Abdellatif Kechiche preferia guardar o seu ménage à trois na gaveta

A dias da estreia de La Vie d'Adèle no mercado francês, e depois das declarações das suas actrizes, o realizar tunisino diz que se sente retratado como um "sádico tirano" e que preferia que o filme não estreasse

Abdellatif Kechiche com Lèa Seydoux (à esquerda) e Adèle Exarchopoulos em Cannes, quando receberam a Palma de Ouro
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Abdellatif Kechiche com Lèa Seydoux (à esquerda) e Adèle Exarchopoulos em Cannes, quando receberam a Palma de Ouro Eric Gaillard/Reuters

Foi o filme sensação da última edição do festival de Cannes – e com Palma de Ouro à altura do ménage à trois entre o realizador e as suas actrizes (os três premiados) –, no entanto, agora que aterrou em nova etapa de polémica, o tunisino Abdellatif Kechiche acha que talvez fosse melhor La vie d’Adèle Chapitres 1 et 2 não chegar às salas de cinema.

Numa entrevista à revista Télérama desta semana, Kechiche diz que, depois das declarações recentes das suas actrizes (sobretudo Léa Seydoux), o filme está “demasiado sujo”: “Na minha opinião, este filme não devia sair. A Palma de Ouro não foi mais do que um breve instante de felicidade, logo de seguida senti-me humilhado, desonrado, senti uma rejeição à minha pessoa que vivo como uma maldição.”

Após títulos como O Segredo de um Cuscuz (2007) ou Vénus Negra (2010), em La vie d’Adèle… Kechiche partiu da novela gráfica Le bleu est une couleur chaude, de Julie Maroh, para narrar a educação sentimental e sexual da adolescente Adèle (Adèle Exarchopoulos) a partir do seu coup de foudre por uma Emma de cabelos azuis (Léa Sey­doux).  

Foram meses de rodagem, dez dias exclusivamente para uma grande cena de sexo.

Depois da estreia em Cannes, a curiosidade sobre o que se fez no plateau e como pôs meio mundo a suar de desejo, mas também de pudor. As actrizes falaram sobre o “método Kechiche” explicando que, com ele, filmar foi como entrar para uma família.

A câmara sempre à distância – apenas as focais, imperceptíveis, a percorrer de longe (mas muito de perto…) o calor dos corpos das actrizes…

Elas explicaram, por exemplo, que nunca sabiam exactamente se e como estavam em cena. Nada demais. Mas, entretanto, o tempo passou e as entrevistas foram-se somando. E, no fim de contas, e à beira da aguardada estreia no circuito comercial francês – 9 de Outubro –, Kechiche sente-se retratado como o “realizador sádico e tirano” sobre quem acha que pairam dúvidas sobre se terá assediado as actrizes, se as terá acariciado sem que elas ousem confessá-lo. Tudo porque nos últimos tempos elas começaram a fazer saber à imprensa pormenores sobre os motivos pelos quais estaria fora de questão voltarem a trabalhar com Kechiche após esta experiência “horrível”.  

“Kechiche é um génio, mas torturado”, “em certo sentido, fica-se preso numa armadilha” de violência física e emocional, foi-se ouvindo. “Vê-se que estávamos realmente a sofrer”, disse Adèle Exarchopoulos ao Daily Beast. “Com a cena de luta, foi horrível. Ela [Léa Sey­doux] estava-me a bater tantas vezes, e [Kéchiche] gritava: Bate-lhe! Bate-lhe outra vez!”

Léa Sey­doux acrescentou: “Nos Estados Unidos estaríamos todos presos. [Kechiche] filmava com três câmaras, assim, a cena de luta foi um take contínuo de uma hora. E durante a filmagem eu tinha que empurrá-la através de uma porta de vidro e gritar: ‘Agora vai-te embora!” E ela [Adèle] bateu na porta e cortou-se e estava a sangrar por todo o lado e a chorar, com o nariz a pingar, e depois ele [Kechiche] disse: ‘Não, ainda não acabámos. Vamos fazer outra vez.’”

Sey­doux falou também sobre o momento em que, em Cannes, se visionou a longa cena de sexo: “Todas as nossas famílias estavam lá, por isso, eu fechava os olhos. [Kechiche] disse-me para eu imaginar que não era eu, mas sou eu, por isso, fechava os olhos e imaginava que estava numa ilha distante, mas não podia deixar de ouvir, portanto não consegui escapar. A cena é um pouco longa demais.”

Ver-se a braços com actrizes que não anteciparam ou digeriram o seu desempenho não é o primeiro contratempo para Kechiche. A 23 de Maio, quando La Vie d’Adèle estreou em Cannes, lá fora houve uma manifestação do Spiac-CGT, o sindicado de profissionais da indústria audiovisual e cinematográfica. Denunciavam-se o que terão sido as más condições de trabalho no filme, com os intermitentes a fazerem acusações de atropelos graves ao código de trabalho – dias de rodagem de mais de 16 horas, falta de pagamento de horas extraordinárias, pressões de todos os tipos…

E depois veio ainda a questão da classificação da obra, devido aos nus frontais e ao sexo explicito. A questão foi: porno? Julie Maroh, a autora da banda-desenhada em que se baseia o filme achou que sim. “É uma exibição brutal e cirúrgica, demonstrativa e fria de sexo dito lésbico, que se torna pornográfica”, disse à imprensa.

As declarações das actrizes começaram pouco depois. Por exemplo à Premiére, explicando que fora “embaraçoso” ver no grande ecrã o que tinham feito na “intimidade” da família de plateau.

Talvez devido tanto devido a esse “embaraço” como à classificação da obra tenha surgido a necessidade de explicar que o sexo não foi real, que havia próteses. Enfim, que “quando se morre num filme não se morre na vida real”. E La Vie d’Adèle acabará por chegar às salas com interdição apenas para menores de 12 anos. No entanto, Kechiche acha que, agora, ninguém verá o filme com “coração virgem e olhar benevolente”.

“Ela [Léa Seydoux] não está a medir as consequências desastrosas das suas palavras”, diz o realizador tunisino à Télérama. “As suas declarações são piores do que cuspir na sopa, são uma falta de respeito por uma profissão que considero sagrada. Se realmente viveu o que conta, então porquê ter vindo a Cannes chorar, agradecer, passar dias a experimentar vestidos e jóias? Que profissão tem ela, actriz ou artista de gala?”

Na mesma entrevista, Kechiche explica que, chegou a pensar chamar Sara Forestier ou Mélanie Thierry para o papel de Emma, mas que acabou por ceder a Seydoux, que insistiu em ficar e lhe garantiu que conseguiria fazer a personagem.