O filme de amor e vírus de Joaquim Pinto triplamente premiado em Locarno

Três galardões do festival italo-suíço entregues este sábado, com o Leopardo de Ouro a ir para Historia de la meva mort, do catalão Albert Serra

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Nuno Leonel (à esquerda) e Joaquim Pinto (à direita) Rui Gaudêncio
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O filme passa em Portugal nos festivais Queer e DocLisboa DR

E agora? Lembra-me, documentário de Joaquim Pinto e Nuno Leonel sobre a vivência na primeira pessoa de um tratamento experimental contra a hepatite C, venceu o Prémio Especial do Júri (antigo Leopardo de Prata) no 66.º Festival de Locarno, que terminou este sábado. A única longa-metragem portuguesa na competição internacional do festival italo-suíço recebeu ainda o prémio Fipresci e o terceiro prémio do Júri Jovem. “Orgulhoso”, a leitura de Joaquim Pinto sobre este palmarés de júris diversos é de que “o filme não pode ser restringido à sua temática”, mas não deixa de acreditar na importância social deste retrato.

O Leopardo de Ouro, prémio máximo do festival, foi para Historia de la meva mort, do catalão Albert Serra. O melhor realizador foi Hong Sang-soo, com U ri Sunhi.

Ao telefone de Locarno, Joaquim Pinto partilha os prémios com o seu companheiro de filmagem e de vida, Nuno Leonel – “é um filme nosso” –, e considera que “o júri [do prémio especial] foi sensível ao filme enquanto filme e às questões que ele levanta”. O júri da competição internacional é presidido pelo realizador filipino Lav Diaz e composto pelo perito cinematográfico suíço Matthias Brunner, pelo produtor chileno Juan de Dios Larraín, pela realizadora e actriz francesa Valérie Donzelli e pelo realizador e produtor grego Yorgos Lanthimos.

O prémio Fipresci – Federação Internacional de Críticos de Cinema, entregue durante a tarde numa cerimónia transmitida em directo na Internet, “tem um significado especial”, por vir da crítica, um público e um júri especializado; o prémio do júri jovem, que recebeu também à tarde, foi seguido por uma série de abordagens de adolescentes, “jovens que estão agora a despontar para o cinema”, “o que confirma a sensação que tinha de que este filme pode tocar um público muito abrangente”.

O filme de Joaquim Pinto e Nuno Leonel, que terá antestreia nacional em Setembro na edição de 2013 do Festival Internacional de Cinema Queer, em Lisboa, para depois integrar o alinhamento da próxima edição do DocLisboa, acompanha o realizador num excerto da sua vida – portador de hepatite C e HIV há cerca de 20 anos, submete-se a um tratamento experimental contra a hepatite C e leva-nos com ele. Não há ainda data de estreia comercial mas “já houve propostas” de distribuição do filme vindas dos EUA, França e Portugal, diz o produtor e realizador.

“O que é importante é que o filme seja visto”, explica, “porque pode mexer de várias maneiras” com a realidade da hepatite C e seus tratamentos em Portugal, onde “há uma grande percentagem do país afectada e muitas vezes as pessoas nem sabem” ser portadoras do vírus. A crítica presente em Locarno recebeu os 164 minutos de E Agora? Lembra-me elogiando uma "bela lição de sobrevivência" (Télerama) ou o "delinear da tragédia de viver uma vida plena e da consciência de que ela se escapa" (Indiewire).

Autor de Uma Pedra no Bolso (1988), Onde Bate o Sol (1989), Das tripas coração (1992), Moleque de rua (1997) ou Porca Miséria (2007), no passado engenheiro de som em inúmeros filmes e produtor de João César Monteiro (A Comédia de Deus, O Bestiário) ou Teresa Villaverde (A Idade Maior, Três Irmãos), Joaquim Pinto e Nuno Leonel inscreveram-se já numa tradição de um cinema que filma a seropositividade, a hepatite e o amor. Podem citar-se nessa genealogia Silverlake Life (1993), de Peter Friedman e Tom Joslin, e La Pudeur ou L'Impudeur (1990-1991), de Hervé Guibert.

A presença portuguesa em competição neste festival fez-se de Joaquim Pinto, mas também de Carlos Conceição, com Versailles, candidato na secção para novos realizadores Pardi di domani – da mesma produtora de E Agora?, a CRIM. Fora de competição, estiveram Mahjong, de João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata, e O corpo de Afonso, de João Pedro Rodrigues, além do tributo a Paulo Rocha, que morreu em Dezembro de 2012, com a estreia póstuma de Se fosse ladrão... roubava e a exibição de Verdes Anos (1964) e a versão digital restaurada pela Cinemateca Portuguesa de Mudar de vida (1966).

Em 2012 João Rui Guerra da Mata e João Pedro Rodrigues mereceram a menção especial do júri e o Baccalino d’Oro, prémio atribuído por jornalistas e críticos para a melhor realização com A última vez que vi Macau. Em 2011 já Gonçalo Tocha tinha ganho a Menção Especial na secção Cineastas do Presente com o seu É na terra não é na lua e em 2010, Gabriel Abrantes ganhou o Leopardo de Ouro da Pardi di domani com A history of mutual respect, que realizou com Daniel Schmidt. com Catarina Moura
 
 
 
 
 
 
 

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