No centenário de Álvaro Cunhal

As comemorações do seu nascimento, promovidas antes de mais e naturalmente pelo seu partido de sempre, o PCP, mas também pelas mais diversas entidades e instituições – escolas de todos os graus de ensino, bibliotecas, autarquias, sindicatos, colectividades, além de múltiplas expressões artísticas – põem em evidência a actualidade do seu pensamento.

O interesse que as comemorações têm suscitado em todo o país, envolvendo muitos e muitos milhares de pessoas de todas as idades, profissões e opções políticas, é revelador de que não é só de curiosidade histórica de que falamos neste centenário – o que não seria já pouco importante, em tempos de tanto contrabando onde devia haver rigor histórico. Existe respeito por Álvaro Cunhal e pelo PCP, admiração por um português abnegado e corajoso, vontade de conhecer mais do intelectual e do artista. Mas revela sobretudo admiração, respeito e vontade de conhecer as suas posições políticas a que a vida dá razão, nalguns casos de forma surpreendente e brutal.

Razão no alerta que fez quanto às consequências da adesão ao que é hoje a União Europeia e o euro, que estão escancaradamene à vista de todos na gravíssima situação económica do país e no comprometimento da sua soberania.

Razão na afirmação de que o desenvolvimento do aparelho produtivo e da produção nacional são elemento central para sair da crise e para afirmar a soberania e a independência do país.

Razão nos alertas que deixou quanto às consequências da política de direita e das suas consequências na destruição dos direitos políticos, económicos, sociais e culturais conquistados com a Revolução de Abril.

Razão na confiança que sempre depositou na classe operária, nos trabalhadores, na juventude, nas mulheres, no povo.

Confiança e estímulo à unidade, à organização e à luta porque a história e a vida nos mostram que é com elas que se derrotam ditaduras e tiranos, se conquistam direitos, se muda o mundo.

Razão na afirmação do PCP como partido necessário, indispensável e insubstituível aos trabalhadores, ao povo e a Portugal.

Razões reforçadas por uma vida inteira de dedicação às causas da liberdade, da independência, da felicidade humana. Em circunstâncias duríssimas – na clandestinidade, na prisão, sob tortura, no exílio, e depois em liberdade – Álvaro Cunhal viveu corajosamente dedicado ao povo e à sua luta. É um exemplo de vida que revela uma concepção e uma prática de recusa de vantagens e privilégios pessoais, particularmente actual num momento em que nos querem fazer crer que os partidos e os políticos são todos iguais.

Gente dedicada aos interesses dos trabalhadores, que se levanta corajosamente a defender os direitos do povo, que combate firmemente a exploração e as injustiças, que se organiza e luta por um Portugal soberano num mundo mais justo, há felizmente muita. Muita gente que, mesmo não sendo comunista, encontra no exemplo de Álvaro Cunhal uma referência e um estímulo. Muita gente, e cada vez mais, que quer tomar nas suas mãos os destinos das suas próprias vidas.

Margarida Botelho é membro da Comissão Política do Comité Central do PCP