Um dueto de titãs em Lisboa faz-se com poemas

O que acontece numa tarde quente de sábado quando um dos maiores escritores brasileiros se encontra com o maior poeta árabe vivo?

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Milton Hatoum e Adonis este sábado na Fundação Gulbenkian Daniel Rocha
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O poeta sírio Adonis e o escritor brasileiro Milton Hatoum no Programa Futuro Próximo da Gulbenkian Daniel Rocha

Milton Hatoum, 61 anos, saiu de Manaus, no Brasil, viveu em Paris e Barcelona, parou em São Paulo. Ali Ahmad Said Esber, que conhecemos pelo seu nome de poeta, Adonis, 83 anos, saiu de Kassabin, na Síria, viveu no Líbano, parou em Paris.

Neste sábado, a Fundação Gulbenkian trouxe a Lisboa este escritor brasileiro que já ganhou os prémios Jabuti e Portugal Telecom de literatura e o sírio Adonis, considerado o maior poeta árabe vivo. A conversa fez parte do ciclo Grandes Lições, do Programa Próximo Futuro, comissariado por António Pinto Ribeiro.

Na sala lotada não se falou apenas de poesia, mas recitaram-se poemas, como num dueto. Hatoum, que escreveu a apresentação da primeira tradução de Adonis do árabe directamente para o português (do Brasil), Adonis, Poemas (edição Companhia das Letras), lia um poema do sírio em português, e Adonis respondia-lhe recitando outro em árabe.

“A língua francesa é intelectual. Para escrever poesia em francês é preciso travar uma guerra com a língua”, explica o poeta sírio que adoptou França como casa, arrancando risos do público. “Para escrever em árabe, travamos outra guerra. Não é uma língua intelectual, é corporal, escreve-se com o corpo, com os sentidos, com o ritmo do coração, com a pele. É uma força carnal.” O que a plateia parece, a esta altura, já ter compreendido depois de o ouvir recitar dois poemas em árabe. São as mãos de Adonis que se mexem em direcção ao rosto, são os gestos que parecem contar o que se passa. Não se percebe o significado das palavras mas sente-se a poesia no ar.

Milton Hatoum tem curiosidade. O que sente Adonis quando ouve um poema seu em português? Uma língua familiar ou distante? "Não sinto propriamente através da língua, sinto através da voz, dos gestos, a unidade com os outros", diz. “Se sou um nativo do Oriente é porque, antes de mais nada, invento meu próprio Oriente”, escreveu uma vez Adonis, lembra o brasileiro, Milton Hatoum, de origem libanesa, cujo primeiro livro - Relato de um certo Oriente - é a confluência do Amazonas com o Médio-Oriente.

Mas o Oriente real é motivo de crítica por parte da voz independente que os estados autoritários do Médio-Oriente preferem ignorar. “Nunca se estudou a estética da língua árabe – afirma Adonis - como nunca se fala de mudança no Médio-Oriente do ponto de vista das sociedades, apenas de governo, do poder, dos conflitos religiosos. Como se mudar uma sociedade fosse mudar de mãos o poder. Nunca falamos do direito das mulheres, nem do estado laico. Como imaginar uma revolução num país que impõe uma religião e que não quer libertar a mulher? Então o que é uma revolução?"

Inevitável a pergunta: Como vê o que se está a passar no seu país de origem, a Síria?

“Quanto tempo tenho para responder?” São 10 minutos. “É pouco para uma resposta que teria que ser longa.”

" Você não é muito querido pelos religiosos mais ortodoxos", comenta Hatoum. "É o preço a pagar pelo pensamento independente"?

“ Não sou contra as religiões. Mas sou contra as religiões impostas pelos Estados e o monoteísmo – do Islão, do Cristianismo, do Judaísmo. Religião é um assunto pessoal. Sou contra a imposição de uma religião sobre toda uma sociedade. Não se pode criticar o monoteísmo dos países árabes. Muita gente pensa como eu mas é marginalizada… E o papel do Ocidente? O Ocidente joga contra a sua própria História", defende o sírio

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Depois de uma hora de conversa é a cantora de fados Mísia, na plateia, que faz Adonis voltar à poesia. “E esta força carnal de que o Adonis fala quando descreve a poesia árabe não podia talvez estar na música, mesmo na europeia?” Poesia, pensamento cantado, gestos, sentidos, força carnal mais uma vez. “ Poesia é como o amor. Começa de estalo mas depois tem que ser construída.”

O que acontece mesmo quando um dos maiores escritores brasileiros se encontra com o maior poeta árabe vivo numa tarde quente de Lisboa?

Poesia.

Vida.