Hezbollah responsabiliza Israel pela morte de um dos seus comandantes

Hassan al-Lakiss, veterano do movimento xiita e responsável por operações secretas do movimento xiita, foi morto a tiro em Beirute.

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O líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, já foi alvo de várias tentativas de assassínio Sharif Harim/Reuters

A morte foi anunciada pelo próprio Hezbollah, num comunicado em que identifica Lakiss como “um dos seus líderes” e aponta o dedo a Israel, alegando que o inimigo jurado do movimento tinha já tentado eliminar o comandante “por várias vezes e em vários locais”. “O inimigo deve assumir inteira responsabilidade pelas consequências deste crime ignóbil”, avisa.

Israel limitou-se a negar, através de um porta-voz dos Ministério dos Negócios Estrangeiros, a responsabilidade pelo sucedido. “O Hezbollah já fez figura triste no passado com estas acusações automáticas e infundadas. Devia procurar explicações para o que aconteceu nas suas próprias acções”, afirmou. Israel, que tem uma política de ambiguidade em relação a operações secretas, foi responsabilizado por todos os ataques contra as chefias do “Partido de Deus”, incluindo o que em 2008 matou o então chefe militar do movimento, Imad Mughniyeh.

Lakiss foi baleado ainda dentro do carro na garagem do seu prédio, no distrito de Hadath, um bairro xiita no sul da capital libanesa, e foi declarado morto já no hospital. Vizinhos contaram à BBC ter visto dois homens a fugir do prédio, mas a televisão libanesa LBC fala em três atacantes, que conseguiram infiltrar-se no local.

A cúpula do Hezbollah vive permanentemente sob apertadas medidas de segurança, por receio de que os serviços secretos israelitas aproveitem qualquer ocasião para decapitar aquele que é o seu inimigo mais eficaz. Alvo de várias tentativas de assassínio, o líder do movimento, Hassan Nasrallah, muda constantemente de casa e quase não faz aparições públicas.

Um estratega do movimento
A imprensa libanesa descreve Lakiss como uma veterano do Hezbollah – estaria no movimento desde a fundação, na década de 1980 –, tido como muito próximo de Nasrallah. “Era o responsável pelo fabrico de armamento sofisticado, explosivos e armadilhas”, disse à BBC o especialista em questões de segurança do jornal Yediot Ahronot, revelando que Lakiss terá sido formado  pelo Irão em técnicas de guerrilha e contraterrorismo.

Fontes ouvidas pela Reuters dizem que esteve envolvido em vários combates na Síria – a guerrilha xiita tem sido um aliado de peso do Exército sírio – e o Ha’aretz adianta que era também um dos coordenadores das operações secretas e dos planos operacionais do movimento, mantendo fortes ligações aos serviços secretos sírios e iranianos. “Este é um dos maiores golpes para a organização libanesa desde a morte de Mughniyeh”, escreveu Amos Harel, especialista de segurança do jornal israelita.

Dois grupos sunitas, até agora desconhecidos, reivindicaram a autoria do assassínio, um dos quais disse tratar-se de uma retaliação pelo “massacre de Qusair”, cidade síria na fronteira com o Líbano que as forças de Assad reconquistaram no Verão passado, com a ajuda do Hezbollah. O ataque surge também na sequência de vários ataques contra bastiões do movimento xiita, no Sul de Beirute, incluindo o duplo atentado suicida que, no mês passado, matou 25 pessoas junto à embaixada iraniana.

Charles Lister, analista do grupo de informações de segurança HIS Jane’s, disse à Reuters que o assassínio de Lakiss indica que houve “um nível elevado de profissionalismo e [a existência] de informações prévias”, mas apesar das suspeitas habituais do Hezbollah não é garantido que se trate de uma operação israelita. “O que é claro é que surge no contexto do envolvimento do Hezbollah na Síria”, uma participação que desagrada quer a Israel (que teme que o movimento xiita aproveite o conflito para transferir para o Líbano algum do sofisticado armamento sírio) quer às monarquias árabes.

Nasrallah aponta o dedo à Arábia Saudita
É também neste contexto que surge a acusação de Nasrallah à Arábia Saudita. Em entrevista a um canal libanês, terça-feira à noite, o líder do Hezbollah acusa o Governo saudita de ter sido responsável pelo ataque contra a embaixada iraniana – uma acção que, garante, “está ligada à raiva da Arábia Saudita contra o Irão por causa do seu fracasso na Síria”.

Nasrallah diz que o movimento que reivindicou o ataque – as brigadas Abdullah Azzam – “não é um nome fictício”. “Este grupo existe, tem liderança e estou convencido que está ligado aos serviços secretos sauditas”, afirmou.

Além de principal patrocinador do Hezbollah, Teerão é o grande aliado regional do regime do Presidente Bashar al-Assad, membro da minoria alauita, um ramo do xiismo. A Arábia Saudita é, juntamente com outras monarquias do golfo e a Turquia, apoiante dos rebeldes sírios, maioritariamente sunitas. As ingerências de um e outro lado – o Hezbollah não esconde sequer que tem já homens a combater ao lado do Exército sírio – ajudaram a transformar a guerra na Síria num conflito cada vez mais sectário e, ao mesmo tempo, no tabuleiro onde se jogam os interesses estratégicos das grandes potências regionais.