Fóssil de Moçambique é um tio-avô de todos os mamíferos

Do tempo em que a Terra tinha um só supercontinente, fóssil descoberto perro do lago Niassa é novo para a ciência. Equipa liderada por paleontólogos de Portugal e Moçambique fez a sua descrição científica.

O fóssil encontrado perto do lago Niassa
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O pequeno fóssil encarcerado na rocha onde foi encontrado Rui Castanhinha <i>et al.</i>
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O fóssil "limpo" digitalmente da rocha, através de um software Rui Castanhinha <i>et al.</i>

Foi descoberto numa expedição de dois paleontólogos portugueses em 2009: Rui Castanhinha e Ricardo Araújo, do Museu da Lourinhã, partiram para Moçambique com o fito de descobrir o primeiro dinossauro daquele país. E, afinal, o que lhes apareceu pela frente foi um fóssil ainda mais antigo e raro do que os de dinossauros, que é agora descrito cientificamente na revista Plos One e apresentado publicamente esta quinta-feira de manhã na Lourinhã, no Centro Cultural Dr. Afonso Rodrigues Pereira. O animal – que viveu no período Pérmico, quando ainda faltavam cerca de 30 milhões de anos para surgirem os primeiros dinossauros e mamíferos, já no período Triásico – é de um género e espécie novos para a ciência. Nessa altura, recorde-se, os continentes estavam todos juntos num só, a Pangeia.

Com a ideia do dinossauro na cabeça, os dois paleontólogos portugueses dirigiram-se para o único local em Moçambique conhecido por ter fósseis vertebrados com mais de 65 milhões de anos, altura em que aqueles animais se extinguiram: o Graben de Metangula, bacia formada pela actividade tectónica e que toma o nome de uma vila da província do Niassa.

No início, os resultados da expedição não foram animadores. Enquanto Rui Castanhinha teve de voltar a Portugal, Ricardo Araújo prosseguiu sozinho a última semana da viagem, com um motorista e um guia local. “Praticamente no último dia, depois de quase toda a região batida a pé, encontro finalmente no chão uma série de concreções [nódulos] calcárias, daquelas em que se sabia que há fósseis”, lembrou ao PÚBLICO Ricardo Araújo em 2010, quando a descoberta foi noticiada. “Lá estava ele.”

Uma interpretação da paisagem e do animal feita pelo ilustrador científico Fernando Correia, da Universidade de Aveiro, pode ver-se nesta página. Encontrado a uns quantos quilómetros do lago Niassa, perto de um curso de água seco, excepto na estação das chuvas, o fóssil estava enrolado sobre si próprio e encarcerado na rocha esférica. O nome científico escolhido para ele é Niassodon mfumukasi, que na língua chiyao, falada na região pelo grupo étnico yao, significa “Rainha do Lago Niassa”. “[O nome] constitui uma homenagem à sociedade matriarcal yao, à mulher moçambicana e à beleza do lago Niassa”, justifica, num comunicado de imprensa, a equipa internacional liderada por Rui Castanhinha, Ricardo Araújo e pelo moçambicano Luís Costa Júnior, director do Museu Nacional de Geologia, em Maputo, e outro dos autores do artigo científico.

Que importância tem então a Rainha do Lago Niassa? Não era um réptil nem um mamífero. Era um sinapsídeo, animais vertebrados terrestres, onde também se incluem todos os mamíferos actuais. O seu fóssil é um “raro exemplo” de um sinapsídeo primitivo, frisa o comunicado.

Dentro dos sinapsídeos, encontrava-se o grupo dos dicinodontes (como sugere o nome, a maior parte tinha dois dentes caniformes, ou presas, que saíam da boca) e o grupo dos cinodontes, e é esta última linhagem que, há cerca de 220 a 230 milhões de anos, daria origem aos mamíferos – estes é que são os nossos avós.

Ora foi no grupo dos dicinodontes que a equipa incluiu o Niassodon mfumukasi, por sinal desprovido das duas carismáticas presas, mas com dentes muito pequenos na parte de trás da boca, que usava para triturar plantas. “Os animais mais próximos desse animal que estão hoje vivos são os mamíferos. Está mais próximo dos mamíferos do que dos répteis, dos anfíbios, dos peixes. Pode dizer-se que é um antepassado dos mamíferos”, explica Rui Castanhinha.

“No final do Pérmico, os dicinodontes eram o grupo de vertebrados terrestres mais diversos: tinham mais espécies, mais géneros, tamanhos diversos, viviam em ambientes diferentes. Dominavam a Terra”, frisa Rui Castanhinha. “Eram um sucesso evolutivo e sobreviveram à maior extinção [em massa], na transição do Pérmico para o Triásico, há cerca de 250 milhões de anos. Mas poucos milhões de anos depois, extinguiram-se, por razões que não sabemos bem. O que é uma lição de vida para nós: dominamos o planeta e não sabemos o que causa estas extinções.”

Exposto temporariamente na Lourinhã
Quanto à Rainha do Lago Niassa, desconhecemos quando é que esta espécie desapareceu. “Como só temos um espécime, só sabemos que viveu naquela altura. Precisamos de encontrar outros”, diz o paleontólogo. Também se desconhece se punha ovos, como outros dicinodontes. “É um grande mistério. Não temos nenhum ovo fossilizado.”

O que se sabe é que viveu numa zona abundante em água, perto de rios ou lagos, e que andava com o corpo levantado do chão. E que, desde a sua descoberta, o fóssil andou de um lado para o outro. Veio para Portugal, seguiu para os Estados Unidos, onde Ricardo Araújo conclui o doutoramento na Universidade Metodista do Sul, em Dallas, e aí começou a ser limpo. Esse trabalho foi acabado em Portugal, no Museu da Lourinhã e no Instituto Gulbenkian de Ciência, em Oeiras, onde Rui Castanhinha também está a fazer o doutoramento. Pelo meio, viajou até Hamburgo, onde foi examinado com uma técnica de tomografia computadorizada com raios X intensos, para se obterem imagens tridimensionais dos ossos e se compreender a anatomia dos sinapsídeos primitivos.

Por fim, nessas imagens, os cientistas “limparam” a rocha e separaram digitalmente os ossos, o que lhes permite visualizar qualquer osso, de qualquer ângulo, em qualquer ampliação. Atribuíram ainda um volume ao interior de cada osso e, assim, obtiveram o cérebro em 3D de um animal com 256 milhões de anos, o que permite vários tipos de estudos.

Antes do seu regresso a Moçambique, no próximo ano, este familiar dos mamíferos pode visitar-se no Museu da Lourinhã.