Discursos anticiganos em França provocam ameaça de sanções de Bruxelas

Ministro do Interior, Manuel Valls, disse que “a maioria dos roma devia ser reconduzida à fronteira”.

Desmantelamento de um acampamento de ciganos em Lille
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Desmantelamento de um acampamento de ciganos em Lille DENIS CHARLET/AFP

A Comissão Europeia voltou a ameaçar a França com sanções, lembrando que as pessoas de etnia cigana, cidadãos europeus, têm o direito a circular livremente em todos os Estados-membros da União Europeia.

“A livre circulação, como a liberdade de residir num outro país, são direitos fundamentais (…). Se esses princípios inscritos nos tratados não são respeitados, a Comissão utilizará todos os meios à sua disposição para sancionar essas violações”, avisou nesta quarta-feira o porta-voz da Comissão, Olivier Bailly.

A polémica sobre os roma da Roménia e da Bulgária está ao rubro em França, alimentada pelas declarações do ministro do Interior, o socialista Manuel Valls, sobre a sua impossível integração na sociedade gaulesa e a sua inevitável expulsão.

“A maioria dos roma devia ser reconduzida à fronteira”, voltou hoje a dizer Valls em declarações à televisão BFMTV. “É ilusório pensar que conseguimos resolver o problema unicamente através da inserção social”, tinha dito o ministro na terça-feira, evocando os seus “modos de vida extremamente diferentes dos [franceses] e que entram evidentemente em confronto” com os dos franceses. “É na Roménia e na Bulgária que, em certa medida, os projectos de inserção devem ser desenvolvidos”, sugeriu o ministro.

“Há eleições no ar”
Em ambiente pré-eleitoral para as autárquicas de Março de 2014, o tema dos ciganos entrou no debate, como, aliás, acontece recorrentemente em França em véspera de eleições.

O caso mais polémico a chegar aos jornais foi o do presidente da câmara de Croix (norte, perto de Lille), Régis Cauche, da UMP (direita), que disse que “apoiaria” um habitante da sua cidade que cometesse “o irreparável” em nome da “legítima defesa” contra um cigano.

A totalidade da classe política em Paris condenou as declarações de Cauche, que o deputado da UMP Sébastien Huygue classificou de “apelo ao ódio racial”. Mas os habitantes de Croix apoiaram o seu presidente da câmara. “Os ciganos roubam por todo o lado”, resumiu Marie, uma reformada, ao jornal Libération.

O acumular de declarações mais ou menos inflamadas sobre os roma, mas principalmente as afirmações do ministro Valls levaram Viviane Reding, vice-presidente da Comissão Europeia, a arriscar uma justificação: “Há eleições no ar em França.”

“De cada vez que não querem falar das coisas importantes como o orçamento ou a dívida pública, falam dos roma”, acusou Reading. A também comissária da Justiça lembrou os “50 mil milhões” que a União Europeia pôs à disposição dos Estados-membros para a inserção dos roma. “Acontece que o dinheiro não chega lá, às cidades, às câmaras municipais, onde há instalações ilegais que deviam ser desmanteladas.”

Cinco mil expulsões este ano
Em Julho, foi o ex-ministro das questões europeias de Nicolas Sarkozy, Pierre Lellouche (UMP), que acusou a Roménia de desbaratar os fundos europeus para a inserção dos roma, qualificando o país de “Estado-ladrão” numa carta ao embaixador de Bucareste em França.

Lellouche denunciou as “condições perfeitamente indignas” em que vivem os roma, “apesar dos milhões de euros desembolsados pela Europa para ajudar a Roménia a integrar correctamente” esta minoria étnica.

Em França, os ciganos “continuam a ser vítimas de expulsões forçadas” dos seus acampamentos, apesar de uma decisão interministerial de Agosto de 2012, e essas expulsões estão a aumentar, denunciou também nesta quarta-feira a Amnistia Internacional

No país vivem entre 15 mil a 20 mil roma, e cerca de cinco mil, segundo associações citadas pelo Libération, foram expulsos durante o segundo trimestre de 2013.