As regras que colocaram o futebol no caminho do futebol

O livro onde foram escritas as 13 regras fundadoras do futebol está exposto na British Library, em Londres, e vale 2,9 milhões de euros.

O FA Minute Book
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O FA Minute Book DR

É difícil para um adepto nos nossos dias chamar futebol a um jogo em que se podia tocar a bola com a mão, empurrar os adversários ou ter balizas sem postes. Mas era, mais ou menos, isso que acontecia até 1863, quando foram escritas as primeiras regras do football association. Foi nesse ano que Ebezener Corb Morley, secretário-geral da Federação Inglesa, escreveu o “FA Minute Book”, que é quase consensualmente o momento fundador do futebol moderno.

Esse livro, que tem as 13 regras fundadoras do futebol, está desde o dia 21 de Agosto (e até 17 de Dezembro) exposto na British Library, em Londres. Avaliada em 2,9 milhões de euros, essa obra marca o momento em que o futebol e o râguebi começaram a percorrer caminhos diferentes, a ponto de hoje serem duas modalidades completamente distintas.

Até 1863, o futebol e o râguebi misturavam-se nos campos das universidades britânicas. Em Cambridge, já tinha sido feita uma primeira tentativa de estabelecer regras, mas havia uma forte tensão entre aqueles que eram mais adeptos do jogo com a mão e aqueles que desejavam dar prioridade ao jogo com o pé.

O “FA Minute Book” permitiu iniciar a separação entre as duas modalidades, embora esse jogo de 1863 ainda estivesse longe do futebol dos nossos dias. Quem abrir esse mítico livro, verá que o campo de jogo podia ter 183 metros de comprimento e 91 de largura, bem mais dos que máximos actuais (120x90). Ainda se podia tocar a bola com a mão (para a parar, por exemplo), embora não fosse permitido correr com ela nas mãos, levantá-la do chão ou passá-la a um colega com as mãos.

Já havia uma regra de fora-de-jogo, embora fosse bem diferente da actual. Esse off-side tinha mais a ver com o do râguebi. Quando a bola era chutada, nenhum jogador da equipa atacante podia tocar no esférico se estivesse à frente do colega que a tinha rematado. Havia ainda outras regras estranhas para os dias de hoje. Sempre que era golo, as equipas tinham de trocar de campo. E era golo desde que a bola passasse entre os dois postes da baliza, independentemente da altura.

Apesar de todas estas diferenças face aos dias de hoje, estas primeiras regras foram mesmo importantes. “Sem este livro, o mundo não teria o seu desporto mais popular”, disse na semana passada Greg Dyke, presidente da Federação Inglesa, instituição que está celebrar os seus 150 anos.

Três anos depois da introdução destas primeiras regras, ocorreram mais duas alterações importantes na história do futebol. A partir de 1866, foram autorizados os passes para a frente e a regra do fora-de-jogo foi alterada, considerando os jogadores em posição legal desde que houvesse três adversários entre eles e a linha de golo. A matriz do jogo distanciava-se ainda mais do râguebi e o pé ganhava definitivamente o protagonismo.

Nesse mesmo ano de 1866 foi criado o International Board, o órgão que ainda hoje controla a regras do jogo. Foi o IB que foi aprovando todas as grandes alterações, até chegarmos às 17 leis actuais.

A posição específica de guarda-redes foi criada em 1871. O penálti nasceu em 1891, ano em que o jogo de futebol passou a contar com um árbitro – até aí, eram os capitães de equipa que decidiam quando havia dúvidas sobre as regras. Em 1912, os guarda-redes deixaram de poder agarrar a bola com a mão fora da área. As substituições foram autorizadas em 1958 e no Mundial de 1970 surgiram os cartões amarelos e vermelhos. A partir de 1992, os guarda-redes deixaram de poder agarrar a bola com mão quando esta era passada por um colega de equipa com o pé. E assim se foi moldando o jogo mais popular do mundo, desde que há 150 anos Ebezener Corb Morley e companheiros se juntaram na taberna Freemansons para colocar ordem num jogo que não tinha regras universais e escritas.

* Planisférico é uma rubrica semanal sobre histórias e campeonatos de futebol periféricos