Crimes de guerra agravam-se nas batalhas pelo território na Síria

Documento da ONU diz que a oposição não conseguiu estabelecer-se como alternativa viável a Assad.

A cidade de Deir Ezzor (leste) fotografada na terça-feira
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A cidade de Deir Ezzor (leste) fotografada na terça-feira AHMAD ABOUD/AFP

Na guerra que se trava na Síria estão a ser cometidos cada vez mais crimes de guerra, denuncia um relatório dos investigadores de crimes contra os direitos humanos das Nações Unidas.

De acordo com os dados recolhidos entre 15 de Maio e 15 de Julho, e divulgados esta quarta-feira, as forças sírias estão a bombardear hospitais e a massacrar civis, realizando ataques de conquista de território às forças da oposição e aos grupos rebeldes.

Mas no lado oposto também se estão a cometer crimes de guerra e foram identificados os cometidos por grupos islamistas que combatem na Síria e que, ao longo deste ano, executaram soldados, fizeram reféns e bombardearam civis.

"Os responsáveis por estas violações e crimes, de ambos os lados, agem em desrespeito pela lei internacional. Não receiam represálias [pelo que fizeram]. É imperativo que seja aplicada a justiça", disse o brasileiro Paulo Pinheiro que apresentou o relatório em Genebra, na Suíça.

Pinheiro disse que a equipa de investigadores de crimes contra os direitos humanos recebeu denuncias sobre o uso de armas químicas "predominantemente por parte das forças governamentais". "Perante as evidências disponíveis não foi possível chegar a uma conclusão sobre os agentes químicos usados, sobre a forma como foram usados ou sobre quem os usou. As investigações prosseguem", diz o relatório citado pelas agências noticiosas.

Para a redacção deste relatório os 20 investigadores entrevistaram 258 refugiados, desertores e outras pessoas, na região e em Genebra, tendo o Skype sido usado algumas vezes. Este é o 11.º relatório da equipa em dois anos, não tendo a ONU sido autorizada — apesar dos vários pedidos ao governo de Damasco — a entrar na Síria de forma a que a sua equipa ai pudesse realizar uma investigação no terreno.

O relatório apela a todos os países para "pararem o envio de armas [para a Síria] porque existe um risco elevado de serem usadas para cometer crimes sérios que violam a legislação internacional".

A guerra na Síria dura há dois anos e meio e os principais intervinientes são as forças armadas governamentais e a oposição armada que tenta derubar o regime do Presidente Bashar al-Assad. Grupos independentes, alguns islamistas, combatem também no território. 

Oposição não é alternativa a Assad

É com base neste cenário complexo de grupos vários disseminados pelo território que a comissão que investiga os crimes contra os direitos humanos faz também uma análise política do que se passa no terreno. A oposição, diz o relatório, não conseguiu estabelecer-se como alternativa a Assad. Isto porque não conseguiu "unificar as suas estruturas sob um comando unificado". A ONU adverte que "a radicalização dos grupos armados continua" e aumenta o número de combatentes estrangeiros que são muito disciplinados e estão bem treinados.

O relatório sublinha que estes grupos radicais estão em vanntagem em relação às facções moderadas em algumas zonas, o que explica que a Al-Nusra, a Al-Sham e o Estado Islâmico do Iraque tenham os seus próprios territórios dentro da Síria.

De acordo com os comissários dirigidos por Paulo Pinheiro, as forças governamentais recuperaram nos últimos meses o controlo de zonas vitais. "À excepção de Alepo, as forças governamentais reforçaram o controlo nas grandes cidades e nos centros económicos mais importantes". Damasco também consolidou o controlo de zonas que estavam em disputa como Homs e o subúrbio rural de Damasco.