"É uma condenação muito forte, exemplar"

A ex-provedora da Casa Pia de Lisboa defende que a condenação do vice-reitor do Seminário do Fundão significa que "as coisas vão mudando, ainda que muito lentamente"

A investigação partiu de denúncias de Catalina Pestana
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A investigação partiu de denúncias de Catalina Pestana

Será que a Igreja Católica vai passar a ter uma atitude diferente após esta dura condenação, por abuso sexual de menores, de um padre em Portugal? O psiquiatra Álvaro Carvalho, presidente da Rede de Cuidadores, organização que surgiu na sequência do escândalo da Casa Pia de Lisboa, espera que esta sentença tenha impacto e que a actual direcção da Igreja Católica em Portugal “dê um sinal e tome uma atitude consentânea com esta realidade”.

“É uma realidade que infelizmente esteve escondida durante muitos anos”, lamenta o psiquiatra, que lembra que a Rede de Cuidadores “sempre denunciou a hipocrisia da Igreja”, que "assumiu uma atitude de caridade e misericórdia” em relação a sacerdotes acusados de pedofilia, sem fazer o mesmo “relativamente às vítimas”. Por coincidência, justamente esta segunda-feira o Papa Francisco declarou sentir "compaixão" pelas vítimas de abusos sexuais por parte de membros do clero.

Foi exactamente há um ano, quando o vice-reitor do Seminário Menor do Fundão foi detido e começou a ser investigado, que a Rede de Cuidadores alertou para outros casos de alegado abuso sexual de menores na diocese de Lisboa, denúncias que foram depois arquivadas pelo Departamento de Investigação e Acção Penal (DIAP), porque tinham anos e “estavam prescritas”, sublinha Álvaro Carvalho.

A autora das denúncias, a antiga provedora da Casa Pia de Lisboa, Catalina Pestana, que também faz parte da Rede de Cuidadores, disse então que tinha avisado a hierarquia da Igreja Católica para a existência de padres pedófilos, o que foi rejeitado pelo porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), que a desafiou a apresentar provas. Esta segunda-feira, Catalina Pestana reagiu à sentença do Tribunal do Fundão com “tristeza profunda”, mas também com alguma “esperança”. “É um processo que não me dá alegria nenhuma, mas que nos dá a todos esperança de que as coisas vão mudando, ainda que muito lentamente”. É “uma condenação forte, muito forte, na tentativa de ser exemplar”, conclui.

Algo está a mudar em Portugal, mas não na hierarquia da Igreja Católica, onde “vale mais manter o bom nome da instituição”, acusa Catalina Pestana. É importante perguntar agora “aos senhores bispos o que vão fazer face a este e a outros casos”, insiste a ex-provedora.

A tarefa não se afigura fácil. O PÚBLICO tentou obter um comentário do porta-voz da CEP, sem sucesso. Ao início da noite, só a Diocese da Guarda tinha reagido à sentença com um curto comunicado. Explicava que vai aguardar o resultado do recurso que a defesa do vice-reitor do Seminário do Fundão decidiu apresentar e que o sacerdote continuará em prisão domiciliária. “Entretanto, continuamos esperançados em que a verdade seja devidamente esclarecida e que a sentença final tenha na devida conta a objectividade das provas efectivamente apresentadas pela defesa”, acrescentava.

Sem querer discutir a sentença judicial, frei Bento Domingues nota que estas coisas acontecem e que um padre deve ser julgado como qualquer outra pessoa: “Se fez mal tem de ser castigado.” Mas, sustenta, esta decisão “é muitíssimo grave do ponto de vista interno da Igreja”. Para frei Bento Domingues, que há anos escreve uma crónica no PÚBLICO, parece estar-se aqui perante “um descuido” e uma “incúria” dos responsáveis que orientavam o vice-reitor do seminário do Fundão, por “não terem dado por nada”. O padre questiona ainda a “precipitação de quem se apressou a dizer que em Portugal não havia” casos deste tipo: “Acho que foi uma imprudência enorme”. “O isolamento de crianças e adolescentes parecem-me extremamente graves e portanto é necessário encontrar alternativas” aos internatos, remata.

“É um caso triste que todos lamentamos, sobretudo no que se refere a pessoas com mais responsabilidades, mas, conforme venho dizendo há muitos anos, as vítimas têm que ser defendidas. Para isso existe a Justiça. Num Estado de direito não há ninguém acima da lei”, diz o ex-bispo das Forças Armadas, D.Januário Torgal Ferreira, que não se mostra surpreendido com a condenação do vice-reitor. “Não é com mentiras ou truques que devemos reger a sociedade portuguesa”, diz D.Januário, enquanto lembra, porém, que “perversidades dessa ordem acontecem prioritariamente em ambientes de família”.