Um golo infame no estádio da tortura

Há 40 anos, após o golpe militar de Pinochet, a selecção chilena “disputou” sozinha um jogo de qualificação para o Mundial.

O Estádio Nacional, em Santiago, foi utilizado como campo de concentração após o golpe militar de Pinochet
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O Estádio Nacional, em Santiago, foi utilizado como campo de concentração após o golpe militar de Pinochet DR

O dia 11 de Setembro já tinha um significado sinistro antes dos ataques terroristas nos EUA em 2001. Em 1973, foi nesse dia que o general Augusto José Ramón Pinochet liderou um golpe militar no Chile que afastou o Governo eleito de Salvador Allende. Foi nesse dia que começou uma ditadura militar de 17 anos responsável pelo desaparecimento, tortura e morte de dezenas de milhares de chilenos. Uma ditadura que foi responsável por transformar um estádio de futebol num campo de concentração e por um golo ficou tristemente célebre por ter sido marcado numa baliza sem ninguém.

Disputava-se o último lugar no Mundial de 1974 que se iria disputar na Alemanha – seriam 16 selecções, metade das que estarão no próximo Verão no Brasil. Seria o vencedor de um play-off intercontinental entre uma selecção sul-americana e uma europeia. O Chile avançava para a eliminatória decisiva após derrotar o Peru e iria defrontar a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, que ficara em primeiro num agrupamento que incluía República da Irlanda e França. À partida, não haveria qualquer constrangimento diplomático. A URSS era um país amigo do Chile, cujo Governo de Allende era de inspiração socialista.

Depois veio o golpe militar de Pinochet, a morte de Allende (oficialmente, um suicídio, mas esta versão continua a ser muito contestada), a ditadura e a perseguição aos inimigos do regime. O Estádio Nacional, em Santiago, tornou-se um campo de concentração, onde foram presos e torturados milhares de chilenos. Apanhada no meio do golpe, a selecção chilena corria o risco de nem sequer poder ir a Moscovo para disputar o primeiro jogo da eliminatória. A Junta Militar proibiu os chilenos de abandonar o país, mas um dos médicos da equipa tinha influência junto de um dos líderes e desbloqueou a viagem.

Mas, para todos os efeitos, a URSS não considerava o regime de Pinochet como legítimo (ao contrário dos EUA, que o fizeram quase de imediato) e os jogadores seriam sempre vistos como inimigos. A 26 de Setembro de 1973, no moscovita Estádio Lenine, e sob uma temperatura de cinco graus negativos, URSS e Chile empataram sem golos. Tudo ficaria decidido no encontro da segunda mão, a 21 de Novembro, no Estádio Nacional, o que estava a ser usado como campo de tortura. Dias antes do jogo, uma delegação da FIFA visitou o recinto e declarou-o como apto para receber o jogo – os militares haviam feito desaparecer todos os sinais de tortura, para além de terem escondido os prisioneiros.

Contrariando a FIFA, os soviéticos recusaram-se a viajar para a capital chilena. “Por razões morais, os desportistas soviéticos não podem jogar num estádio manchado com o sangue dos patriotas chilenos”, podia ler-se no comunicado da federação soviética. Houve uma selecção de 11 chilenos a subir ao relvado no dia do jogo. Após o apito inicial, os jogadores avançam no terreno, trocam a bola entre si e, mesmo em frente da baliza, é o capitão chileno, Francisco Valdés, que tem a “honra” de marcar o “golo” num jogo que não existia.

Valdés abrandou o suficiente para os fotógrafos se posicionarem e marcou o “golo”. O placar no estádio mostrava 1-0 para o Chile. Em Janeiro do ano seguinte, a FIFA aprovou a participação do Chile no Mundial, mas a carreira da roja na Alemanha foi curta. Num Mundial onde brilharam Johan Cruijff e Gerd Muller, o Chile somou dois empates, uma derrota e marcou apenas um golo.

Planisférico é uma rubrica semanal sobre histórias de futebol e campeonatos periféricos