Nicholas P. Tschopp/Flickr
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Megafone

As desventuras de um rapaz daltónico

Agora a pergunta do meio milhão de euros: como é a vida de um daltónico? Lamento o anti-clímax, mas é esta a resposta: absolutamente normal

Todas as doenças deviam ser como o daltonismo. Ligeiras, sem graves implicações na vida de um sujeito e, acima de tudo, responsáveis por boas gargalhadas em jantares. Ser daltónico é das coisas mais saudavelmente estranhas que já me aconteceram. 


Há um A.D. e um D.D. na minha vida. Antes de saber que era daltónico (A.D.), achava que simplesmente tinha aprendido mal as cores ou que eram pontuais e fortuitas distracções minhas. Num concerto, um amigo atira-me um “olha bem para aquela guitarra fabulosa!”, ao que respondo eu “Chiça, verde alface?!”, para grande espanto do meu compincha. A resposta vem rápida mas temerosa: “Não… Laranja…”, largou, antes de bebericar outro gole de cerveja, pensando certamente que “este gajo anda doido”. Mas parece que não.


Em 2009, a vida pôs-me no caminho de um optometrista curioso pela minha extraordinária visão. Ou chamemos-lhe apenas peculiar. Teste de Ishihara completo e… Setenta e dois por cento de daltonismo. Bonito número. Agora já podia legitimar o meu engano constante dos rosas para os cinzentos, dos verdes para os vermelhos e dos laranjas para os castanhos.


Desde então, a primeira pergunta que me fazem quando falo do meu desafio diário com as cores é: “estás a falar a sério?”, como se a malta adorasse andar a brincar com estas coisas. Imediatamente a seguir à primeira gargalhada e ao simpático “que giro!”, vem o inevitável “que cor é esta?”, apontando o interlocutor freneticamente para o elemento mais colorido que estiver nas imediações da conversa.


Agora a pergunta do meio milhão de euros: como é a vida de um daltónico? Lamento o anti-clímax, mas é esta a resposta: absolutamente normal, salvo os pequenos (e divertidos) embaraços. Em 2010, durante dois meses, não pude ver futebol porque a bola escolhida pela Liga Portuguesa de Futebol Profissional era cor de laranja. É impossível escolher roupa sem ajuda. É importante prestar atenção ao sítio onde está a luz acesa do semáforo. E, acima de tudo, é tramado quando nos dão uma cor como referência para qualquer coisa:

“Pá, é aquele prédio cinzento ali à frente!”


“Certo, mas é o das 38 janelas ou o dos varandins hexagonais?”


Ainda assim, há sempre a piadola da coisa. Ser-se daltónico é ter umas lunetas especiais na construção do mundo. É sofrer o choque interessante de se saber que a verdade para a maioria dos seres humanos não o é, afinal de contas, para quem não nasceu capaz de ver as cores certas. Mas, vendo bem as coisas, quais são as cores certas que devemos usar para pintar a vida? Será assim tão descabido que a natureza tenha feito nascer um elefante cor-de-rosa ou um relvado encarnado?


Insisto: todas as doenças deviam ser como o daltonismo. Doenças em que a única dor de espírito é o leve embaraço imiscuído num estranho orgulho, doenças não fatais cuja única convulsão capazes de provocar é a gargalhada.