de novos brinquedos chegam a ritmo acelerado. Na época natalícia, o produto final é transportado até ao cliente todos os dias a partir das 16 horas. Chega às lojas na manhã seguinte (no caso dos quiosques da Science4you nos centros comerciais) ou aos centros de distribuição dos grandes clientes que, depois, definem o prazo de entrega a cada um dos seus estabelecimentos. No frio armazém em Prior Velho, não há mãos a medir para produzir, um a um, tanto brinquedo.