Opinião

A noite de Rui Moreira e do descalabro da maioria

A surpreendente vitória de Rui Moreira no Porto, o descalabro dos candidatos da maioria nas primeiras autarquias para as quais as televisões fizeram projecções e o triunfo estrondoso de António Costa em Lisboa são as notas salientes deste início de noite eleitoral.

Há um candidato independente a dirigir uma das duas maiores cidades do país – e isto é suficiente para sublinhar a relevância das candidaturas independentes nestas eleições. Marco Almeida, outro independente, está a disputar a vitória em Sintra, palmo a palmo, com Basílio Horta. Não vamos ficar por aqui.

Mas a candidatura de Moreira, mesmo que contando com o apoio de um partido, o CDS, é radicalmente diferente de outras candidaturas independentes. Muitas destas, na verdade, são dissidências partidárias motivadas por divergências com as escolhas dos aparelhos partidários a nível nacional.

No caso do Porto, tratou-se de um movimento da cidade, em grande parte para impedir que Luís Filipe Menezes atravessasse o rio Douro. Moreira agregou apoiantes de Rui Rio, elites económicas e culturais da cidade, desfez o PSD e partiu a candidatura do Partido Socialista – Pizarro teve um resultado muito fraco, comparativamente ao de Elisa Ferreira, em 2009.

Pela sua natureza, a vitória de Rui Moreira abre um precedente extraordinário, quanto à capacidade de uma cidade gerar um movimento no essencial autónomo, com uma representatividade e ideias próprias, que agora terá de aplicar o seu programa no terreno.

Os números das projecções de Moreira são importantes e mostram como o candidato independente desfez o quase-empate que as sondagens davam para o Porto.

A vitória de Moreira é a derrota de Luís Filipe Menezes, que desde o princípio acreditou que a sua campanha iria ser um passeio olímpico. Menezes tinha 32% das intenções de voto na sondagem do Expresso divulgada em Agosto. A melhor projecção dá-lhe 22 a 25%. Poderá ser derrotado por Manuel Pizarro. É uma enorme humilhação.

Mas o antigo presidente de Vila Nova de Gaia pagou também o preço da enorme penalização que os eleitorados urbanos parecem estar a impor aos candidatos apoiados pela maioria. Os resultados de Fernando Seara em Lisboa, de Pedro Pinto em Sintra e de Abreu Amorim em Gaia são no mínimo desoladores. Poderemos estar no princípio de uma noite catastrófica para o PSD e o CDS.

As ondas de choque do terramoto não deixarão de afectar a estabilidade da coligação, quando, na segunda-feira, o país despertar de novo para as duras realidades da troika e dos juros.

O maior partido da oposição consegue, para já, dois enormes triunfos. A vitória de António Costa é simplesmente esmagadora: reforça a votação de 2009 e conseguiu a cereja no cimo do bolo, ou seja, aumentar o número de vereadores para dez ou talvez 11.

A vitória de Eduardo Vítor Rodrigues, antecipada pelas projecções, terá alcançado também números muito expressivos, face às sondagens, quando se esperava que o independente Guilherme Aguiar estivesse em condições de se bater pela vitória.