A luta contra a “nova tirania” económica no programa de governo do Papa

Descentralização da hierarquia da Igreja Católica e abertura aos laicos fazem parte da exortação apostólica de Francisco Evangelii Gaudium

As mulheres e os jovens devem ter espaço para tomar decisões na Igreja, defende o Papa
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As mulheres e os jovens devem ter espaço para tomar decisões na Igreja, defende o Papa Tony Gentile/REUTERS

O Papa Francisco atacou o capitalismo sem limites como “uma nova tirania” e advertiu que a desigualdade e a exclusão social "geram violência" no mundo e podem provocar "uma explosão", na sua primeira exortação apostólica, divulgada esta terça-feira, na qual traça o caminho para reformar a Igreja Católica, de forma a torná-la mais misericordiosa nestes tempos em que se ampliam as desigualdades e a secularização e a indiferença ganham terreno.

Este documento é como que o programa oficial do seu papado. Contém as posições que ele tem vindo a expressar nos seus sermões, discursos e entrevistas desde Março, quando o cardeal argentino Jorge Bergoglio se tornou o primeiro sumo pontífice não-europeu dos últimos 1300 anos. Nele fala também da urgência da “conversão do papado”, para além da reforma da Igreja que dirige.

Por isso, nesta exortação, de título Evangelii Gaudium (A Alegria do Evangelho), o Papa diz estar “aberto a sugestões” para reformar o papado. “Como bispo de Roma, cabe-me estar aberto às sugestões para que o exercício do meu ministério se torne mais fiel ao sentido que Jesus Cristo quis dar-lhe e às necessidades actuais da evangelização”, escreveu.

Bem ao seu jeito, Francisco traça o rumo que prefere ver a sua Igreja seguir: não um caminho de ostentação e de preocupação com o que sempre foi, mas antes uma igreja missionária e que vá ter com quem dela necessite: “Prefiro uma Igreja ferida e suja por andar na rua a uma Igreja interessada em ser o centro e que acabe enclausurada num emaranhado de obsessões e rituais”.

A luta contra a pobreza e o actual sistema económico é uma prioridade absoluta para o Papa Francisco, que atravessa todo o seu plano de acção. “Esta economia mata”. Faz prevalecer “a lei do mais forte, o mais poderoso come o mais fraco.” Esta cultura “do desperdício” criou “algo de novo: os excluídos não são explorados, são desperdícios, lixo”, critica o sumo pontífice. “É a nova tirania invisível”, de “mercado divinizado, onde reinam a “especulação financeira”, a corrupção ramificada” e a “evasão fiscal egoísta”.

Bergoglio quer que a sua igreja mude, mas reza também por políticos capazes de mudar esta situação. “Peço a Deus que aumente o número de políticos capazes de entrarem num autêntico diálogo orientado para sanar eficazmente as raízes profundas e não a aparência dos males do nosso mundo”. Os planos assistenciais, que se tornaram moda para disfarçar a miséria, apenas “fazem frente a algumas urgências, mas devem apenas considerar-se como respostas provisórias.”

Apelou aos políticos para que garantam a todos os cidadãos “trabalho digno, educação e cuidados de saúde”, e aos ricos para que partilhem a sua fortuna: “Tal como o mandamento ‘Não matarás’ impõe um limite claro para defender o valor da vida humana, hoje também temos de dizer ‘Tu não’ a uma economia de exclusão e desigualdade. Esta economia mata”, afirma Francisco na exortação apostólica.

Descentralização
Para a Igreja Católica, o caminho que o Papa Francisco traça é o de “uma saudável descentralização”, que se fará de várias formas. Por um lado, conferindo maiores poderes à Conferência Episcopal, cujo estatuto até agora não foi completamente definido. “Uma centralização excessiva, em vez de ajudar, complica a vida da Igreja e a sua dinâmica missionária”, escreve.

Contra os tradicionalistas que valorizam o peso dos rituais, do “sempre se fez assim”, Francisco cita Tomás de Aquino, que “destacava que os preceitos dados por Cristo e pelos apóstolos ao povo de Deus ‘são pouquíssimos’” e Santo Agostinho, que “advertia que os preceitos acrescentados pela Igreja posteriormente devem ser exigidos com moderação, ‘para não tornar pesada a vida aos fiéis’”. Esta advertência com tantos séculos, diz o Papa, “tem uma tremenda actualidade. Deveria ser um dos critérios a considerar na hora de pensar uma reforma da Igreja e da sua pregação, que permita realmente chegar a todos.”

Por outro lado, o Papa quer aumentar a responsabilidade dos leigos, que hoje são “mantidos à margem das decisões”. Se há um “não” definitivo quanto à possibilidade de ordenar mulheres como sacerdotes, Francisco sublinha a necessidade de trazer as mulheres mais para dentro da Igreja Católica, conferindo-lhes posições de poder: “É preciso ampliar os espaços para uma presença feminina mais incisiva na Igreja”, escreveu. Os jovens devem ter também maior protagonismo na tomada de decisões, diz o Papa. “Muitas vezes, comportamo-nos como controladores da graça e não como facilitadores. Mas a igreja não é uma alfândega, é a casa paterna onde há lugar para todos”, sublinha.

A Igreja não se deve fechar para ninguém, reafirma Francisco, numas palavras que podem ser lidas como relevantes para a questão dos fiéis divorciados, a quem são negados os sacramentos – ou dos cristãos homossexuais que foram baptizados. “Há portas que nunca se devem fechar. Todos podem participar de algum modo na vida eclesial, todos podem fazer parte da comunidade, e as portas dos sacramentos nunca devem fechar por motivo algum. Isto vale sobretudo para o sacramento que é a ‘a porta’, o Baptismo”, realça o Papa.

Já o aborto é uma questão para a qual não está sequer aberta a discussão, faz parte dos valores “não-negociáveis” da religião cristã (vida e família, essencialmente), defendidos pelos anteriores Papas: “Não é progressista” resolver os problemas “eliminando uma vida humana”. O Papa reconhece, no entanto, que a Igreja Católica “tem feito pouco” para acompanhar as mulheres que se encontram numa situação que as leva a abortar, sobretudo num contexto de violação ou extrema pobreza, “onde o aborto se apresenta como uma rápida solução para as suas profundas angústias”.

 
Alteração no dia 27 Novembro às 11h21: o Papa quer aumentar a responsabilidade dos leigos na Igreja e não dos laicos

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