BMW faz doação à CDU e Alemanha consegue revisão das metas europeias do CO2

Doação foi feita duas semanas após as eleições que deram a vitória à CDU. Na segunda-feira, o Governo alemão conseguiu a reabertura da discussão sobre as metas comunitárias para as emissões de carbono.

Angela Merkel com o CEO da BMW, Norbert Reithofer, em 2011
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Angela Merkel com o CEO da BMW, Norbert Reithofer, em 2011 DANIEL ROLAND/AFP

A CDU confirmou ter recebido uma doação no valor de 690 mil euros do gigante da indústria automóvel BMW, duas semanas depois das eleições alemãs. A revelação vem no seguimento da reunião dos ministros do Ambiente da União Europeia (EU) em que foi reaberto o dossier dos limites para emissões de carbono, nesta segunda-feira, no Luxemburgo.

O Parlamento alemão revelou nesta terça-feira que os três maiores accionistas do fabricante automóvel BMW, Johanna Quandt e os seus dois filhos, Stefan Quandt e Susanne Klatten, fizeram doações no valor de 230 mil em favor da CDU, o partido conservador que lidera o Governo. A doação foi feita a 9 de Outubro, duas semanas depois da vitória dos conservadores nas eleições federais, e foi tornada pública hoje. A imprensa alemã garante que a CDU já confirmou a informação.

“A maior doação singular feita até agora neste ano eleitoral foi transferida nem um mês depois das eleições”, observou Christina Deckwirth, da organização LobbyControl, citada pela agência noticiosa Deutsche Welle. A responsável admitiu igualmente a existência de “uma proximidade em termos de tempo” entre a decisão dos ministros do Ambiente da UE e a doação.

Numa altura em que Angela Merkel procura um parceiro de coligação para assegurar a formação de um Governo estável, esta notícia foi recebida com desagrado por parte das restantes forças políticas. “O tempo entre isto [doação da BMW à CDU] e a defesa dos interesses da indústria automóvel por Merkel apenas vem apoiar aqueles criticam o processo de doações políticas”, referiu Joachim Poss, um dos líderes parlamentares dos sociais-democratas do SPD.

O Die Linke (esquerda radical) foi mais longe nas suas críticas. Um dos deputados do partido, Klaus Ernst, classificou a doação como “o exemplo mais claro de venda política em muito tempo”. Em declarações ao Leipziger Zeitung, Ernst afirmou que “a BMW tem Merkel no bolso”.

Merkel defendeu-se das acusações de favorecimento da indústria automóvel, dizendo que "a doação não tem nada a ver com decisões políticas". "A família Quandt apoia a CDU através de doações privadas, quer esteja na oposição ou no poder", argumentou a chanceler, citada pela AFP.

Também um porta-voz da família accionista maioritária da BMW rejeitou as críticas, em declarações ao Frankfurter Allgemeine Zeitung, referindo que a doação é uma forma de reconhecimento "pelas políticas bem sucedidas da chanceler para ultrapassar a crise do euro".

Alemanha bate pé a parceiros europeus

O ministro alemão do Ambiente, Peter Altmeier, pressionou, durante a reunião entre os ministros dos Estados-membros, os seus parceiros europeus a reabrir a discussão sobre os prazos para aplicar a limitação às emissões de carbono. O acordo actual, firmado em Junho, prevê que os carros produzidos a partir de 2020 tenham emissões abaixo dos 95 gramas por quilómetro. A pretensão da Alemanha, muito dependente da indústria automóvel, é de adiar a entrada em vigor do regulamento para 2024.

“Não é uma luta sobre os princípios, mas sim de como articulamos a necessária clareza em termos da protecção do clima com a flexibilidade e a competitividade requeridas para proteger a indústria automóvel na Europa”, defendeu Altmeier, de acordo com a Reuters. “Estou convencido de que podemos encontrar uma tal solução. Podemos encontrá-la nas próximas semanas”, acrescentou.

Foi com desapontamento que a comissária europeia para o Clima, Connie Hedegaard, reagiu à decisão dos ministros da UE. “Não é uma coisa óptima que não consigamos concluir [a regulação] nos carros”, afirmou. A comissária garantiu que a flexibilidade seria limitada e que não seria aceitável aceder à proposta alemã de adiar por quatro anos a implementação das metas.

Os fabricantes alemães mais relevantes da indústria automóvel, a Daimler e a BMW, produzem carros mais pesados e de maior consumo quando comparados com os seus congéneres italianos e franceses, o que dificulta o cumprimento dos limites às emissões de CO2.

Um estudo da consultora britânica Cambridge Econometrics, citado pela Reuters, revelou que a entrada em vigor das metas das emissões de carbono poderia permitir uma poupança de cerca de 70 mil milhões de euros em importações de petróleo por ano. “É um preço inaceitável, aquele que será pago por cada condutor europeu em contas de combustíveis que potencialmente vão danificar o sector automóvel europeu e irão torná-lo menos competitivo”, observou Greg Archer, um membro do grupo Transport & Environment. “O acordo feito em Junho era um compromisso político razoável. Agora temos de voltar ao quadro de esboços”, lamentou.

Notícia actualizada às 18:24 - Acrescentaram-se as reacções de Angela Merkel e do porta-voz da família Quandt.