Crítica

O Som ao Redor

Ao longo do último ano e meio, O Som ao Redor, primeira ficção de longa-metragem do brasileiro Kleber Mendonça Filho após um documentário (Crítico) e várias curtas, tornou-se no “ponta-de-lança” internacional de uma nova geração de cineastas do “país irmão” trabalhando naquilo a que se chamaria, por conveniência, de “cinema de autor”.


E o porquê de Mendonça Filho ter garantido essa “pole position” é bastante evidente face à inteligência deste filme-mosaico, construído como uma “estafeta” ao longo de alguns meses entre uma série de personagens que têm em comum habitar uma mesma rua residencial de classe média do Recife, ligadas pela chegada de três seguranças privados que vêm “proteger” a rua. O tema de O Som ao Redor é - como o de quase todo o cinema brasileiro, de ontem ou de hoje, comercial ou de autor - a desigualdade social de um quotidiano onde o estatuto social ainda determina grandemente a vida das pessoas. O que o diferencia é o modo cuidadamente cinematográfico como o faz, com um sentido particularmente inteligente da construção formal, narrativa e técnica (a utilização do écrã panorâmico e o trabalho de som são extraordinários e exigem a visão em grande écrã).

É preciso chegar ao fim para perceber que a aparente dispersão de Mendonça Filho por lugares e personagens, sedutora mas ocasionalmente misteriosa, é completamente deliberada, e para perceber também que esse fervilhar de histórias e ironias (desde o cão que não pára de ladrar à relação entre empregadas e patrões, vizinhos e irmãos) nem sempre é gerido em favor do filme. Mas mesmo os momentos mais aparentemente supérfluos têm um papel que não é de deitar fora no painel acabado. E embora O Som ao Redor não seja uma obra-prima, é uma das melhores surpresas que tivemos oportunidade de descobrir nos últimos anos.